Para que serve um gestor?
Nas últimas décadas, nas grandes empresas do capitalismo moderno, a figura do gestor agigantou-se. A paga dessa figura, então, como se agigantou!
Adriano Zilhão
Economista e Militante
Desculpe o leitor a pergunta estúpida.
Nas últimas décadas, nas grandes empresas do capitalismo moderno, a figura do gestor agigantou-se. A paga dessa figura, então, como se agigantou!
Dizem os dados1 que, entre 1990 e 2020, a proporção entre a remuneração global do chefe executivo duma grande empresa e a do seu trabalhador médio passou de 60 para 350 vezes nos EUA, de 40 para 150 vezes na União Europeia, e de 25 para 130 vezes em Portugal. Por outras palavras, em Portugal, o gestor médio passou a ganhar num ano o que o seu trabalhador médio ganha(ria) em 130 anos.
Se a pergunta em título já era estúpida, mais estúpida fica. Caramba, se o gestor não fosse necessário, digo, vital para a empresa, porque haveriam os investidores de lhe pagar tanto?! Pura evidência. Porque são os prados verdes, o enxofre, amarelo?
Mas há quem não se contente com evidências. Inevitavelmente, aparecem populistas a cacarejar objecções: ah, mas olha que, imagina, o gestor, doente em casa, os trabalhadores, na fábrica a laborar: produz-se, vende-se, lucra-se até. Agora, o gestor na fábrica, mas os trabalhadores doentes ou em greve: nada se produz, nada se vende, nada se lucra, sequer!
A desproporção entre a remuneração dos “gestores” e a dos trabalhadores (mesmo os mais qualificados) é reflexo do nulo papel que as necessidades humanas e os bens e serviços necessários para lhes responder desempenham na economia moderna.
Fantasias simplistas. Com aprumo e sem tossicar, o mínimo recém desavençado do Violas replicará: a proeminente posição, a correlativa proeminentíssima remuneração, do executivo, que, em português moderno, se diz CEO e se pronuncia “si e ão”, radicam na necessidade de ter alguém capaz de “liderar” uma organização tão complexa como uma empresa moderna; alguém capaz de assumir a responsabilidade (leia-se esta palavra como se tivesse vinte e quatro sílabas) pelos enormes riscos associados às grandes decisões que tal organização constantemente tem de tomar.
Assunto resolvido, então.
Seja. Mas uma vez começado um artigo, é preciso acabá-lo. Sejamos coca-bichinhos, para continuar a ter assunto. Vamos ao encontro de quem ficou insatisfeito e quer mais conversa.
O melhor é sempre um exemplo. Seja: uma empresa de aviação. Mais complexo, é difícil. Seja: a Boeing, americana. Maior, mais complexo, não há muito.
Subtraiamos ao nosso construtor de aviões os seus gestores. Vejamos o que sobra. Sobra quem sabe desenhar um avião e as suas diferentes partes? Sobra. Sobra quem sabe construir um avião? Sobra. Sobra quem sabe com quem falar para fazer certas peças necessárias e encomendá-las? Sobra. Sobra quem sabe verificar a qualidade das peças recebidas? Sobra. Sobra quem sabe montar o avião? Sobra. Sobra quem sabe ensaiar o avião? Sobra. Sobra quem sabe garantir a segurança do avião? Sobra. Sobra quem sabe avaliar, registar e controlar os custos das matérias-primas, peças, energia e mão de obra? Sobra. Sobra quem sabe melhorar e modernizar o desenho do avião quando for o tempo e o caso? Sobra.
Sobra então, na empresa, pós-subtracção dos gestores, tudo o que é preciso? Parece que sim. Mas, alto lá, calma! Não ficou demonstrado que os gestores também não sejam precisos, digo, vitais!
Os gestores podem ser necessários por uma necessidade que não venha propriamente de dentro da empresa de aviação. Nem de dentro do sector industrial da aviação. Nem sequer da contabilidade e da economia da fabricação de aviões. Podem vir de uma necessidade importantíssima que venha doutro lado!
Mas que lado?
Para investigar, voltemos à Boeing. Em 2018, a Boeing viveu um escândalo que quase a levou à falência (entre nós seja dito: só não faliu porque também era uma das principais empresas de armamento dos EUA).
Vinte anos antes, em 1997, a Boeing comprara a sua maior concorrente americana, a McDonell Douglas, tornando-se num quase monopolista da construção de aviões de passageiros.
Mas nessa altura aconteceu uma coisa inusitada. A cultura do novo colosso, em vez de manter a cultura dos “engenheiros tradicionais” da Boeing — afinal, a empresa compradora — passou a ser mais a da McDonell, a empresa comprada. Uma “cultura” aparentemente mais alinhada com os novos tempos.
