Jornal Maio

A ICE MATA

Trump declara a lei da guerra, dentro e fora dos EUA

A nova milícia fascista de Trump, a ICE, tem licença para matar. Mas o imperialismo americano, que Trump comanda, mata e intimida pelo mundo fora.

No passado dia 7 de Janeiro, em Minneapolis, no estado americano de Minnesota, Renee Good, uma mulher de 37 anos, mãe de três filhas, fez uma manobra com o carro para se afastar do local de uma rusga da polícia anti-imigrantes, a ICE. Um dos agentes assassinou-a a sangue frio, disparando-lhe vários tiros na cabeça à queima-roupa.

 

O que é a ICE?

A ICE (Immigration and Customs Enforcement) era, até há pouco mais de um ano, o “SEF” norte-americano: guarda fiscal e de fronteiras.

Trump mudou-lhe a natureza. Em poucos meses, fê-la passar de seis para dezasseis mil agentes, dobrando-lhe o orçamento para 2 mil milhões de dólares. 

Os novos recrutas foram atraídos por anúncios de teor abertamente racista e homicida. Ao fim de poucas semanas de treino, foram armados até aos dentes, com licença para disparar e matar a seu bel-prazer, com imunidade conferida pelo presidente.

A ICE é hoje uma organização paramilitar fascista encarregada de dar caça a quem quer que “pareça” mais ou menos imigrante (ou seja, pouco “ariano”). Foi transformada numa versão americana das SS nazis. Muitos comentadores norte-americanos comparam-na abertamente com a Gestapo de Hitler (por exemplo Robert Reich, antigo ministro do Trabalho de Clinton). Venha o diabo e escolha.

 

Meios para uma guerra sem fim nem limites

No mesmo dia em que os seus esbirros executavam Renee Good, Trump anunciou que tencionava aumentar o orçamento militar dos EUA dos cerca de 900 mil milhões de dólares previstos para 2026 para 1,5 biliões (1.500.000.000.000) de dólares em 2027. 

É um aumento de 66% de um ano para o outro. De um orçamento que já era superior à soma dos orçamentos militares de todas as quatorze potências militares que se lhe seguiam: China, Rússia, Alemanha, Reino Unido, Índia, Arábia Saudita, Japão, Ucrânia, França, Coreia do Sul, Itália, Israel, Polónia e Austrália…. 

Para ter uma ideia: o novo valor é sensivelmente equivalente a tudo o que os quase 50 milhões de trabalhadores do Estado espanhol produzem num ano. 

Só o aumento pedido é tanto como o total do gasto militar somado da China, Rússia, Alemanha, Reino Unido e Índia em 2025.

A coincidência destes dois eventos é tudo menos coincidência.

O mundo que Trump promete, depois do genocídio em Gaza, da invasão da Venezuela e do rapto de Maduro, é um mundo de submissão do mundo inteiro à bota americana (a Estratégia de Segurança Nacional 2025 di-lo com todas as letras). 

Quem não se submete morre.

Mas atenção: a ofensiva imperialista não se limita nem à América Latina nem à guerra interna contra os trabalhadores americanos insubmissos.

 

A vez da Gronelândia 

Na mesma “lógica” da pilhagem do petróleo venezuelano, Trump também quer a Gronelândia. A ilha é um imenso território árctico, sob domínio da Dinamarca — e, consequentemente, membro da NATO — , com um subsolo rico em zinco, grafite, cobre, lítio, terras raras... 

A 11 de Janeiro, Trump avisou que os Estados Unidos, “dê lá por onde der”, assumiriam o controlo da Gronelândia — pois, “se não formos nós a fazê-lo, fazem-no a Rússia ou a China”. Seis dias depois, o ministro dos Negócios Estrangeiros dinamarquês informou que a Dinamarca não “venderia” a ilha. Em resposta, Trump anunciou direitos aduaneiros sobre todas as importações de nove países europeus, em aumento progressivo. Entre os visados: Alemanha, Dinamarca, França, Suécia, Finlândia, Países Baixos. Todos eles membros da NATO.

Valente, a Dinamarca logo anunciou que organizaria manobras militares na Gronelândia.

Confirmando a sua lendária virilidade, a Alemanha enviou um contingente militar para participar nas manobras militares comandadas pela Dinamarca: nada menos que treze soldados.

Não menos enfaticamente, o chefe militar da Dinamarca declarou que, embora, nos últimos dois anos, nenhum navio de guerra russo ou chinês se tivesse avistado num raio de 2 mil quilómetros da Gronelândia, as manobras seriam dirigidas contra a ameaça… russa! 

Enfim, o que são dois anos!? E o que são dois mil quilómetros!?

Noticiou-se, também, que 85% da população da ilha, incluindo a significativa fracção que não concorda com a suserania colonial dinamarquesa, se opõe aos desígnios de Trump. 

(Mas alguém quer saber disso? Ficaram as multinacionais americanas impressionadas?)

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Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.

Minneapolis, Gronelândia, Síria, Venezuela, Palestina: a mesma guerra

A empresa imperialista diz respeito ao mundo inteiro. 

Depois das instalações nucleares do Irão, Trump já mandou, no espaço de poucos dias, bombardear a Nigéria (27 de Dezembro), a Venezuela (3 de Janeiro) e a Síria (10 de Janeiro) — esta, já bombardeada por aviões franceses e britânicos no dia 4 de Janeiro. 

O pretexto, no caso, não é o “narcoterrorismo”; é o “terrorismo jihadista”. 

Mesmo? 

A 6 de Janeiro, a administração norte-americana anunciou que “o novo governo da Síria e Israel vão criar uma estrutura comum, sob a supervisão dos Estados Unidos, para partilharem informações e fazer pela diminuição das tensões entre os dois países”. Trump não parece ter grandes problemas em apoiar-se no antigo chefe jihadista Al-Sharaa, actual presidente da Síria, cujas tropas, enquanto isso, bombardeiam a população curda de Alepo.

 

E o Irão? 

Às autênticas manifestações populares contra a carestia e o regime teocrático misturam-se tentativas igualmente autênticas de manipulá-las, orquestradas pelas forças monárquicas e pelos serviços secretos norte-americanos e israelitas. 

Trump vai mantendo a incerteza: intervenção militar? Negociações com os aiatolas? Restauração da monarquia derrubada pela revolução popular em 1979?

 

Tudo pelos mercados, nada contra os mercados — que agradecem 

No mesmo dia em que Trump anunciava o incomensurável aumento do orçamento militar e os seus esbirros nazis matavam Renee Good, os mercados reagiram da única maneira que sabem. Só nessa sessão, as acções das maiores empresas do armamento subiram: Lockheed Martin (LMT.N): 6.2%; General Dynamics (GD.N): 4.4%; RTX: 3.5%.

* O autor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.

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