Quando o jornalismo de mãos limpas afia o lápis azul
No jornalismo, os factos são essenciais, mas o fundamental é “os sentidos que possam ter”.
Sylvia Debossan Moretzsohn
Jornalista, professora aposentada da UFF .
“Os factos são o que menos importa nas grandes reportagens”, escreveu certa vez o jornalista e professor Eugênio Bucci. Quis, com esta frase de impacto, alertar para uma verdade que se aplica à prática do jornalismo de modo geral: os factos são essenciais, mas o fundamental é “os sentidos que possam ter”.
Esta é uma forma simples de esclarecer o papel político do jornalismo, algo que a Comissão Hutchins, no seu famoso relatório “A Free and Responsible Press”, de 1947, definiria como a base da teoria da responsabilidade social: não bastava expor os factos verdadeiramente, era preciso “relatar a verdade sobre os factos”.
É o que torna complexo o compromisso comumente reconhecido pelos jornalistas de “dar os factos para que o público tire suas próprias conclusões”. Esse compromisso, porém, é frequentemente entendido de maneira formalista, como se significasse isenção ou imparcialidade. Foi o que chamei, há tempos, de “jornalismo de mãos limpas”: ouve-se um lado, ouve-se outro – ou tantos quantos houver, como se todos se equivalessem –, deixa-se a conclusão para o público e lava-se as mãos. É, muito claramente, uma forma de se demitir da responsabilidade que a profissão exige.
Associe-se isso ao vale-tudo na guerra pelas audiências e temos um perfeito quadro da degradação do jornalismo, com graves consequências políticas.
Em junho de 2025, na reportagem sobre “O encanto do jornalismo pelo Chega”, João Pinhal mostrou a disparidade entre o número de entrevistas concedidas pelo líder desse partido e pelo líder do PSD, então na oposição em praticamente todo o período pesquisado, entre abril de 2019 (quando o Chega foi fundado) e junho de 2024. Nos grupos de TV privados, André Ventura, embora tivesse sido deputado único entre 2019 e 2022, com 1,29% dos votos (menos de 70 mil eleitores), teve direito nesse período “apenas a menos uma entrevista do que o líder do partido que conseguiu perto de 1 milhão e 500 mil votos”. A desproporção prosseguiria: entre as legislativas de 2022 e as de 2024, Ventura foi entrevistado 27 vezes nos canais privados, mais que o dobro do que o líder do PSD, atual primeiro-ministro, apesar da representatividade muito inferior.
Entre as legislativas de 2022 e as de 2024, Ventura foi entrevistado 27 vezes nos canais privados, mais que o dobro do que o líder do PSD, atual primeiro-ministro.
A pesquisa não abrange a cobertura de manifestações promovidas pelo Chega, que, embora com participação irrisória, mereceram longa exposição, mesmo nas TVs públicas. Seria mais um elemento a corroborar o quanto este jornalismo abriu caminho para algo que agora já não se pode ignorar, no melhor estilo das profecias autocumpridas.
Em sua dissertação de mestrado, sobre um aspecto da cobertura do Chega pela SIC, apresentada em outubro do ano passado na Universidade Nova de Lisboa, Diogo Cordeiro demonstra que os jornalistas entrevistados vivem uma permanente tensão entre o dever de informar e a necessidade de fugir à instrumentalização que normalizaria e amplificaria o discurso da extrema-direita. Mas a incompreensão, por parte dos jornalistas, sobre o papel político que desempenham fragiliza a hipótese de não se deixarem usar por alguém que sabe “tirar partido da forma como os media funcionam”.
“O Chega tem de facto mais tempo a aparecer que os outros partidos porque de facto sabe criar essas oportunidades também para aparecer mais”, diz um dos entrevistados. Seria, portanto, uma questão de competência? Se lideranças de esquerda, quer de partidos, sindicatos ou movimentos sociais, se qualificarem para isso, terão espaço correspondente? Mais: todas as “oportunidades” criadas são válidas e merecedoras de atenção?
Outro entrevistado diz: não se deve tratar o Chega de modo diferente, porque todos os partidos foram eleitos democraticamente. Ora, desde que surgiu o Chega foi tratado de modo muito diferente, como mostrou a reportagem de João Pinhal. Mais grave é considerar que se trata de um partido como os demais, quando não é, e a rigor já deveria ter sido proscrito, pelo seu discurso xenófobo, racista e contrário aos valores democráticos do 25 de Abril.
Por isso, insistir no jornalismo de mãos limpas diante de quem afirma a necessidade de três salazares para “pôr isto na ordem” não é nada menos do que ajudar a afiar o lápis azul.