Por Dentro do Chega – A face oculta da extrema-direita em Portugal é uma grande obra. Não apenas pelas suas 752 páginas, mas sobretudo pelo conteúdo. Que vai para além da descrição e do relato pormenorizado de factos muito bem fundamentados e procura dialogar, aqui e ali, com alguns dos principais pensadores atuais e históricos do campo do pensamento crítico e da reflexão sobre a extrema-direita e o fascismo (ex: Theodor Adorno, Zygmunt Bauman, Benito Mussolini, Giuliano da Empoli, Enzo Traverso e Bruno Latour), ajudando a enquadrar algumas das evidências apresentadas e a colocar em perspetiva a leitura que é feita. Este permanente vaivém entre a análise crítica fundada na teoria e os detalhes empíricos de quem andou a palmilhar o terreno durante os últimos seis anos, os pequenos episódios que dão vida ao conjunto, fazem desta obra um verdadeiro exercício de tapeçaria interpretativa do Chega e da sociedade portuguesa contemporânea. Num tempo em que, como canta a Capicua “não há quem não sinta um cheio a anos 30“1, é uma leitura fundamental e regista para memória futura aquilo que não devemos esquecer.
Ao mergulhar bem fundo nos bastidores do Chega, permite-nos levantar o véu sobre aquilo que este partido político pretende ocultar, a sua verdadeira natureza, os protagonistas que o viabilizam, aqueles que permanecem na sombra a financiar a sua atividade e a alimentar aquilo que lhe dá força e vitalidade, isto é, a desinformação e a paranoia, o ressentimento, o preconceito e o ódio. Permite-nos compreender como foi possível termos deixado inscrever-se na sociedade portuguesa um agente patológico que corrói e ataca as fundações de uma democracia em acelerada degenerescência, a nossa, a partir do seu interior, enquanto, dominando com habilidade a narrativa mediática e cavalgando as redes sociais, consegue convencê-la de que é vítima e não carrasco.
Permite-nos levantar o véu sobre aquilo que este partido político pretende ocultar, a sua verdadeira natureza, os protagonistas que o viabilizam…
Logo a abrir, um alerta que devemos ter em conta: é importante que façamos um esforço intelectual e político para distinguir o eleitorado do Chega de quem “manda, dirige ou nele investe pequenas fortunas para defender interesses individuais ou de casta” (p. 20). Depois, explora-se o carácter messiânico do líder do Chega, André Ventura, também conhecido internamente como “Kim Jong-un de Mem Martins” (p. 578). Amadurecido nos debates futebolísticos que abundam na televisão portuguesa, onde terá exercitado o seu “galope de Gish”, isto é, uma estratégia retórica que passa por paralisar qualquer oponente debaixo de um jorro torrencial de argumentos, independentemente da sua validade, tornando impossível qualquer refutação, Ventura arrastou um séquito de fiéis provenientes de diferentes quadrantes, que incluiu, no congresso fundador realizado em Viseu, no final de fevereiro de 2020, “polícias, militares e seguranças adictos da ordem, da disciplina e da autoridade, mas também mulheres e homens “cansados de impunidades e compadrios” (…) [e] outros, já fartos de “parasitas com Mercedes à porta de casa” [que] desejavam simplesmente pôr os ciganos “nos eixos” (p. 40) (…) casais com bebés e crianças, um campeão de hipismo, um coronel da GNR aposentado e celebridades locais como João Tilly2 (p. 43)”.
André Ventura, diz-nos Miguel Carvalho, “intui como poucos os ressabiamentos, as ruminações e os preconceitos populares subterrâneos que borbulhavam pelo país” (p. 41). E prossegue para uma certa genealogia do Chega que abrange atores relativamente conhecidos do grande público, como o Partido Nacional Renovador ou o movimento Hammerskin, e outros mais obscuros como a Associação de Iniciativa Cívica Portugueses Primeiro (P1) ou o Escudo Identitário. Os contornos de toda esta constelação de extrema-direita e das suas fontes doutrinárias nacionalistas e saudosistas de Salazar, com destaque para Jaime Nogueira Pinto3, mas também as referências internacionais como, por exemplo, Viktor Órban, líder do governo húngaro, ou Alexander Dugin, alegado ideólogo e “líder espiritual” de Vladimir Putin, são muito bem delineados, oferecendo-nos um retrato nítido do caldo cultural, relacional e institucional que possibilitou o aparecimento do Chega.
