O XXV Governo, liderado por Luís Montenegro, tem insistido num discurso de crescimento económico, aumento exponencial dos salários e pleno emprego. A narrativa oficial apresenta um país em transformação positiva, mas os números divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) e pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) revelam uma realidade distinta, conforme salientado em publicação recente do economista Eugénio Rosa.
No dia 17 de outubro de 2025, o INE comunicou que 2,1 milhões de pessoas vivem abaixo do limiar da pobreza. O mesmo organismo revelou que 66,1% dos trabalhadores recebem um salário bruto inferior a 1000 euros por mês e que apenas 18,5% auferem entre 1001 e 1500 euros brutos.
Os dados sobre o emprego também levantam questões. O INE reporta 326,6 mil desempregados, mas exclui da contagem os chamados “inativos disponíveis”. Se incluídos, o total sobe para 451,7 mil pessoas sem trabalho, o que corresponde a uma taxa de desemprego de 7,85%, superior à taxa oficial de 5,8%.
Nos registos do IEFP, a discrepância é evidente. No fim de dezembro de 2024, estavam inscritos 335.665 desempregados. Entre janeiro e setembro de 2025, inscreveram-se mais 407.903 pessoas, e foram colocadas 73.266 em postos de trabalho. O cálculo direto apontaria para 670.302 inscritos no final de setembro, contudo, o Boletim Estatístico oficial indica apenas 302.600 inscritos.
Portugal apresenta ainda a 12ª taxa de pobreza mais elevada da União Europeia e um fosso salarial de -20% face à média europeia, fatores que contribuem para a emigração. Em 2024, o stock de capital físico (máquinas, edifícios, etc.) por trabalhador era de 117.000 euros, enquanto a média da União Europeia atingia 204.000 euros.
Portugal continua marcado pelos baixos salários e por uma estrutura dominada por micro, pequenas e médias empresas. Em 2025, existiam cerca de 1,53 milhões de empresas ativas, das quais 99,9% eram PME. Dentro deste universo, 96% eram microempresas (até 9 trabalhadores) e 3% pequenas empresas (10 a 49 trabalhadores), segundo dados do INE.
Uma parte significativa destas pequenas empresas corresponde a subsidiárias de grandes grupos ou do Estado, como as empresas municipais criadas para servir autarquias.
Os trabalhadores não podem ser responsabilizados pela persistência da pobreza ou pelo atraso económico. A taxa elevada de pobreza e o fosso salarial face à União Europeia não resultam da falta de capacidade de trabalho ou de produção dos trabalhadores, mas do atraso e ineficácia dos detentores do capital. As estatísticas mostram que as empresas não estão preocupadas com as condições de vida dos trabalhadores e que os lucros e benefícios fiscais das grandes empresas não se traduzem nem em aumentos salariais nem em ganhos de produtividade.