Armadilhas da desinformação
Exigir a regulação das big techs é a principal luta política de nosso tempo, porque dela dependem todas as outras: se, além de estimularem a inundação das redes com falsidades e agressões, os algoritmos bloqueiam ou limitam o alcance de mensagens a contracorrente, temos muito pouca possibilidade de tomar consciência do que se passa no mundo, para tentar formar opinião a partir do confronto de argumentos e agir em consequência.
Sylvia Debossan Moretzsohn
Jornalista, professora aposentada da UFF
A mentira constante não serve apenas para enganar – seu verdadeiro propósito é destruir a própria noção de verdade. Quando um povo já não consegue distinguir entre o real e o falso, também perde a capacidade de discernir entre o bem e o mal. E um povo assim, desarmado do pensamento crítico, torna-se presa fácil para qualquer poder que deseje controlá-lo.
Hannah Arendt, A mentira como ferramenta de poder
Em meados de 2017, pesquisadores da Universidade de Washington apresentaram o vídeo1 em que os movimentos do rosto e a voz do ex-presidente norte-americano Barack Obama foram manipulados por inteligência artificial. Ficou claro que em muito pouco tempo o desenvolvimento dessa tecnologia banalizaria essa adulteração e tornaria impossível, pelo menos à primeira vista, distinguir o verdadeiro do falso.
É o ponto a que chegamos: não podemos mais ter certeza de se o que lemos, vemos e ouvimos é ou não produto da inteligência artificial (IA) generativa, o que nos deixa num estado de dúvida permanente, sem saber no que acreditar. Como é impossível viver assim, a tendência é reforçar o comportamento a que já estamos predispostos e acreditar no que se encaixa nas nossas convicções, o que é estimulado pela forma como atualmente as informações passaram a circular e ser consumidas, com os algoritmos favorecendo a formação de bolhas refratárias ao contraditório.
Qualificar-se para identificar as armadilhas da desinformação sempre foi necessário, e por isso é preciso perceber a desinformação não como um fenómeno atual, mas como um processo vinculado à forma de produção de notícias em escala industrial e às estratégias de manipulação discursiva operadas pelos meios de comunicação. O livro “Eles não querem que você saiba – armadilhas da desinformação”, cuja abertura aqui se reproduz, assume, portanto, uma perspectiva mais ampla sobre o que se costuma classificar como desinformação. Mas, de saída, questiona o caminho adotado pela maioria das iniciativas de educação para a mídia, normalmente dedicadas a orientar o público sobre a forma de verificar os factos e a certificar-se da veracidade da informação antes de compartilhá-la.
A primeira razão para esse questionamento é que, como escrevi há alguns anos2, esse empenho no esclarecimento pressupõe um público igualmente esclarecido, no clássico sentido iluminista, ou seja, educado para duvidar da aparência das coisas e estimulado a buscar a verdade. Conviria, portanto, antes de mais, indagar se as pessoas desejam saber a verdade, porque, caso contrário, seria preciso começar por demonstrar-lhes essa necessidade de discernimento. O que é particularmente difícil, porque vivemos no contexto que se convencionou chamar de “pós-verdade” – a rigor, uma radicalização do relativismo pós-moderno que ganhou força décadas atrás –, em que as crenças prevalecem sobre as evidências. Portanto, embora seja fundamental combater a ignorância, seria necessário partir de um ponto anterior, que é a conquista da confiança.
A overdose de informação, que teóricos da comunicação já criticavam desde muito antes do surgimento da internet, nos conduz a uma superexposição que substitui a cegueira pela treva pela cegueira pelo excesso de luz.
Se o problema fosse apenas desinformação, a solução não seria tão difícil: bastaria investir em educação e logo os enganos se desfariam. Mas há algo mais profundo, que o apelo racional não consegue afetar, e que a engrenagem do “sistema” trabalha de maneira muito eficaz. Por isso tem sido inútil o esforço de enfrentar convicções arraigadas, que envolvem a desconfiança e mesmo a rejeição de argumentos que as contrariam. Significa dizer que a atenção às emoções é prioritária no trabalho de desmontar as armadilhas da desinformação.
Também é preciso assinalar que a overdose de informação, que teóricos da comunicação já criticavam desde muito antes do surgimento da internet, nos conduz a uma superexposição que substitui a cegueira pela treva pela cegueira pelo excesso de luz. Insisto sempre em dizer isso: diante do que a treva ocultava, poderíamos ser estimulados a saber que ignorávamos, e assim despertar para a necessidade de saber; agora, com a aparência da visibilidade total, somos levados a ignorar que não sabemos, e nos acostumamos a essa ilusão de saber.
O outro motivo que me afasta da perspectiva recorrentemente adotada por quem se dedica ao combate à desinformação é que o apelo a que o público verifique a veracidade dos factos não faz muito sentido. Primeiramente, porque isso exige parar para pensar, o que seria fundamental, mas contraria o comportamento irrefletido que caracteriza a vida cotidiana, vivida num ritmo cada vez mais veloz e, agora, submetida ao ritmo imposto pelas plataformas, empenhadas em nos manter o máximo de tempo possível grudados na tela, oferecendo-nos vídeos cada vez mais curtos e sempre interrompidos por anúncios, numa sequência infinita que incita a um scroll interminável. É a mesma lógica viciante dos casinos3. Daí o equívoco em se falar em captura da atenção, que sugere estarmos alerta quando é exatamente o contrário: estamos como que dopados, hipnotizados, induzidos a não pensar e incapazes de nos fixar no que quer que seja.
