Jornal Maio

Q

uantos anos, Lola?

– Estou a te apanhar, Thereza. Faltam só dez.

– Incomodo-te ao  perguntar quantos anos comemoras?

– Não, o que me incomoda é me fazeres uma pergunta que nós duas sabemos a resposta. Incomoda-me a tua necessidade de insistir em lembrar que tenho 60 anos. Por acaso, eu estaria esquecida? Se tu, que tens 70, ainda te lembras disso, por que eu, com menos dez anos que tu estaria esquecida? Tu és uma chata. Pensas que não sei qual é o teu objetivo?

– Meu objetivo? Quis só puxar conversa, quebrar o silêncio.

– Não sejas cínica, essa tática de arrancar elogios comparativos é tão velha quanto tu. Queres que as pessoas digam que não parece haver dez anos de diferença entre nós duas. 

– Nem me passou pela cabeça, mas se tu achas...

– Thereza, tudo que é teu é melhor. Também a tua velhice?

– Não me queixo. Sinto-me muito bem.

– Só falta dizer que adoras ter setenta anos. Que grande mentirosa tu és. Thereza, eu não preciso de ti nem de ninguém pra lembrar dessa chatice que é envelhecer. Eu queria matar quem chamou essa merda de melhor idade, porque até o que eu pensava ser bom, já não estou tão certa.

Desde o dia em que Lola soubera estar oficialmente reformada não sabia onde guardar aquela notícia, se no arquivo dos achados ou dos perdidos. Qual arquivo estaria mais cheio? O que teria guardado entre os achados? Com certeza, os filhos, os netos, as conquistas profissionais, os amigos. E entre os perdidos? Quanto de vida perdera em relações abusivas? Ah, melhor não enveredar por esses descaminhos. Foram tantos equívocos.

A reforma não era uma surpresa, ela estava a esperar por essa informação. Às vezes, com ansiedade. Mas ao receber aquela notícia pensou: devo agradecer, demonstrar alegria? Afinal, havia ligado à servidora mais de uma vez, para perguntar pelo processo. Ela acreditava estar dando uma boa notícia, era justo reagir à altura. Agradeceu, fez algumas perguntas e desligou o telefone sem saber direito como conduzir aquela situação. Gostava de comandar, de ter controle sobre as coisas, principalmente sobre a sua vida. Não sabia porquê, mas a reforma lhe parecia exterior à sua vida, como se fosse algo que lhe fora imposto. Ensimesmada e cabismuda, sabia precisar de um tempo para processar aquela novidade. Depois de pensar bastante, lhe ocorreu uma semelhança entre a aposentadoria e a menopausa. Ih, cada vez gostava menos daquela história.


“Que ódio dessa vaca velha que me trouxe essas lembranças no dia do meu aniversário”, pensava Lola.

A menopausa também não foi, não é surpresa. Aproximadamente, por volta dos 50 anos – às vezes mais, outras menos – a menstruação acaba. Enquanto isso não acontece, as mulheres reclamam a cada mês. Aquele sangramento é um fardo do qual não veem a hora de se livrar. De repente, somem enxaqueca, cólicas e sangramento. Era de se esperar que o facto fosse comemorado, mas não é o que acontece. Nem a Theresa, fingidora oficial de felicidade, festejou esse facto. Convivia com muitas mulheres, algumas mais velhas que ela, e nunca tinha sido convidada por nenhuma para festejar a menopausa. Ao contrário, o mais comum foi ouvir depoimentos reveladores de um sentimento de inferioridade. É como se, a partir dali, a mulher se sentisse menos feminina: inodora, incolor e invisível. 

Contudo, a líbido não sofrera alterações substanciais. O corpo continuava reagindo a imagens, palavras e toques – embora os últimos sejam cada vez mais raros. Ainda bem que existem massagistas, terapeutas, acupuncturistas e outras expressões do toque, que o mercado sabidamente nos oferece. A ausência da menstruação não diminui a capacidade de amor, de entrega, de paixão, de sexo. Contudo, sobretudo pelas mudanças na aparência, aumenta significativamente a distância entre possibilidades e atos. E como se já não bastassem os danos causados pela diminuição de estrogênio e progesterona, o que nos é subtraído em beleza é ganho em exigência e seletividade, o que só contribui – triste constatação – para um exército pouco unido de mulheres velhas e sós. 

“Que ódio dessa vaca velha que me trouxe essas lembranças no dia do meu aniversário”, pensava Lola.

À medida que vinha à sua mente aquela analogia entre a menopausa e a reforma, sua raiva crescia. A menopausa interferia na sua atividade sexual, a reforma na sua atividade produtiva. Ora, pensava, tantas vezes reclamei do meu trabalho, fiz planos como se a reforma fosse um prêmio. Mas, após 40 anos de trabalho, quando finalmente posso brindar à liberdade, sou acometida por esse sentimento de inferioridade. Minha inteligência não foi afetada. Minha capacidade produtiva está mantida, posso continuar trabalhando, ter uma atividade nova, se desejar. Mas não estou pronta para ser esquecida. Como qualquer mercadoria, sinto que também preciso de vitrine. Não sei se suporto uma dupla invisibilidade. 

Talvez a liberdade da reforma não me faça bem, pensa Lola. Talvez seja melhor trabalhar um bocadinho mais, mesmo que voluntariamente. O trabalho gera burnout, mas a reforma também adoece. Há tantas colegas em depressão. Será que adoecem por terem parado de trabalhar ou por ficarem em casa dia após dia? Muitas são casadas. Quem aguenta trinta anos a ir todas as noites pra cama com o mesmo homem? Casamento devia ter prazo de validade. Mas há quem não aguente ficar só. Aquela outra pirou. Separou, deprimiu, voltou para o traste. Depois de ter-se livrado dele? Que idiotice! Ex-marido tem gosto de chuchu. Queria não. Melhor ficar só. 

Lola sabia não ser a hora nem o lugar para tantas elucubrações. Tinha que prestar atenção às pessoas que estavam ali para celebrar o seu aniversário. Voltaria ao assunto, mas não podia ser ali. Ainda nem se sentia pronta. Sem que tenha sido a intenção da amiga, a menção à sua idade levara a essas divagações. Sobretudo a uma pergunta muito difícil de ser respondida, o que explicava a sua irritação. Sabia que da resposta dependeria viver bem ou mal o que lhe restava de vida e, covardemente, estava a abstraí-la. Naquele exato momento, estava a se perguntar se, para além do saber intelectual, tinha adquirido alguma sabedoria, porque era disso que estava a precisar. Thereza não tinha o direito de lhe ter provocado tamanho desconforto, de colocá-la contra si mesma, contra seus medos, contra a sua covardia, contra a sua solidão. Isso é coisa que amigo nos faça lembrar no dia do nosso aniversário? Fogo amigo é o que ela é.

Até sentar-se à mesa do restaurante, onde marcara encontro com alguns amigos para comemorar o seu aniversário, Lola fora movida pelos seus melhores sentimentos. A intenção era celebrar, se não a idade, mais um ano de vida. Agora, no entanto, aflorava em si um instinto assassino que apenas ela conhecia – já cometera outros assassinatos. Hoje, mataria de bom grado a sua amiga Thereza.

Finalmente, alguém a retira da cena do crime:

- Pessoal, vamos cantar parabéns pra Lola!

Maria Augusta Tavares​

Maria Augusta Tavares​

Investigadora do trabalho