Saramago, a revisão curricular ou a diluição do Nobel da Literatura
Pejadas de jogos didácticos e de infantilidades avaliativas, verdadeiros espaços onde grassa a indisciplina e a ditadura digital, Saramago passa a ser opcional porque, em bom rigor, a cultura na escola é opcional também. E o mesmo se diga na formação de professores, viveiro de tanto absurdo.
António Carlos Cortez
Professor de Português e de Literatura Portuguesa, poeta, ensaísta e crítico literário
“De boas intenções está o inferno cheio”, diz o povo. E diz bem. O que se conclui da leitura do documento que é, no fundo, a declaração de intenções do actual Ministério da Educação relativamente ao que serão os conteúdos literários do ensino secundário (10.º, 11.º e 12.º anos) é que a questão literária e mesmo a consolidação da aprendizagem da língua portuguesa não é verdadeiramente a questão axial que deveria guiar todas – repito, todas – as directrizes ministeriais. Que se leia o arrazoado teórico do documento que está agora em discussão pública e lá teremos a tónica posta na óbvia relação entre a leitura literária e a construção do pensamento crítico; lá teremos o postulado da fruição estética e a defesa de que pensar e escrever e falar sobre obras literárias constitui um caminho para a cidadania e a inclusão; lá teremos, enfim, a evidente consideração de que estudar literatura é aprofundar o autoconhecimento e a alteridade; lá teremos a princípio de é essencial estudarem-se os autores maiores do idioma para a própria ideia de ética na educação. Ninguém contesta estas verdades de La Palisse. Mas tudo isto embate num jargão tecnocrático que dilui, oculta, esconde e deturpa um ensino sério do texto literário, assim como maquiavelicamente conduz os professores, uma vez mais, a transformarem as suas aulas em roteiros de obediência cega ao que o Ministério ordena.
Há aqui um dado fundamental: sobre a natureza facultativa de se leccionar ou não José Saramago no 12.º ano, em que momento foram ouvidos os professores de Português? Quem defende que os seus romances passem a ser opcionais? E porquê? E já agora, tendo em conta a miseranda forma de testar os conhecimentos com exames nacionais cheios de cruzinhas e exercícios estupidificantes, o que leva a que possamos defender a leccionação de Teixeira de Pascoaes (altíssimo poeta, o autor de Marânus), mas não possamos leccionar Camilo Pessanha? Estes dois eixos do ensino tocam-se: os programas são, de há muito, pensados e fabricados por “especialistas”, professores da academia cujo saber é indisputado, crê-se. Mas o exame, esse, não condiz com a suposta exigência das matérias do currículo do secundário. E esta contradição é agravada por esse facto óbvio: quem lecciona e conhece as dificuldades (e os modos de as ultrapassar) dos alunos desse nível de ensino jamais é chamado a pensar quer as revisões curriculares, quer os ditos exames. Não era assim nos anos de 1980 ou de 1990. Maria de Lurdes Ludovice Paixão, professora do secundário, era consultada e chamada para conceber os exames nacionais. O mesmo com José de Almeida Moura, só para citar dois exemplos grados.
Sobre a natureza facultativa de se leccionar ou não José Saramago no 12.º ano, em que momento foram ouvidos os professores de Português?
Ora, esta revisão curricular ao diluir José Saramago, o único Nobel da nossa língua e literatura, o que faz é despromover a própria literatura e a língua, o seu ensino consciente e exigente. Tudo por detrás de uma outra ideia em voga de há vinte e muitos anos a esta parte: a de que ensinar é avaliar. Perniciosa ideia porque, no fundo, é de grelhas, é de horizontes de proficiência, é de mero utilitarismo e é de facilitismo – os exames de Português sem verdadeira testagem da expressão escrita e da análise literária provam-no à saciedade – que, uma vez mais, teremos de falar. E porquê? Justamente porque José Saramago – tal como Vergílio Ferreira, cujo romance Aparição desapareceu dos programas e era, sem dúvida, das mais belas experiências estéticas que um adolescente podia ter – é daqueles autores que pede que, antes de um leitor entrar no seu universo romanesco tenha atrás de si um cabedal de leituras (de ensaio, de romances, de textos de história e de história das ideias) que, todos sabemos disso, nenhum aluno tem ao chegar ao 12.º ano. Nenhum aluno e, a bem da verdade, poucos professores. Resultado: esta revisão curricular, que coloca Cesário Verde no 12.º ano, mas faz desaparecer Herberto Helder, é apenas uma declaração de boas intenções para que, em maior ou menor grau, tudo fique na mesma. Com uma agravante: sem a prosa de Saramago como conteúdo “obrigatório”, é óbvio que muitas escolas não irão optar pelo Nobel da Literatura. E eis-nos num outro lado do problema: a formação de professores e a subsequente qualidade das aulas.
Por que razão não é Saramago um autor a ler, como se deve exigir que o seja? Porque, na verdade, na formação de professores de Português o que se faz é pensar a avaliação, em vez de se pensar em como leccionar, como analisar, como escrever e como ensinar a escrever e a pensar sobre textos complexos. Como é que eu posso ajudar a ler, a fruir a leitura de um romance como Memorial do Convento; com que ensaios poderei auxiliar os alunos a compreender obra tão magistralmente bela? E o mesmo que digo sobre os romances de Saramago digo-o para autores que esta revisão sugere que sejam lidos: Jorge de Sena, Carlos de Oliveira, António Ramos Rosa, Fiama, Luís Filipe Castro Mendes… Com muitos professores a entrar na profissão sem uma formação científica sólida, é claro que Saramago (como Gil Vicente e Camões, como os trovadores ou como Pascoaes, ou Cesário), sempre constituiria um obstáculo difícil de transpor. Mas é essa a missão da escola – e já agora da formação de professores! Isto é: pensar o que é difícil e avaliar na medida exacta em que estamos a formar gerações que queremos que tenham “pensamento crítico”.
Mas se tudo na escola e na formação de professores é uma mistificação (haverá excepções, bem sei, cada vez mais excepcionais, decerto), o ponto é só um: fará sentido que um romance (seja ele o Memorial do Convento, seja ele O Ano da Morte de Ricardo Reis) do nosso único Nobel da Literatura passe a ser opcional no último ano do secundário? Não, não faz. E não faz porque para se ler Saramago, como para ler qualquer escritor maior da nossa cultura, o estudante português teria de ter aprendido a pensar a obra de arte literária e, subsequentemente, a escrever bem sobre o texto literário e, por inerência, a escrever bem porque tem, de forma natural, apreendidas as estruturas sintáctica e semântica, morfo-sintáctica e morfo-semântica da língua portuguesa. Sucede, todavia, que hoje, à saída do 12.º ano, a maioria dos estudantes nada teve de ler para chegar ao 12.º ano. Comentar um poema, um trecho de um romance, uma peça de teatro, seja de que autor for, isso é exercício raríssimo de se praticar nas aulas de 2026. Pejadas de jogos didácticos e de infantilidades avaliativas, verdadeiros espaços onde grassa a indisciplina e a ditadura digital, Saramago passa a ser opcional porque, em bom rigor, a cultura na escola é opcional também. E o mesmo se diga na formação de professores, viveiro de tanto absurdo.