Também Ventura é colocado no divã e o seu trajeto suburbano, banalíssimo, sujeito a escrutínio. A sua história na freguesia de Algueirão-Mem Martins, Sintra, diz-nos Miguel Carvalho, “é a de um rapaz pacato de periferia, de raiz pequeno-burguesa, a quem a família pagava os estudos com dificuldade” (p. 60), filho de um ex-combatente na guerra colonial, que geria uma mercearia, e de uma secretária administrativa, depois doméstica; todos coabitando num lar onde abundavam livros sobre salazarismo e o pós-revolução.
Benfiquista inveterado, ocasional e dissimulado fumador de haxixe, vítima de bullying na escola, acabaria por descobrir Deus aos catorze anos, revelando um perfil obsessivo e fundamentalista habitual em convertidos tardios. Segue-se uma passagem pela Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, onde despontam, por um lado, o seu carácter camaleónico e, por outro, um certo “oportunismo” que talvez possa ser sociologicamente associado ao alpinismo social que caracteriza a pequena burguesia em ascensão4. Seria um dos melhores alunos de sempre da Nova, terminando o curso com 19 valores, seguindo-se, a partir de 2008, uma estada em Cork, onde faz o seu doutoramento e nele cita extensivamente Boaventura de Sousa Santos, figura cimeira da teoria social crítica. De permeio, ensaia uma incursão como romancista publicando A Última Madrugada do Islão, obra que seria objeto da crítica literária do Jovem Conservador de Direita, para quem se tratava de “uma espécie de thriller erótico-político com a qualidade literária de uma ata de condomínio. O ‘50 sombras de Maomé’ que ninguém pediu” (p. 78). De regresso a Portugal, primeiro, torna-se inspetor da Autoridade Tributária, depois, apadrinhado por Jorge Bacelar Gouveia, converte-se em professor na Universidade Autónoma de Lisboa, tendo como assistente o deputado Rodrigo Taxa. Toda esta densa trama e o modo como o Ventura messiânico e camaleónico foi urdindo as suas redes de capital social, nas imediações de vários tipos de poderes (jurídico, económico-empresarial, do “comentariado” futebolístico, mediático, etc.), onde, entre outras, pontificam destacadas figuras da extrema-direita bombista hoje convertidas em ilustres democratas, como José Manuel Júdice ou Diogo Pacheco de Amorim. Daí até ao ato “ciganófobo” falhado de 2017 em Loures, já com Ventura no PSD, à inspiração evangélica e bolsonarista, pouco depois, ou à falsificação de assinaturas que viria a ameaçar o registo do Chega enquanto partido político, foi um saltinho.
Desta fase formadora, aquilo que resulta claro é que as pessoas que no Chega procuraram infundir alguma espessura e consistência ideológica ao projeto político acabaram, quase todas, empurradas ou convidadas a sair. O importante foi promover um projeto de poder pessoal onde sempre imperou a navegação à vista. Impressiona também o modo como o WhatsApp é utilizado como suporte para a reflexão coletiva e o Facebook constitui uma plataforma sem a qual não haveria Chega como, de resto, concede uma das pessoas entrevistadas no livro5. Provavelmente, é o partido político que melhor soube e sabe capitalizar as redes sociais e cavalgar paranoias algorítmicas. Naturalmente, não prescindindo de financiamento mais ou menos expressivo proveniente de diversas personalidades das elites económicas e empresariais portuguesas: Pedro José de Mello, Mafalda Champalimaud e Miguel Sommer Champalimaud, Francisco Van Uden, Salvador Posser de Andrade, Francisco Cruz Martins, Anthony Stilwell, entre outros. E todo este contexto, permitiu seduzir aquilo a que Miguel Carvalho chama “liga de esquecidos”.
