As primeiras revoltas dos trabalhadores
Em julho de 1378, os ciompi ocuparam o centro do poder de Florença para exigir o direito de associação e participação na vida pública, conseguindo o reconhecimento de três novas corporações, que passaram a representar as classes populares.
Diversos autores, Marx incluído, apontaram as primeiras manifestações de capitalismo na Itália dos séculos XIII e XIV. A revolta dos explorados pelo novo sistema de produção manifestou-se desde cedo, sem, no entanto, conseguir abrir uma perspetiva de sociedade própria. Na Florença medieval, a república estava fundada sobre a exclusão de parte importante dos seus habitantes da vida política. A sua democracia não estava baseada na reivindicação de direitos fundamentais de todos os cidadãos, mas no privilégio de uma parte deles de exercer o poder. Nessa “democracia oligárquica”, em 1344, o setor mais empobrecido da sociedade, liderado por Ciuto Brandini, protagonizou uma rebelião social que transcendeu a sua época. O seu objetivo imediato era estabelecer uma corporação que representasse os setores mais pobres, afastados da vida pública e política. Chamados “gente magra”, eles eram uma camada social composta por pequenos comerciantes arruinados e trabalhadores agrários, que tinham vindo do campo para as cidades para satisfazer a necessidade de mão de obra barata.
Poucas décadas depois explodiu em Siena a revolta encabeçada por Francesco d’Agnolo, conhecido como Barbicone, trabalhador têxtil. Era o ano de 1371 e os iniciadores da revolta eram trabalhadores sujeitos ao despotismo da guilda Arte della Lana, contra o qual se revoltaram. O protesto estendeu-se a outros setores da população de Siena e abriu um período de conflitos entre cidadãos e grandes senhores. Poucos anos depois, novamente em Florença, houve o motim dos ciompi, em 1378; os seus iniciadores foram os trabalhadores menos qualificados, trabalhadores da cardação, responsáveis por cardar e pentear a lã. A situação social florentina era grave devido à “guerra dos oito santos”, na qual se confrontaram Florença e diversas cidades italianas contra os Estados papais, guerra que resultou na derrota das cidades e numa pesada multa contra Florença, onde a corporação de artesãos se rebelou contra os banqueiros e grandes mercadores que detinham o poder da cidade, revolta que recebeu o apoio dos ciompi, a camada social mais pobre, que assumiram o controle da situação.
Em julho de 1378, os ciompi ocuparam o centro do poder de Florença para exigir o direito de associação e participação na vida pública, conseguindo o reconhecimento de três novas corporações, que passaram a representar as classes populares (o “povo de Deus”): a dos ciompi, a dos alfaiates e a dos tintureiros. Sob a direção de Michele di Lando, os trabalhadores ocuparam o Palazzo dei Priori (Palazzo Vecchio) e obtiveram satisfação parcial para os seus pedidos, alguns dos quais diziam respeito à representação política. Di Lando tornou-se gonfaloniere (magistrado) da justiça. O governo encabeçado por Di Lando, principal dirigente dos ciompi, viu crescer as exigências das camadas populares, como o cancelamento das dívidas, e, por outro lado, a resistência dos mais ricos. Porém, o novo líder da cidade, embora oriundo da “arraia miúda”, alinhou-se com os mais ricos para reprimir os protestos populares. Ocorreu uma feroz batalha contra as guildas maiores, lideradas pela corporação dos açougueiros. Os ciompi e os seus aliados foram massacrados numa jornada sangrenta. Os ciompi protagonizaram uma revolta de explícito caráter social, já não apenas religioso, aspecto dominante durante a Idade Média. Porém, a sua direção, quando sobreveio a repressão contra o povo, acabou por ficar do lado dos repressores.
Na Europa da Idade Média não faltaram homens que esperavam o advento do reino de Deus e a destruição da ordem social existente. O milenarismo refazia-se sempre, sobretudo a partir do século XIV, quando a sociedade feudal começou a ruir sobre os seus fundamentos. Assim se explica o caráter social assumido por alguns movimentos, primeiro na Inglaterra, depois na Boémia em torno de Jan Huss e os taboritas, e finalmente na Alemanha durante as guerras camponesas, com a criação, em Münster, de uma “Jerusalém celeste”. Segundo Engels, que estudou esses e outros movimentos, eles defendiam ideias sociais sob invólucro religioso devido ao contexto ideológico geral da época. No Manifesto Comunista lemos que as primeiras revoltas dos trabalhadores despossuídos fracassaram “não só por causa do estado embrionário do próprio proletariado, como também devido à ausência das condições materiais da sua emancipação, que apenas surgem como produto da época burguesa”. Essas condições incluíram “séculos para que o trabalhador ‘livre’ se adaptasse voluntariamente, ou seja, fosse socialmente obrigado a vender todo o seu período ativo de vida pelo preço dos seus meios habituais de subsistência. Com a sua própria capacidade de trabalhar, foi forçado a vender o seu direito de primogenitura por um prato de lentilhas”. A repressão das suas primeiras revoltas foi um dos aspetos dessa adaptação; ela preparou a vitória incontestada de um novo modo de produção.•
Osvaldo Coggiola
Historiador e professor universitário
USP aposentado