Eram na Casa do Povo ou nos Bombeiros ou no Jardim do Cerco, se Verão fosse e houvesse uma festa qualquer. Recordo melhor os que aconteciam nos dois primeiros espaços, por serem mais frequentes: ora por necessidade de recolha de fundos, ora por ser Carnaval, ora por se ter chegado a meio da Quaresma e ser altura da Pinha, sei lá. A malta ia a todos, testosterona nos limites, embora a atração fosse maior se o conjunto, como então se dizia, tivesse fama de tocar rock imitado – não se falava, ainda, em covers. “Nights in white satin” era sempre, e por evidentes razões de roçanço, um tema desejado, mas um gajo também podia dar nas vistas e ser admirado pelos seus movimentos arriscados, ao dançar em grupo o “Smoke on the water”.
Seja como for. Certo é que a maior parte das vezes, estando embora a menina dos nossos olhos na sala, a gente não tinha dinheiro para o bilhete. E lá ficávamos, então, pelo bar, esperando a hora de podermos entrar à borla. E se, entretanto, ocorria o momento das meninas ao bufete – alguém se lembra disto? – ali continuávamos, esperando vê-la, mesmo que trazida pela simpatia mais endinheirada de um rival qualquer. Cervejola abaixo, charrito às escondidas acima, o baile acabaria por ser nosso.
Os bailes eram uma maravilha. No antes e no bar, com os amigos, no durante e nos momentos de ter nos braços uma maravilha frágil e linda e desejada.
Na sala, então. Um vazio enorme entre cada dança. Era preciso atravessá-lo, gigantesco vazio sob os olhares de todos, e ir pedir, se conhecida e desejada fosse, “Danças comigo?” ou, em casos de apuro, arriscando “A menina dança, tem par ou descansa?” O resultado desse momento dependia da verdadeira intenção: ou se ia por desejo sincero, ou arriscava-se por desafio do resto da malta. E era um desatino, em qualquer dos casos, quando se levava com uma tampa – alguém se lembra deste outro isto? Bolas! Encolher as orelhas e voltar a atravessar o tal vazio titã para, lá no fundo, ser recebido pelas gargalhadas de troça do pessoal. Uma nega não tinha piada nenhuma. Nunca teve, sobretudo quando o conjunto se preparava para tocar “Angie”, dos Rolling Stones.
No resto, tirando as valsas ou os tangos, mais estes, que infelizmente nunca soube dançar, os bailes eram uma maravilha. No antes e no bar, com os amigos, no durante e nos momentos de ter nos braços uma maravilha frágil e linda e desejada, e até no depois, quando livre de paus-de-cabeleira e amigos éramos só nós, eu e ela.