Jornal Maio

Nos 80 anos do Jornal do Fundão

O Jornal do Fundão, que agora perfaz 80 anos, não se faz para ornamentar o mundo, mas para o interpelar, ferir, revelar, a sua linguagem não coincide com a gramática do poder, nem se submete à sintaxe da dominação, pensa e escreve a partir de uma ética da insubmissão, para não dizer da revolução.

Miguel Real

Miguel Real

Ensaísta

Antes do 25 de Abril, para além do República, comprava religiosamente numa tabacaria do Rossio, em Lisboa, três jornais: o Notícias da Amadora (aqui perto de Lisboa), o Comércio do Funchal, dirigido pelo Vicente Jorge Silva, e o Jornal do Fundão, de António Paulouro. Nenhuma relação tinha com a Amadora, o Funchal e o Fundão. Comprava-os porque eram jornais diferentes, via neles uma luz social diferente, via neles o que ainda hoje vejo no Jornal do Fundão: um jornal de causas, a luta e a defesa por uma ampla justiça social que a todos iguale.

Antes do 25 de Abril, a luta oposicionista pela democracia; depois do 25 de Abril, a luta pela valorização do interior a todos os níveis.

A minha preferência atual pela leitura do Jornal do Fundão reside na sua capacidade semanal de desafiar o centro (Lisboa) e as instituições centrais do Estado. 

 

O Jornal do Fundão é, todas as semanas, como voz popular, um jornal incómodo para a ordem instituída em Portugal, um combatente da liberdade, da igualdade e da justiça social.

 

A sua antiguidade (80 anos é muito ano) podia dar-lhe um lugar de conforto de burguesia provinciana satisfeita. Mas não, as suas páginas são escritas a partir do confronto com o centro em função do que devia ser o dever deste como pessoa de bem e de que se exime, ou o cumpre concedendo migalhas. 

O Jornal do Fundão é, todas as semanas, como voz popular, um jornal incómodo para a ordem instituída em Portugal, um combatente da liberdade, da igualdade e da justiça social. Traz consigo essa marca antiga do seu fundador, a palavra sempre suspeita de quem recusa a neutralidade.

O Jornal do Fundão não se faz para ornamentar o mundo, mas para o interpelar, ferir, revelar, a sua linguagem não coincide com a gramática do poder, nem se submete à sintaxe da dominação, pensa e escreve a partir de uma ética da insubmissão, para não dizer da revolução. É nutrido por uma fidelidade obstinada aos mais frágeis, aos que não cabem nos discursos dominantes nem nas narrativas oficiais. 

Assim espero que continue muitos anos.

Quero saber mais sobre: