Jornal Maio

O hipermodernismo

Hoje, 3 de Maio, de Patrícia Portela, é um romance sobre os modos como foi pintado o quadro de Goya “Os fuzilamentos de 3 de Maio” (não técnicas, mas mentalidades), como foi vivido, as circunstâncias, inclusive da narração e da narradora, os lugares geográficos, os que constituíram o pelotão de fuzilamento, os que foram assassinados, os testemunhos do lado do povo e da aristocracia. O leitor deverá cruzar na sua mente todas estas perspetivas, perfazendo uma unidade estética, que se constituirá como o bilhete de identidade do romance.

A originalidade de Patrícia Portela atinge o seu máximo expoente aqui, em Hoje, 3 de Maio, versando sobre o quadro “Os fuzilamentos de 3 de Maio” ocorridos nesse dia de 1808, pintado por Goya. 

Depois de Hífen, parecia-nos ser impossível que a autora criasse uma estrutura romanesca tão original, mas não só a criou como, com ela, abre uma nova vertente nas correntes da literatura portuguesa contemporânea, o hipermodernismo (pedimos o conceito emprestado a Gilles Lipovetsky), no qual o tempo perde o seu caráter contínuo e cronológico, expresso no romance pelo quadro “Saturno Devorando o seu Filho”, evidenciando-se como simultaneidade, aquilo que Saramago tentava mostrar no final da sua vida: um processo pelo qual se evidenciaria literariamente a simultaneidade. A autora define no romance a modernidade: “É isto a modernidade. Uma abordagem desligada do presente em permanente revisão do passado” (p. 48). O hipermodernismo, como extrema intensificação da modernidade, significa que os processos literários passados e o trabalho sobre a categoria de tempo encontram-se esgotados. Assim, ao lado do pós-modernismo, que reflete, critica e denuncia o passado (a maioria dos escritores portugueses atuais), é preciso inventar processos do hipermodernismo, como Patrícia Portela nos dá o exemplo com este livro. Não é impossível que a novela gráfica seja um desses processos que substituirá o romance só com letras e palavras. 

É neste sentido que Hoje, 3 de Maio se expõe por estruturas (oito), desde a Necrose até Germinação, cada uma repetindo as restantes (a simultaneidade) e em algumas discutindo a questão do tempo vista por Einstein e por Bergson, intercalando-se com a vida da narradora em Madrid. Porque tentativa de passar para o papel a simultaneidade, a autora dá sugestões de leitura que aproximem a escrita do romance da realidade. E a realidade e só uma: os fuzilamentos do dia 3 de maio de 1808 tal como vistos por Goya. Por isso, o quadro ou fragmentos deste repetem-se continuamente, dando a sensação (verdadeira) de que não se está a falar de outra coisa senão do quadro de Goya. O quadro é omnipotente neste romance face às múltiplas personagens, inclusive da narradora. 

 

O hipermodernismo, como extrema intensificação da modernidade, significa que os processos literários passados e o trabalho sobre a categoria de tempo encontram-se esgotados.

 

É um romance sobre os modos como foi pintado (não técnicas, mas mentalidades), como foi vivido, as circunstâncias, inclusive da narração e da narradora, os lugares geográficos, os que constituíram o pelotão de fuzilamento, os que foram assassinados, os testemunhos do lado do povo e da aristocracia. O leitor deverá cruzar na sua mente todas estas perspetivas, perfazendo uma unidade estética, que se constituirá como o bilhete de identidade do romance. É evidente que cada leitor será atraído por um aspeto singular do romance e, assim, teremos o mesmo romance multiplicado diferentemente por um número infinito de leitores. É isto o hipermodernismo: ainda que mesmidade, oferece-se sempre como alteridade. Lemos por três vezes o romance e tivemos três sensações e sentimentos de leitura diferentes, consoante líamos de seguida todos os “Preâmbulos”, todos os capítulos relacionados com o espaço ou os capítulos relacionados com o tempo. 

Repito, não há romance igual em Portugal. Leitor: bem-vindo a um mundo novo em Portugal. 

Parabéns, Patrícia!

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