Venezuela: tragédia, colónia e metamorfose política
2ª. parte
Na Venezuela, o realismo mágico de Gabriel García Márquez manifesta-se em toda a sua plenitude: o atual ministro da Defesa, general Gustavo González López, continua a pronunciar, diante dos seus subordinados, a saudação de “Chávez vive, pátria, socialismo ou morte”, enquanto coordena as agendas de trabalho com o diretor da CIA ou com generais norte-americanos.
ilustração: Pedro Páscoa
Os terramotos que abalaram a Venezuela acabaram por ser o pretexto ideal para que os Estados Unidos decidissem destacar forças de elite, tropas e mais de 3000 efetivos militares no país, sob o pretexto de “conduzir” a reconstrução económica e material no pós-terramoto. Na prática, essas são novas formas de apresentar o estabelecimento de bases militares no país, no âmbito da Estratégia de Segurança Nacional anunciada por Trump em novembro de 2025. Uma estratégia que complementa as abordagens e orientações acordadas na reunião do Comando Sul, do secretário da Guerra, do Departamento de Estado e dos ministros da Defesa da região, na chamada Cimeira “Escudo das Américas”, realizada em março deste ano. Para completar o quadro, em 20 de julho de 2026, Marco Rubio apresentou o documento intitulado “Cuba: a capital do comunismo do século XXI”, que, em conjunto, reaviva os piores ecos do macartismo2.
Bases EUA-Israel
Como sempre, a estratégia norte-americana anda de mãos dadas com as iniciativas israelitas. Assim, nos dias que se seguiram aos terramotos, a Junta da Administração Colonial, presidida por Delcy Rodríguez, assinou acordos de cooperação militar, técnica e financeira com membros do estado-maior sionista. Presente na assinatura dos acordos esteve o uruguaio-israelita Roni Kaplan, no posto de capitão e porta-voz das forças de defesa de Israel para a imprensa internacional de língua espanhola e asiática, desde junho de 2012. Kaplan é residente em Jerusalém.
Esta presença dos EUA e de Israel parece antecipar a intenção de estender, ao longo do tempo, a situação colonial que a Venezuela vive desde 3 de janeiro.
O mundo ao contrário
Na Venezuela, qualquer coisa pode acontecer, e o realismo mágico de Gabriel García Márquez manifesta-se em toda a sua plenitude. Depois de 3 de janeiro, parece que toda a realidade política entrou noutra dimensão. María Corina Machado, promotora da invasão norte-americana da Venezuela, foi descartada por Trump como alternativa presidencial a curto prazo e encontra-se agora “estacionada” no Panamá, anunciando que poderá retornar ao país a qualquer momento, enquanto o presidente dos EUA a avisa de que não tem autorização para o fazer.
Neste momento, já ninguém parece lembrar-se do chamado “Cartel de los Soles”, uma desculpa usada pela administração Trump para realizar a operação militar de 3 de janeiro contra a soberania venezuelana. As acusações de tráfico de drogas não recaíram apenas sobre Maduro e Cilia Flores, mas também sobre outras figuras que hoje permanecem no poder com a autorização dos gringos. Outro dos acusados de pertencer a esse “cartel” – por quem os Estados Unidos oferecem uma recompensa de vinte e cinco milhões de dólares – reúne-se frequentemente em Caracas com o diretor da CIA, o encarregado de negócios ou o chefe do Comando Sul. E, como se o insólito não tivesse limites no folclore político venezuelano, Diosdado Cabello surge agora como defensor do ocupante da Casa Branca, atacando influencers que questionam Trump. Os argumentos formais e os limites esperados da política diluem-se perante o peso da economia colonial do petróleo.
Por outro lado, a outrora radical anti-imperialista nos fóruns do Mercosul, Delcy Rodríguez, agora como presidente interina, convida Israel a participar na reconstrução económica da Venezuela. Os israelitas, especialistas em demolições, são agora chamados a reconstruir a infraestrutura e a economia do país. Uma delegação de militares de alta patente já foi destacada para Caracas e para o Sul do país, onde se localizam os depósitos de ouro.
Quando o surrealismo político parecia atingir o seu limite, o eterno ministro da Defesa do Governo de Maduro, Vladimir Padrino López, declara que teve conhecimento da operação militar de 3 de janeiro, mas, diante da superioridade militar e tecnológica demonstrada pelos norte-americanos, ordenou aos pilotos e militares venezuelanos que não agissem, para evitar perdas humanas, desobedecendo assim às ordens do seu superior (Maduro), que o colocara na linha da frente da defesa da soberania nacional. Em qualquer país decente, isto justificaria um julgamento por traição à pátria, mas o que recebeu foi uma simples mudança de pasta, passando a ocupar o cargo de ministro responsável pela agricultura da colónia em que ele ajudou a transformar a Venezuela.