O livro explora também as ligações mais ou menos obscuras do Chega com famílias de “privilegiados do antigo império” (p. 343), burgueses poderosos ligados à escravatura, ao colonialismo, à ditadura fascista do Estado Novo e à guerra colonial como, por exemplo, a família de João Maria Bravo, cuja fortuna começa a ganhar forma no negócio do tabaco, ainda no século XIX, no Brasil; de Miguel Félix da Costa, ligado à filial portuguesa da multinacional Castrol, mas também com participações no imobiliário de luxo, hotelaria e turismo; de Paulo Côrte-Real Mirpuri, que liderou a Air Luxor e tem negócios na aviação, imobiliário, florestas, agricultura e saúde; de Jorge Ortigão Costa, presidente da holding alimentar Sogepoc, e muitos outros. Trata-se, naturalmente, da fina flor da fidalguia lusitana. O facto de todos serem reconhecidos por três nomes é, em si mesmo, um marcador de distinção social. Modos de dizer, categorizar e nomear são tudo menos neutros6.
Provavelmente, é o partido político que melhor soube e sabe capitalizar as redes sociais e cavalgar paranoias algorítmicas.
Também a este respeito, impera alguma diversidade: “baronesas, condes, advogados, figuras da alta finança, gestores de fundos imobiliários, empresários de sucesso, membros de movimentos ultracatólicos, salazaristas convictos e descendentes de admiradores do nazismo, o rol de financiadores ocasionais ou habituais do Chega assemelhava-se a uma grande família onde cada um dava o que podia” (p. 350). Daqui resulta que a pátria do Chega é verdadeiramente o vil metal e a noção de que se trata de um partido antissistema não podia estar mais distante da realidade material que o sustenta.
Descreve-se com grande minúcia o tristemente célebre segundo congresso do Chega, realizado em Évora no final de 2020, num capítulo sugestivamente intitulado “Bem-vindos ao lodo”, onde o conspiracionismo à la QAnon7, as ameaças grotescas entre militantes, os golpes palacianos e as lutas intestinas pelo poder tiveram rédea-solta, e onde tudo se podia dizer. Perder-se-iam milhares de militantes e a imagem do Chega passaria a ser a de uma turba ululante. Patrícia Sousa Uva acrescenta: “somos a maior fraude da história da política portuguesa. Fazemos cá dentro tudo o que dissemos que íamos combater” (p. 405). Mais adiante, Carlos Furtado, deputado eleito em 2020 nos Açores, assegura: “O Chega não é conservador, nem de extrema-direita, mas sim de extremo oportunismo” (p. 417).
O modo como o PSD, por intermédio do seu líder de então, Rui Rio, contribuiu para legitimar e normalizar o Chega gerou alguma celeuma junto de destacadas figuras do partido, como Rui Machete, Pacheco Pereira, Jorge Moreira da Silva ou Teresa Leal Coelho, mas, paulatinamente, foi-se impondo, com a anuência de “barões” como Mota Amaral, Manuela Ferreira Leite e Pinto Balsemão. No que toca à sua afirmação na paisagem política portuguesa, o acordo entre PSD e Chega nos Açores, em 2020, acabaria por ter um desfecho favorável. Mais recentemente, a coligação AD liderada por Luís Montenegro, formalizaria acordos parlamentares sobre o IRS, as restrições à imigração e à obtenção da nacionalidade. Das cercas sanitárias ao “não é não”, tudo isso foi borda fora. Afinal de contas, o poder é a alma do negócio e a direita, ao contrário da esquerda, sempre foi mais psicótica do que neurótica.
A implantação autárquica do Chega, primeiro em 2021 e, depois, em 2025, também demonstra que o seu processo de expansão é mais complexo e ziguezagueante do que parece. Miguel Carvalho demonstra, com recurso a evidências muito sólidas, que os quadros são recrutados sem quaisquer critérios mínimos de qualidade ou competência, levando a inúmeras situações caricatas de desistência, abandono, mas também à incorporação nas estruturas do partido de delinquentes e criminosos. Neonazis, extremistas de direita radical, teóricos da conspiração e fervorosos prosélitos de vários credos, inclusive do Opus Dei e da maçonaria, sentem-se atraídos pelo partido. Não surpreende, pois, que uma personalidade como Gabriel Mithá Ribeiro, que parece ter feito um esforço honesto para densificar ideologicamente o partido, acabasse – também com um “empurrãozinho” deste Por Dentro do Chega – por abandoná-lo. Tal como escreveu Isabela Figueiredo, sua colega na Escola Secundária Fernão Mendes Pinto, em Almada, e, tal como Mithá, nascida em Moçambique, “O Gabriel pode não ser solidário, mas é um intelectual, reto, profundamente educado. No Chega ele parecia-me uma célula anómala. Nunca compreendi8“.
