Jornal Maio

Um domingo de sol

Com a rara exceção de 25 de dezembro e 1 de janeiro, os trabalhadores dos centros comerciais trabalham para receber os que visitam estes espaços, em turnos rotativos, frequentemente desrespeitosos da sua condição familiar ou do seu direito ao descanso.

No já longínquo ano de 1971, surgia o primeiro centro comercial em Portugal: o Apolo 70, em Lisboa, perto do Campo Pequeno. Estávamos então longe de imaginar que este símbolo de modernidade seria o primeiro de 173 espaços comerciais contabilizados até ao final de 2025.

Mas não é da história destes espaços lucrativos que quero falar. Quero falar do lado humano; daqueles que todos os dias, com a rara exceção de 25 de dezembro e 1 de janeiro, trabalham para receber, sempre com um sorriso, todos os que visitam estes espaços.

Muitas vezes invisíveis, quase sempre esquecidos, como se fossem um mero acessório, tal como as escadas rolantes ou as portas giratórias. São trabalhadores que passam anos a fio em turnos rotativos, frequentemente desrespeitosos da sua condição familiar ou do seu direito ao descanso. Trabalhadores que não sabem o que é passar a tarde de Páscoa com quem mais gostam, ou usar um cravo ao peito para comemorar a liberdade. Em muitos desses feriados, o trabalho é uma imposição da necessidade, para que míseros subsídios se somem a um salário mínimo insuficiente.

 

A maioria daqueles que compõem 7% do total dos trabalhadores portugueses apenas desejava poder desfrutar, com mais frequência, de um domingo de sol.

 

Os sindicatos representativos da área têm pouca expressão e uma capacidade reivindicativa limitada. As lutas, as manifestações e as greves são levadas a cabo por um número reduzido de pessoas. Falta esclarecimento, falta mobilização e sobra o receio constante de perder o emprego. O medo de saber que se é substituível de um dia para o outro.

Parece uma ofensa quando se fala no fecho dos centros comerciais, pelo menos ao domingo. É um tema que parece passar ao lado das prioridades dos grandes partidos. Compreende-se a complexidade económica e a fratura de opiniões, mas urge encontrar um equilíbrio real entre a empresa, o trabalhador e a família.

Para ser sincero e justo, a empresa onde trabalho surge como um oásis neste deserto de valores humanos. No fundo, a maioria daqueles que compõem 7% do total dos trabalhadores portugueses apenas desejava poder desfrutar, com mais frequência, de um domingo de sol.

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