Tem mãe p’ra matar?
A sociedade atribuiu às mães um papel tão gigante que até uma ateia comunista, experiente na mesma tarefa e analisada por anos, não concebe pôr no lixo sem culpa uma velha foto de sua mãe.
Ontem, em meio a uma faxina, eu me dei conta da necessidade de distanciamento que muitas ocupações demandam. Se eu pudesse distinguir boas e más profissões, arriscaria afirmar que o distanciamento é requisito imprescindível para o exercício das más. Um policial, um fiscal de loja ou de tributos, um cobrador de dívidas, dentre muitos outros profissionais demandados pelo mercado, não cumpre bem a função que lhe é atribuída, ou a cumpre com muito sofrimento, se a sua atuação for perpassada por um mínimo de afeto.
Eu não sei se entre os requisitos para tais profissões está prevista a exclusão dos candidatos cujos comportamentos indicarem “padecer” de empatia e solidariedade para com as pessoas que virão a ser o seu objeto de trabalho. Mas sei que, por trás das ações reprováveis de tais profissionais há sempre um patrão, muitas vezes, personificado pelo Estado, a fomentar racismo, xenofobia, aporofobia, etc. E só quando o ato excede todas as medidas de respeito pela dignidade humana e um número significativo de reações contrárias é reproduzido nas redes sociais, que o patrão se declara inocente, transfere a responsabilidade para o empregado, demite-o, faz um afago à vítima e assim salva a sua imagem. Como alguém que sai contrito do confessionário, o real opressor parte imediatamente para outros ataques, agora praticados por um novo desgraçado que por um salário faz qualquer coisa.
Convenhamos, se contextualizadas as profissões por mim consideradas boas ou más, teremos conteúdo para algumas teses acadêmicas. Não é o caso. Destaco tão somente que o objeto predominou sobre o sujeito, provocando uma breve mudança de caminho. Afinal, como falar de trabalho sem falar de capital? Impossível. Mas a minha intenção é retomar a ideia inicial, que se inscreve no centro da faxina que pretendi fazer. A faxina é, a meu ver, uma atividade nobre, necessária, mas que também requer distanciamento. Não porque guarde algum aspecto mesquinho. A atividade só não está isenta das determinações do mercado, porque a sobrevivência de quem a realiza profissionalmente não escapa à obrigação de ter método e objetividade. Por conseguinte, a isenção obrigatória a que desejo me referir é de ordem afetiva.
APOIA O MAIO!
Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.
Constatei que o serviço realizado em quatro horas por uma profissional eu não realizo em quatro dias, não por incapacidade, mas por estar envolvida emocionalmente com a casa, com os móveis, com os objetos em geral, com a disposição e o significado de cada elemento que a compõe. Enquanto a faxineira se ocupa da limpeza, que deve ser realizada em tempo determinado, sem abrir portas de armários, menos ainda as caixas dentro deles, que guardam inúmeras pequenas porções da nossa vida, eu não resisto a tentação de verificar cada conteúdo, em geral, sob a alegação de me livrar de coisas que já nada deviam significar. Às vezes, sob protesto, jogo alguns papéis fora, apenas por pensar no trabalho que alguém terá, se por ocasião da minha morte decidir fazer uma seleção do que é ou não reaproveitável. Seria de bom tom que eu pusesse avisos, a informar que as minhas múltiplas caixinhas guardam coisas importantes apenas para mim, portanto, pós-morte, quem resolver apagar a presença da defunta está liberado para fazer delas uma fogueira, em lugar que o fogo não se espalhe.
Para que se tenha uma ideia de quão difícil é uma faxina sem distanciamento, conto-lhes o que me aconteceu. Depois de horas perdidas a ler cartões, olhar fotografias, querer identificar pessoas de quem já não lembro o nome; depois de rir, chorar, sofrer lembranças, perco-me dos propósitos iniciais e o que devia ser apenas uma limpeza tende a virar outra coisa. Pego uma flanela para limpar as fotos expostas sobre um móvel, percebo que a moldura da velha foto da minha mãe está a pedir urgente substituição. Sem contar com a possibilidade de a foto ter-se colado ao vidro, ao tentar desprendê-la o que obtenho é uma imagem completamente deformada. Desolada, não sei o que fazer. Eu que mato sem culpa tanta gente viva, sinto que não serei perdoada se jogar fora a foto de uma pessoa morta.
Mães não morrem. Não por serem perfeitas, santas, divinas, sagradas. Não morrem por serem úteis, necessárias, imprescindíveis.
Ora, a pessoa morta é a minha mãe. Mães não morrem. Não por serem perfeitas, santas, divinas, sagradas. Não morrem por serem úteis, necessárias, imprescindíveis. Há exceções. Contudo, arrisco-me a dizer que a maioria está na categoria de imortal. Umas, coitadas, não morrem por não terem onde cair mortas. Outras têm a pretensão de serem insubstituíveis, o que implica uma vida de punições. Têm férias e aposentadoria do trabalho, mas nunca das tarefas maternas que impuseram a si mesmas. Daí, não têm direito nem ao descanso eterno em que muitas acreditam. A sociedade atribuiu às mães um papel tão gigante que até uma ateia comunista, experiente na mesma tarefa e analisada por anos, não concebe pôr no lixo sem culpa uma velha foto de sua mãe, na qual só enxerga uma imagem cheia de rasuras, um papel inútil, sem nenhum significado.
Seria razoável cortá-la em pedaços e jogar no lixo. Na melhor das hipóteses, comprar um novo porta-retrato, substituir por outra foto e recolocar no mesmo lugar. Cadê a racionalidade? Não bastasse a incapacidade do descarte, verifiquei que havia entre as outras fotos da família, uma da minha tia-madrinha, cuja importância assumida na minha história causava um certo ciúme à minha mãe. Logo pensei que não podia destinar um espaço à minha tia, se a minha mãe já não estaria ao lado. Retirei-a imediatamente e escondi numa gaveta, como se estivesse a dar uma satisfação para a minha mãe.
A essa altura, eu devia estar me achando o máximo: sou mãe. Não seria também eu imortal? Mas, além de perceber o peso dessa suposta imortalidade, não posso deixar de lembrar que eu nunca incluí a minha mãe entre os meus mortos porque sentia pena dela. É mais fácil matar quem nos causa raiva. Portanto, não vou me importar se, na terapia de grupo, os meus filhos perguntarem ao sujeito ao lado: tem mãe p’ra matar?
Maria Augusta Tavares
Investigadora do trabalho