E, como se estivéssemos diante do mundo fantástico de Alice no País das Maravilhas, o atual ministro da Defesa da Venezuela, general Gustavo González López, continua a pronunciar, diante dos seus subordinados, a saudação de “Chávez vive, pátria, socialismo ou morte”, enquanto coordena as agendas de trabalho com o diretor da CIA ou com generais norte-americanos, que agora circulam pelo território venezuelano como se fossem crioulos.
Os antigos antiamericanos tornam-se agora amigos do império, e aqueles que foram pró-invasão enfrentam as consequências porque “Roma não paga a traidores”. Visto de fora, este quadro não é totalmente percetível; vivido por dentro, assume a forma de uma comédia trágica grega. Como numa obra de Kafka, começamos a ver, sem disfarce, os Ungeziefer, ou criaturas monstruosas, a caminhar pelas paredes da política, com o valor humano reduzido à utilidade e ao peso da desumanização burocrática.
Enquanto a administração Trump quer promover a coexistência entre todos os setores políticos pró-americanos, [Corina Machado] quer um governo de rutura que expulse aqueles que hoje garantem aos Estados Unidos a construção de uma situação colonial na Venezuela.
Panamá: a reunião da oposição liderada por María Corina Machado
Em maio deste ano, a líder da oposição María Corina Machado – com a participação do presidente Mulino – realizou uma reunião com todas as forças de oposição que a acompanham, especialmente com a Plataforma Democrática Unitária, bem como com alguns setores da esquerda que se juntaram a ela. O resultado foi um documento que confirma o que temos vindo a assinalar desde 2024: a estratégia dos Estados Unidos e a de Corina Machado estão a distanciar-se. Enquanto a administração Trump quer promover a coexistência entre todos os setores políticos pró-americanos, incluindo o “Delcinato” colonial, a líder da direita quer um governo de rutura que expulse aqueles que hoje garantem aos Estados Unidos a construção de uma situação colonial na Venezuela.
Os termos finais da reunião no Panamá parecem indicar que a oposição que ela lidera quer “ir até ao fim”, sem medir a turbulência que isso pode gerar. Esse erro de cálculo e de estratégia política mantém-na nas margens do poder na Venezuela, apesar de ser a figura ideologicamente mais simpática aos interesses imperiais. Enquanto não se concretizar um acordo entre as elites e María Corina Machado não aceitar uma reconciliação entre a velha e a nova burguesia, os caminhos para o Palácio Miraflores parecem estar-lhe bloqueados.
Se persistir nesta linha de ação, o único caminho que lhe resta é confrontar os Estados Unidos e tentar liderar um polo nacionalista burguês, o que parece altamente improvável. É muito mais provável que ela acabe por aceitar uma “cúpula” Delcy-María Corina que abra caminho para um pacto entre as elites pró-americanas. Cabe-lhe, a ela, desfolhar a margarida.
APOIA O MAIO!
Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.
Dinorah, a enviada do Pentágono
Como advertimos, após a reunião no Panamá, o Departamento de Estado, confirmando a linha colonial, nomeou, sem eufemismos nem dissimulações, a Sra. Dinorah Figuera como porta-voz dos interesses dos EUA, numa transição acordada com o “Delcinato”. Figuera foi presidente da Assembleia Nacional em 2015, de maioria da oposição, mas, nos seus tempos universitários, partilhou bandeiras com Jorge Rodríguez. Agora, o atual parlamento e a oposição de 2015 reúnem-se novamente para avançar na eleição de um novo Conselho Nacional Eleitoral, de membros do Supremo Tribunal de Justiça e de eleições supervisionadas, o que expressa o modelo colonial de transição, o que também poderá transformar a participação de María Corina Machado num percurso de obstáculos, desta vez não promovido por Maduro, mas por Trump.
Assim, a 1 de agosto, nasceu o “sietemesino”3. O trabalho dessa nova instância colonial começou com a missão de reconstruir a arquitetura legal, institucional e política do país, a fim de sustentar e manter, ao longo do tempo, a situação colonial na Venezuela. Já quase ninguém duvida de que qualquer convocatória eleitoral será destinada a garantir a governabilidade da colónia. Apenas o povo venezuelano organizado poderá reverter essa situação.
A esquerda persiste
Nos últimos meses, o tecido social da esquerda, que se encontrava fragmentado em torno das polémicas sobre chavismo ou madurismo, ressurgiu. No entanto, continua frágil. Enquanto um setor minoritário aposta na continuidade da sua identidade e na construção de um instrumento político amplo e inclusivo, outros setores permanecem indecisos quanto à posição a adotar em relação a María Corina Machado e à sua coligação.
Inclusivamente, forças que em 2024 apoiaram abertamente Edmundo González Urrutia defendem agora que o objetivo é impedir que María Corina Machado chegue ao poder, enquanto outros – que parecem ainda ser a maioria – falam da necessidade de garantir que a líder da oposição participe nas eleições, ainda que com reservas. Muitos afirmam que não votariam nela, mas consideram que a sua participação deveria ser assegurada.
