Jornal Maio

Urgências hospitalares: como desbloqueá-las?

A limitação dos pontos de acesso e a sua concentração em grandes Urgências respondendo por grandes áreas, levou a dificuldades extremas de resposta a todos os casos. Sem médico de família, sem centro de saúde aberto e com vaga de atendimento, sem terem quem os trate, os ajude, os oiça, os doentes afluem às Urgências e entopem-nas.

Há situações clínicas que levam à necessidade de uma intervenção rápida, de urgência, seja no plano terapêutico seja no simplesmente diagnóstico, quanto mais não seja para se poder afirmar, ou supor com alta probabilidade de certeza, que não é preciso um tratamento urgente. Claro que muito do que não é uma urgência para um médico, depois de observar um doente, pode para este ser um quadro de extrema urgência, fonte até de enorme angústia e de ansiedade, as quais, só por si, podem afectar o seu estado de saúde. Mas para se desfazer essa confusão com o veredicto médico, implica que o doente seja observado enquanto tal. 

Os hospitais, e de uma maneira geral as instituições de saúde, têm habitualmente um serviço de urgências, onde são concentrados os meios tecnológicos e humanos que permitam o diagnóstico e as intervenções terapêuticas do modo rápido que as urgências que a ele acorram impliquem. É natural, pois, que as urgências vão às Urgências.

Mas a noção de urgência varia. Varia desde logo no seu grau clínico, de maior ou menor urgência, e varia também na noção que o próprio doente tem dela, e que não se pode, nem deve, simplesmente ignorar. É muito importante que os casos emergentes, ou muito urgentes, sejam atendidos imediatamente, ou muito rapidamente, e os outros o sejam de acordo com o seu grau de urgência, mas o sejam, e atempadamente. 

No entanto, há também muitos doentes que vão às Urgências sem terem realmente urgência as suas situações clínicas, apenas pelo facto de elas existirem e precisarem de ser observadas e orientadas, diagnosticadas e tratadas na medida do possível. Estes vão aumentar com certeza muito a afluência às Urgências, e são frequentemente invocados como uma das maiores causas do superpovoamento daqueles serviços.

Quando, no início dos anos 80, trabalhei como cirurgião no Reino Unido, a afluência de doentes às Urgências dos grandes hospitais centrais era relativamente pequena, sem causar aflições e atropelos, nem demoras. Os cirurgiões de serviço estavam, naturalmente, em presença física nos hospitais, mas de chamada à Urgência. Ainda com “bips”. Cada hospital integrava uma rede de outros hospitais e centros de saúde, e de consultórios de general practitioners (clínica geral), onde os doentes se podiam e, na verdade, deviam dirigir antes de serem enviados à Urgência de um hospital mais diferenciado. Sem ser por motivos emergentes, ou de grande acidente, só iam à Urgência do hospital enviados pelo seu GP, ou por outro médico que primeiro os tivesse observado. 

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Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.

Foi no final dessa década que a primeira-ministra Margaret Thatcher revolucionou o NHS (National Health Service), no mesmo sentido do que cá foi feito mais tarde: encerrando maternidades e hospitais mais pequenos, fechando Urgências, retirando a possibilidade de recurso aos centros de saúde e consultórios em situações de urgência, concentrando os doentes nas Urgências hospitalares, tornada cada uma das sobreviventes maior para poder dar maior e melhor resposta, segundo o propalado “efeito de escala”. E foi logo no início da década seguinte (em 1994) que houve necessidade de criar um sistema de triagem de doentes (em Manchester, a triagem de Manchester) para se conseguir receber com alguma eficiência e segurança o enorme número de doentes que tinham passado a inundar as Urgências hospitalares no Reino Unido. Pelas nossas bandas, as mesmas causas tiveram os mesmos efeitos.

A limitação dos pontos de acesso e a sua concentração em grandes Urgências respondendo por grandes áreas, levou a dificuldades extremas de resposta a todos os casos, desde os muito urgentes ou emergentes aos com menos urgência, ou mesmo sem urgência e que por esse motivo chegam a esperar 15, 20 e mais horas para serem atendidos! Algumas vezes acabam por desistir, sem o problema resolvido nem sequer orientado.

Perguntam alguns então, com ar horrorizado, por que razão casos não urgentes procuram as Urgências? Não por loucura, é óbvio, simplesmente porque não têm mais a quem recorrer, uns sem médico de família, outros sem centro de saúde aberto e com vaga de atendimento, ou uma qualquer pequena urgência, todos sem ter quem os trate, os ajude, os oiça. Ou a ter de esperar uma ou duas horas para conseguir falar (se conseguirem) com alguém ao telefone sobre a ferida que têm há dois dias num pé ou da dor nas costas que os incomoda. É difícil compreender?

 

Será que a resposta a um número cada vez maior e incomportável de doentes nas Urgências é proibir doentes de irem lá?

 

Será que a resposta a um número cada vez maior e incomportável de doentes nas Urgências é proibir doentes de irem lá? É difícil entender que as dificuldades crescentes nas Urgências hospitalares (públicas, mas cada vez mais nas privadas também) têm uma origem a montante, de há anos para cá e agravando-se cada vez mais, decorrendo de uma política de saúde errada e em que se insiste? E que não é nas próprias Urgências que se encontra a sua solução? É assim tão difícil olhar para trás e ver o que se passou? Talvez perguntar a quem sabe fosse uma ideia a ter.

Há tempos, um amigo e colega que muito prezo contou uma parábola muito oportuna numa reunião de trabalho sobre assuntos de saúde. Numa fábrica de pregos havia várias secções destinadas ao fabrico de diferentes variedades de pregos. Mais compridos, mais curtos, mais finos, mais grossos, de cabeça grande, cabeça pequena, redonda, quadrada, enfim, para tudo o que fosse preciso. A partir de certa altura houve uma modernização na maquinaria e começaram a surgir pregos tortos, de todos os tipos. E a direção da fábrica apresentou a seguinte solução: criaram uma nova secção, destinada a endireitar todos os pregos tortos produzidos. O problema foi essa secção não dar vazão ao trabalho que tinha, pelo que teve de ir sendo exponencialmente aumentada, cada vez com maior custo.

Uma parábola é um texto curto, geralmente em forma de narrativa, que usa personagens, acções e situações simbólicas para ensinar algo profundo de forma simples. De carácter ético, moral, espiritual, ou da organização da saúde num país. 

 O autor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.

Quero saber mais sobre:

Carlos Costa Almeida

Cirurgião e professor da Faculdade de Medicina de Coimbra