O poder em partículas
O poder, como o bosão de Higgs, é a manifestação desse campo de crenças colectivas e legitimidade concedida, conferindo ‘peso’ ao discurso do político, à opinião do especialista, à decisão do juiz.
Alfredo Soares-Ferreira
Escritor e cronista
“Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas, continuarei a escrever. Como começar pelo princípio, se estas coisas acontecem antes de acontecer?”
A Hora da Estrela, Clarisse Lispector (1977)
Imaginar uma sociedade onde o poder não reside no trono dos reinos, nas presidências vazias ou nas secretarias cheias de burocratas pode ser uma tarefa interessante, caso seja acompanhada da necessária visão crítica. Uma das alternativas, falando simplesmente do campo da imaginação criativa, seria um poder inspirado nos avanços mais recentes da física de partículas, que reside nas sombras infinitesimais do invisível, nos fragmentos quânticos que tecem os contornos da existência. Uma alegoria possível aos humildes constituintes da matéria e do espírito humano, onde cada colisão, cada excitação fraccionária, revela forças capazes de reescrever o destino colectivo.
O poder pode, na nossa imaginação, ser qualquer coisa como a “imaginação ao poder”. Recuemos a Maio 68, em que Paris veria dez milhões de grevistas nas ruas e se convocava a imaginação como força motriz da arte, da inovação e da utopia, um hino global, em que a tomada de poder iria varrer as estruturas rígidas, burocráticas e opressivas da sociedade, governos, capitalismos e hierarquias tradicionais. Ficou, no seu tempo, como um manifesto para que a “criatividade liberte e governe”, transformando o mundo num palco de possibilidades infinitas, em vez de uma prisão de regras. Que partículas desse poder ficariam no ar, mesmo na perspectiva surreal, quase seis décadas depois? Um poder em partículas, que poderia então emergir das profundezas do cidadão e guindá-lo à categoria superior das possibilidades, num vislumbre para além do véu da realidade podre, desenhada pelos atores pífios que conhecemos hoje, particularmente no hemisfério norte.
No universo da física quântica, teoria fundamental desenvolvida na década de 70 do século passado, descrevem-se as partículas elementares da matéria, onde existe um campo que é responsável pela massa dessas partículas. O campo de Higgs é invisível, embora funcione como agregador de todo o espaço, onde as partículas elementares ganham massa ao interagir com este campo e oferecem resistência ao movimento, ou seja, quanto maior a interacção de uma partícula com o campo, maior é a "resistência" ao seu movimento, ganhando mais massa, e onde as partículas que interagem menos têm menos massa. A aparente complexidade do conceito pode ser adaptada ao tecido social, uma espécie de campo de Higgs relacional onde nos movemos. Alguns indivíduos interagem com intensidade com esse campo, sabemos quem são e como se comportam, líderes, comunicadores, "influenciadores", que vão adquirindo “massa social” na sequência das suas interacções. Essa “massa” não é obviamente um atributo intrínseco, mas um fenómeno relacional, constituindo uma arquitetura da legitimidade, conferindo poder em estruturas duradouras, concedido aliás pelo campo social em que se está inserido. O poder, como o bosão de Higgs, é a manifestação desse campo, conferindo “peso” ao discurso do político, à opinião do especialista, à decisão do juiz. Sem a interacção com esse campo de crenças colectivas e legitimidade concedida, o poder seria apenas um potencial, uma partícula sem massa correndo à velocidade da luz, mas incapaz de formar estruturas duradouras. Portanto, o poder é concedido pelo campo social em que se está inserido.
As questões do poder e do direito foram exploradas ao longo dos tempos. Por exemplo, o “direito” que prevalece não é necessariamente o mais justo ou verdadeiro, mas aquele que é sustentado pela partícula de poder mais eficaz naquele contexto. Para o filósofo inglês do século XVII, Thomas Hobbes, o poder, original ou natural e instrumental, não é absoluto por depender do reconhecimento de outrem, mas sim uma “concorrência” entre inúmeras partículas de poder para impor a sua versão do "direito". Já para o escritor e cientista alemão do século XVIII, Johann von Goethe, a origem do direito está na tradição e na herança do poder institucionalizado. O autor de Fausto, diz, pela boca de Mefistófeles, que o direito não é uma questão de justiça inerente, mas sim das regras que o poder conseguiu impor e fazer passar por legítimas ao longo do tempo. Goethe afirma de forma clara que o "direito" é uma construção do poder e não um princípio moral universal. Para Marx e Engels, o poder de classe baseado na economia sempre esteve concentrado e a aparente dispersão na superfície política e mediática esconde uma concentração sem precedentes de poder económico e tecnológico. O que afirmaram e defenderam mantém, ainda hoje, uma coerência notável. Se os pudéssemos consultar, possivelmente nos diriam que a solução não é celebrar a fragmentação do poder em partículas, mas superá-la através da organização consciente da classe trabalhadora para conquistar o poder real e efectivo. É mais, pela lógica das suas teses, que a narrativa do empoderamento individual através da tecnologia, que poderia ser vista como uma nova forma de falsa consciência, onde a pessoa acredita que está conquistando poder, enquanto permanece estruturalmente subordinada ao capital, ou seja, uma perfeita ilusão da emancipação individual.
Sabemos hoje que a matéria visível, estrelas, planetas, todos nós, compõe apenas cinco por cento do universo. O resto é matéria e energia escura, que não emite luz, mas cuja gravidade e pressão regem as leis do universo. Pelo mesmo diapasão se rege a maior parte do poder real. Que é, na maior parte das situações, "obscuro" e reside em acordos não escritos, em inter-relacionamentos de bastidores, em enviesamentos culturais inconscientes, que são a matéria escura que estrutura um sistema onde parece existir uma energia submersa em narrativas hegemónicas, forças expansivas e invisíveis, como o algoritmo de uma rede social ou a corrente subterrânea da opinião pública, que determinam o que é pensável e o que é inquestionável, sem nunca se revelarem completamente.
Restará provavelmente nesta alegoria definir o indivíduo como uma partícula de poder. É o que fazem os novos doutrinadores burgueses, os burocratas que utilizam o poder como castrador de consciências, pretendendo suprimir (e mesmo eliminar) a crítica e o pensamento livre. São os partidários de uma “democracia” que nos diz que a nossa voz, o nosso voto, a nossa participação online podem, em conjunto com outras partículas, gerar um "direito" novo. São os mesmos que incentivam o consumo e o “encarceramento” das pessoas em “centros especiais”, como os comerciais, onde parecemos ser iguais, uma ilusão falsa e enganadora. Hoje, a luta pelo poder já não é apenas controlar um trono ou um reino. É, acima de tudo, controlar uma narrativa, um algoritmo, as normas sociais e a atenção das pessoas. Nesta nova frente de luta, o aforismo de que a força (militar, económica, social ou algorítmica) define a legitimidade permanece terrivelmente verdadeiro, actuando de uma forma infinitamente mais complexa e subtil. O poder em partículas é uma metáfora que não invalida o aforismo. Pelo contrário, amplifica-o e complexifica-o. Os pequenos poderes, pulverizados, distribuídos e atomizados em inúmeras "partículas", representam hoje obstáculos visíveis e influentes na “resistência” às mudanças sociais e devem ser combatidos, em favor dos processos libertadores e revolucionários, para a construção programada e organizada da sociedade sem amos.
*Alfredo Soares-Ferreira, escritor e cronista, é licenciado em Engenharia de Telecomunicações, pós-graduado em Gestão e Estratégia Empresarial e em Administração Educacional. Atualmente aposentado, foi professor do ensino secundário, profissional e superior.