Aquilo com que toda a esquerda não-madurista nem relacionada com a junta de administração colonial parece concordar é que o resgate da soberania eleitoral passa necessariamente pela recuperação da soberania territorial.
O que fazer? A tática para sair da situação colonial
Há quem fale de protetorado e não de colónia, apesar de a Venezuela ter perdido a capacidade de vender o seu petróleo e as suas riquezas, de não controlar o fluxo de dinheiro do comércio externo, nem ter autonomia para decidir com quem negoceia, e de a legitimidade do seu Governo depender de uma força de ocupação estrangeira, neste caso, do imperialismo. Mas este não é um debate académico ou intelectual: trata-se de relações de forças e de tática.
Até onde se pode alargar o leque de alianças sem se perder a independência de classe, com vista à recuperação da república? Quais são as formas de luta e os instrumentos de organização da classe trabalhadora para alcançar a libertação nacional? Como articular a luta por uma nova independência da república com uma perspetiva socialista e democrática?
Todas essas questões são atravessadas pela necessidade de explicar, de forma paciente e didática, aos trabalhadores e trabalhadoras, e ao povo em geral, que o desastre que a revolução bolivariana se tornou não é o socialismo pelo qual lutamos como horizonte histórico, e que o socialismo significa bem-estar, justiça social e salarial, ampliação da liberdade de opinião, de organização e de protagonismo cidadão. Uma tarefa nada fácil para os e as revolucionárias venezuelanas do presente.
Consequentemente, devemos entrar no debate sobre a situação na Venezuela não como uma abstração, mas em associação direta com a tática de resistência que a caracterização da realidade implica.
Neste momento, estamos envolvidos na recolha de fundos promovida pela corrente político-social COMUNES para ajudar uma comunidade em La Guaira e a rádio comunitária FM Vozes Antiimperialistas. A recomposição da esquerda venezuelana terá de partir do território e das lutas concretas, convictos de que, como disse Voltaire, toda a mudança começa a partir de um centro.
Conclusão
Do nosso ponto de vista, a revolução bolivariana supera em muito os tempos chavistas-maduristas, porque, na realidade, esses períodos foram apenas momentos convergentes de décadas de resistência antissistema acumulada, que ainda hoje procuram reorganizar-se para além do colapso colonial. A apropriação dos símbolos e discursos da esquerda, colocados ao serviço de um processo ambíguo policlassista que terminou em derrota, agravada pela confusão gerada na população quanto ao significado e à real orientação de uma estratégia anticapitalista, forçará a esquerda venezuelana a repensar-se, renovar-se e a construir novos códigos, imagens e formas de articular instrumentos políticos com a luta social quotidiana. Se não tiver sucesso, a esquerda venezuelana ficará presa no espelho quebrado do fracasso da revolução bolivariana.
A Venezuela não é um beco sem saída, mas sim um lugar onde tudo é possível. Até agora, os Estados Unidos alcançaram uma posição privilegiada, dominando quase todas as cartas do jogo político. A oposição de direita liderada por María Corina Machado, a direita que há anos estabeleceu pactos com o madurismo (“alacranato”), e a Junta de Administração Local (os Rodríguez & Cabello) estão alinhados com os interesses dos Estados Unidos. Mas a antipatia antiamericana começa a crescer, de forma subterrânea e lentamente, e, embora ainda não se manifeste em formas organizacionais clássicas, é como o murmúrio que anuncia a subida do rio.
Tudo parece indicar um aumento da tensão que, no momento, colocará não a premissa luxemburguista de “socialismo ou barbárie”, mas a de “democracia ou ditadura”. A nova esquerda começa a reorganizar-se, emergindo do seu labirinto. Espera-se que os tempos permitam que se torne um fator determinante na solução democrática e popular desta crise.
1 Cientista social venezuelano. Militante do atual COMUNES. Professor de pedagogia na Universidade Experimental da Grande Caracas (UNEXCA), atualmente professor visitante na UFABC, em São Paulo, Brasil.
2 O “Escudos das Américas” é uma iniciativa, lançada em março de 2026 por Donald Trump, em parceria com líderes da América Latina, entre os quais o argentino Javier Milei e o salvadorenho Nayib Bukele, além de outros governos latino-americanos e caribenhos alinhados com a administração norte-americana. Disfarçado de pacto de segurança, trata-se de um plano que reedita a Doutrina Monroe e procura subordinar a América Latina ao poder militar gringo, ao mesmo tempo que busca barrar a influência de países como a China na região. O combate ao narcotráfico e aos cartéis é um pretexto para justificar a militarização da América Latina (nota da tradução).
3 A expressão “nasceu o sietemesino” (nasceu um bebé de sete meses) é uma metáfora para descrever como a nova instância colonial se trata de uma nova estrutura político-institucional que nasce prematura (nota da tradução).