Conta o semanário alemão Der Spiegel que o chefe da McDonell, Harry Stonecipher, feito n.º 2 do grupo fundido, achava que a construção de aviões dava pouco lucro em comparação com outros ramos. Confidenciou ele à revista, em 2001: “se você for um investidor, vai querer investir em empresas que cresçam 20% por ano, não 6%”.
A cotação em bolsa, que mede o “apetite” dos investidores, passou a principal critério de gestão da Boeing. Toca a cortar nas despesas de desenvolvimento de aviões. Toca a usar o dinheiro assim poupado para pagar dividendos aos accionistas (entre eles os próprios altos executivos, que recebiam parte do ordenado em acções e “opções”, de valor dependente da cotação). Entre 2013 e 2019, mais de 60 mil milhões de dólares foram assim “reafectados” (equivale a mais de um terço do PIB português da altura). Em 2018, só o ordenado do “si e ão” excedeu 23 milhões. E tudo corria bem no melhor dos mundos.
Em 2018 e 2019, ocorreram dois dos maiores desastres aéreos da história. Dois Boeing 737 Max, novo modelo acabado de desenvolver pela Boeing a partir do velho 737, despenharam-se. 346 mortos.
Foram-se conhecendo pormenores. As linhas aéreas consideravam que o novo modelo da Airbus europeia, o A320, era superior ao 737. Sobretudo, muito mais económico. Querendo competir, a Boeing ia ter de criar um modelo novo. Custo estimado: 20 mil milhões de dólares— mais muitos anos de desenvolvimento, mais longos ensaios, mais a formação dos pilotos.
Entretanto, a quota de mercado e a cotação da Boeing iam caindo.
Os gestores tomaram uma decisão: desenvolver uma coisa de que pudessem convencer o regulador ser um mero “upgrade” do velho 737, por meros 2500 milhões: punham-se-lhe motores novos, mais económicos; compensavam-se os inevitáveis desajustes do desenho global com software; e fintava-se a obrigação de formar pilotos. Cortavam-se à machadada custos e tempo2. Partes do software, por exemplo, foram subcontratadas na Índia, a nove dólares hora/programador.3
Apesar das sérias preocupações manifestadas por vários pilotos e linhas aéreas, apesar de solicitações explícitas de formação dos pilotos, a Boeing “dissuadiu-os”.
O manual do não-novo avião nem mencionava o novo software, a não ser no glossário…
Lição desta história? Os engenheiros e operários sabiam construir um avião sólido e fiável. Mas “o mercado”, pela voz dos gestores, não os deixou. Os engenheiros e operários sabiam que era preciso investir tempo e recursos para ter um produto seguro. Mas os accionistas, pela voz dos gestores, disseram-lhes: ai sim, então desempatamos o nosso capital e empatamo-lo noutras paragens.
Em nome do mercado e dos accionistas, os gestores sacrificaram a segurança dos passageiros.
Afinal, uma empresa privada existe porque os donos nela investiram capital com o objectivo de o multiplicar, não com o objectivo particular de construir aviões ou transportar passageiros. Para multiplicar capital, tanto servem aviões como gelados ou cocaína. Aviões não rendem? Tire-se de lá o capital, ponha-se na cocaína ou em gelados.
Não são precisos “gestores” para que quem sabe fazer aquilo de que a sociedade necessita o faça. Porém, sem gestores, o mercado não transmite os seus “sinais” para dentro da empresa. Sem gestores, os proprietários do capital da empresa não podem guiá-la por onde sejam melhores as oportunidades de aumentar esse capital.
O agigantamento social e monetário do gestor é, assim, simbólico do agigantamento da “tesoura” entre economia de mercado e necessidades humanas.
O gestor traz para dentro da empresa o poder do mercado e o poder do accionista. É simultaneamente delegado do mercado na empresa, portanto, delegado do interesse colectivo de todos os capitalistas; e delegado dos grandes accionistas/capitalistas específicos da empresa.
Do que ele não é delegado é da necessidade social em bens e serviços. Nem da capacidade técnica de produzir e melhorar a produção, seja de que bens e serviços for.
A desproporção entre a remuneração dos “gestores” e a dos trabalhadores (mesmo os mais qualificados) é reflexo do nulo papel que as necessidades humanas e os bens e serviços necessários para lhes responder desempenham na economia moderna.
Que surpresa que tudo isto dê numa fenomenal orgia de desperdício de recursos sociais, sem comparação possível com o desperdício burocrático na antiga União Soviética ou na China, porém muito mais falados, nem com as — porém badaladíssimas — ineficiências do SNS, do Estado português (e dos outros Estados), que enchem as capas dos jornais!
Eis para que serve um gestor.•