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A outra razão é que mesmo um público altamente qualificado não teria tempo nem, provavelmente, instrumentos suficientes para fazer essa verificação, que deveria ficar a cargo de quem se dedica especificamente a isso. O que, aliás, sempre foi o papel dos jornalistas. Bastaria pensar: alguma vez, antes do surgimento da internet, alguém sugeriu que o público confirmasse as informações dos jornais? Poderia e deveria, sim, considerá-las criticamente, poderia mesmo duvidar delas, mas não teria a menor condição de verificá-las, por falta de tempo e impossibilidade de acesso às fontes. De modo que jogar no colo do público essa tarefa4, além de uma injustiça e uma impossibilidade prática, é uma forma de desresponsabilizar quem produz desinformação e as plataformas que favorecem sua disseminação. Se a fonte seca, corta-se a possibilidade de falsificações e mensagens nefastas prosperarem.
O problema, naturalmente, é conseguir fazer essa fonte secar: regular as plataformas, impedir que programem algoritmos não só viciantes, mas voltados para favorecer a disseminação da desinformação e do discurso de ódio. É uma tarefa imensamente difícil, dado o poder que as big techs concentraram, mas é inescapável. Diria mesmo que é a principal luta política de nosso tempo, porque dela dependem todas as outras: se, além de estimularem a inundação das redes com falsidades e agressões, os algoritmos bloqueiam ou limitam o alcance de mensagens a contracorrente, temos muito pouca possibilidade de tomar consciência do que se passa no mundo, para tentar formar opinião a partir do confronto de argumentos e agir em consequência.
Portanto, o que se pode pedir ao público – mais precisamente, ao público interessado ou capaz de se interessar por saber o que é ou não verdadeiro – não é que verifique a informação, mas que evite agir por impulso e não ajude a divulgar informação duvidosa. O principal, aqui, não é seguir os conselhos mais comuns sobre, por exemplo, a atenção a detalhes de um vídeo “perfeito demais”, com determinado tipo de iluminação, o movimento de olhos, lábios e mãos dos personagens, o tipo de cenário e de narração, para identificar que se trata de uma produção de IA, mesmo porque o desenvolvimento dessa tecnologia tende a corrigir falhas.
Aliás, já corrigiu as mais comuns em tempos recentes, como pessoas com seis dedos nas mãos ou outros elementos que deixavam evidente a fraude e a origem da imagem. O principal é considerar o contexto. Ou, como diz Marcus Bruzzo, a plausibilidade, o que exige do indivíduo a capacidade de discernimento entre o real e o falso em si mesmo e remete novamente à discussão central sobre credibilidade e crenças, que este livro aborda adiante.
Mas podemos, sim, dar algumas pistas sobre a forma como, ao longo do tempo, fomos adestrados a pensar a partir do discurso da grande imprensa – e dos demais componentes da indústria cultural – e apontar as formas mais comuns de distorção ideológica, que nos faz aceitar acriticamente certa maneira de ver e nomear os factos e estranhar imediatamente o que a contraria.
*Este texto reproduz o primeiro capítulo do livro Eles não querem que você saiba – armadilhas da desinformação. Rio de Janeiro, ed. Ação, 2026, da mesma autora.
1 Cf. BBC News. Fake Obama created using AI video tool – BBC News, 19 jul. 2017.
2 Moretzsohn, Sylvia Debossan. O joio, o trigo, os filtros e as bolhas. Brazilian Journalism Research, 2019.
3 O mesmo vale para as plataformas de jogos e de streaming, desenhadas para eliminar qualquer sinal de parada (no caso do streaming, a tática de emendar um episódio de uma série no seguinte visa não deixar que a pessoa desligue). Em artigo na Folha de S. Paulo sobre a plataforma de jogos Roblox, cujo público majoritário é de adolescentes, Daniel Mariani fez a mesma comparação com a estrutura dos caça-níqueis dos casinos e criticou o recorrente apelo a que os pais controlem a atividade dos filhos na internet. “Parafraseando Gaia Bernstein, autora de Unwired, insistir na responsabilidade individual dos usuários ignora as assimetrias de poder. Como indivíduos isolados, tentamos resistir a um exército dos melhores programadores, armados de teorias psicológicas sólidas e dados infinitos, além de equipas jurídicas que fazem que os seus clientes não sejam regulados a contento. (…) O design nocivo dos caça-níqueis e do Roblox funciona justamente porque permanece invisível. O que não pode ser visto não pode ser responsabilizado pelos danos que produz.” Cf. Mariani, Daniel. Feito para viciar, Roblox tem lógica de cassino e vira caça-níquel para crianças. Folha de S.Paulo, 1º fev. 2026.
4 É mais ou menos o que ocorre com os conselhos para que as pessoas pesquisem sobre a qualificação dos médicos que vão consultar, verificando as suas credenciais e até questionando-os diretamente sobre a sua formação. Um exemplo é este artigo que alerta sobre o charlatanismo na medicina: Bonin, Gabriela. Veja sinais de alerta para suspeitar de charlatanismo na medicina. Folha de S. Paulo, 10 fev. 2026.