Em defesa duma causa perdida
O fracasso coletivo do amar parece evidente. A boa nova, como o dia que surge da noite mais densa, pode ser dar um voto de confiança, como alguém que aposta precisamente na impossibilidade, aos amores possíveis.
Uma das lições que Em defesa das causas perdidas, de Slavoj Žižek, parece transmitir é a de que, em diversas ocasiões, talvez fosse interessante que, ao invés de chorar o leite derramado, pudéssemos buscar centelhas de esperança no improvável. O fracasso seria, então, não tomado como símbolo de algo que permanece interditado, mas como produtor de contingência. Quero tomar de empréstimo essa perspectiva indicada pelo filósofo sobre o fracasso das insurreições sociais ao longo da história para tentar colocar palavras para uma outra derrota, que se apresenta no horizonte do imaginário de minha geração. Ou talvez seja mais justo dizer que se rarefaz em nosso imaginário, como uma espécie de miragem, um truque de vista, algo que tem um tipo de corpo translúcido, que desafia não só a visão mas também o tato, por ser demasiado fugidio.
A juventude (e aqueles já não tão mais jovens assim) aparentemente se encontra num beco sem saída quando o tema é o amor. Não só impera o reino do indivíduo suportado e alimentado pela dinâmica social fabricada pelas redes sociais e os seus algoritmos [Agonia do Eros, Byung-Chul Han], como também as condições materiais de pensar e, sobretudo, imaginar (sonhar) o futuro se degradam diante de nossos olhos — o mundo do trabalho de nossos pais não existe mais, mas tampouco os modelos de trabalho adotados pelas gerações que nos precederam nos interessa. Isso para nem mencionar as guerras que proliferam feito praga pelo mundo, tornando o medo e a desesperança o pão nosso de cada dia.
Os “amores” fugazes (one night stands) ou a indiferença despontam neste cenário como mecanismos de defesa produzidos socialmente, de modo que, ao menos em aparência, pareçamos protegidos do desprazer, da angústia, do sofrimento, do desamparo. Num cenário como este, fazer laço parece uma tarefa da ordem do impossível. Doutra parte, a produção de engodos, ou nós emaranhados, se apresenta quase como regra. Desde uma completa subsunção ao outro que, neste cenário, é tornado senhor, até uma libertinagem ruidosa, extravagante, que, depois de desnuda em suas múltiplas camadas, esconde mais do mesmo, especialmente quando se vasculha até encontrar a sua sanha por se converter em norma de conduta (no lugar de liberação).
De tudo o que não se pode dizer sobre este tema, talvez comunicar algo seja possível. O fracasso coletivo do amar parece evidente. A boa nova, como o dia que surge da noite mais densa, pode ser dar um voto de confiança, como alguém que aposta precisamente na impossibilidade, aos amores possíveis. Aquele amor entregue no cotidiano sem promessa. Aquele que chega quando não se espera. Aquele que atravessa nosso corpo no momento aparentemente mais inadequado de nossas vidas. Aquele em que quase todos desacreditam. O que tropeça em nós num bar no qual consideramos não entrar, ou o que nos dá uma ajuda com as malas na fila do check-in no aeroporto. Em quantas padarias, cafés, restaurantes, cinemas, festivais, estações de trem e hospitais teremos de entrar até conhecê-lo? Não sei. Mas sinto que devemos apostar contra aquele ditado que diz que a esperança é a última que morre. Eu digo que não, que não, que ela vive enquanto a gente viver e desejar viver.
E, ao pensar nesta aposta, lembro-me de olhar de esguelha a história da literatura, no gesto inaugural do período moderno, Proust cria uma imagem bonita para nomear o objeto amoroso. O amante seria então um ser em fuga: toda vez que me aproximo, ele escapa antes mesmo de chegar às minhas mãos. Esse ser amado que não podemos reter pode, num tropeço de ternura, como reza o “Samba da bênção”, do nosso Vinicius de Moraes, dar a cumprir a arte da vida e nos encontrar, embora haja tanto desencontro pela vida.
Beatriz Yoshida Protazio
Doutorada em Estudos Literários pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), Paraná, Brasil