Populações sem comboio:
abandono que tem responsáveis
A passagem da tempestade Kristin por Portugal, seguida de vários fenómenos meteorológicos adversos, provocou danos significativos nas infraestruturas ferroviárias e rodoviárias. No setor ferroviário, semanas depois, continuam sem avançar obras visíveis que permitam repor a circulação com urgência.
Presidente do SFRCI
No passado dia 28 de janeiro de 2026, a passagem da tempestade Kristin por Portugal, seguida de vários fenómenos meteorológicos adversos, provocou danos significativos nas infraestruturas ferroviárias e rodoviárias sob gestão da Infraestruturas de Portugal.
As consequências foram imediatas: interrupções prolongadas da circulação ferroviária em várias linhas da rede nacional. Em muitos casos, essas interrupções mantêm-se até hoje, com especial impacto na Linha do Oeste, na Linha da Beira Baixa e na Linha do Douro.
Mas o mais grave não é apenas o dano causado pela tempestade, é a resposta, ou falta dela.
Por todo o país, autarcas denunciam a ausência de intervenção nas estradas nacionais afetadas. No setor ferroviário, a situação é ainda mais preocupante: semanas depois, continuam sem avançar obras visíveis que permitam repor a circulação com urgência.
O próprio Governo já admitiu que a Linha do Oeste, entre Meleças e Caldas da Rainha, poderá estar encerrada durante cerca de nove meses. Nove meses! Um prazo inaceitável para populações que dependem diariamente do comboio para trabalhar, estudar e aceder a serviços essenciais.
A Linha do Oeste, entre Meleças e Caldas da Rainha, poderá estar encerrada durante cerca de nove meses.
Importa recordar que estas mesmas populações vinham já de um longo período de sacrifício. Durante dois anos, suportaram o encerramento da linha, com a promessa de modernização e eletrificação. Hoje, voltam a ficar sem comboio — e, desta vez, sem sequer transportes alternativos.
Na Linha do Douro, entre a Régua e o Pocinho, o cenário repete-se: populações isoladas, trabalhadores sem soluções de mobilidade, territórios empurrados ainda mais para a marginalização.
Não se trata apenas de um problema de transporte. Trata-se de um ataque direto ao direito à mobilidade, ao trabalho e à coesão territorial.
Quase um mês depois do impacto das tempestades, o que se vê no terreno é ausência: não há obras visíveis, não há meios mobilizados com a urgência que a situação exige, não há respostas claras para quem foi deixado sem alternativa.
Entretanto, a comunicação política continua seletiva. Quando se trata de grandes obras rodoviárias concessionadas a privados, a presença pública do Ministério das Infraestruturas é constante. Já quando estão em causa serviços públicos essenciais e populações inteiras dependentes do transporte ferroviário, instala-se o silêncio.
Este abandono não é inevitável. É uma opção.
Num país que fala de transição climática e de mobilidade sustentável, deixar linhas ferroviárias paradas durante meses, sem alternativas, é caminhar no sentido oposto. Penaliza trabalhadores, fragiliza economias locais e aprofunda desigualdades regionais.
As populações não podem continuar à espera. É urgente repor a circulação ferroviária, garantir transportes alternativos imediatos e assumir responsabilidades políticas claras.
Porque o comboio não é um luxo, é um direito.
Luís Bravo
Presidente do SFRCI