Por sua vez, o eleitorado do Chega caracteriza-se por uma excessiva credulidade relativamente a quaisquer conteúdos ou “factos alternativos”, isto é, ausência ou desvalorização de qualquer ceticismo ou pensamento crítico, consumos de informação pobres assentes em tabloides e entretenimento. Tendencialmente, são jovens do sexo masculino, religiosos e rurais ou, diria eu, reféns de mentalidades algo provincianas, com pouco mundo e sem grande espessura ou curiosidade intelectual. Henrique Raposo, escritor católico de direita, citado no livro, põe as coisas em perspetiva afirmando que: “hoje em dia, as pessoas são átomos separados e não têm um sentido de corpo, um sentido de comunidade” (p. 657). Para muitas delas, vítimas da atomização inscrita nos seus corpos e mentes no quadro da hegemonia neoliberal, o Chega tem funcionado como um verdadeiro íman. Gente que por se sentir devastada sente um desejo profundo de destruir os outros.
Miguel Carvalho aborda também a proposta de criação de uma nova central sindical para ombrear com CGTP e UGT, feita por Lucinda Estrela, num congresso em 2021, que seria recebida com enorme acrimónia. Curiosamente, um ano volvido, Ventura anunciaria publicamente a criação do Solidariedade (apelando à memória do sindicato polaco antissoviético liderado por Walesa e financiado pela CIA). Passaram quatro anos e nada. Pura navegação à vista. O que interessa é ocupar tempo de antena e, para o Chega, o vale-tudo não é só uma arte marcial, é uma forma de estar na política. Por isso, não surpreende que atraia oportunistas e alpinistas sociais como, por exemplo, Paulo Ralha que andou pelo PS, passou pelo BE, navegou nas águas do Congresso Democrático das Alternativas, foi dirigente no Sindicato dos Trabalhadores dos Impostos e acabaria candidato à Câmara de Barcelos pelo Chega, em 2025. Como afirmava Riccardo Marchi, citado por Miguel Carvalho, o Chega é “um saco de gatos com gente de todos os lados” (p. 600).
A capacidade de penetração do Chega nas forças de segurança, junto dos profissionais da GNR e da PSP no ativo, mesmo estando estes legalmente impedidos de se filiar em partidos políticos, mostra também quão fértil estava já este terreno. O aspeto mais preocupante retratado por Miguel Carvalho é o facto de, contrariamente à narrativa dominante, as afinidades com o Chega não traduzirem tanto a existência de “maçãs podres” ou casos excecionais, mas sim um quadro sociológico global bastante alinhado com o discurso do partido. Parece existir uma espécie de submundo policial e militar onde a extrema-direita, o racismo, a xenofobia e o ódio, sobretudo a coberto do anonimato das redes sociais, atingem um nível desmedido. A este respeito, aliás, menciona-se um tal Manuel C., agente do Comando Distrital de Évora da PSP que, em 2022, coordenava as concelhias do Chega no Alentejo.
APOIA O MAIO!
Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.
O Alentejo surge, aliás, várias vezes ao longo do livro, ainda que de modo mais desenvolvido quando se descreve o trabalho de campo realizado em Moura. E não é difícil perceber porque é que isto acontece. Hoje, o Alentejo constitui o melhor exemplo daquilo que se tem vindo a designar como “left-behind places9” ou geografias do ressentimento10, isto é, territórios que experienciam vários mecanismos que são percecionados como configurando situações de abandono. Desde o encerramento de serviços públicos, escolas primárias, farmácias, postos dos correios, agências bancárias e até caixas multibanco, passando pela reorganização administrativa que fundiu freguesias e aumentou as distâncias aos centros de poder local, até ao número muito reduzido de deputados eleitos pela região do Alentejo e a grande distância simbólica a Lisboa, que parece desprezar e ignorar a região, mas também o envelhecimento e o despovoamento, os baixos salários, a precariedade ou o empobrecimento, são muitos os motivos para que o desencanto e a falta de perspetivas de futuro se instalem, cresçam o ressentimento e a raiva. A tudo isto acresce a recente dinâmica migratória – marcada pela chegada de imigrantes provenientes de países terceiros, naturalmente, porque os “expats” nunca são um problema –, que, juntamente com as comunidades portuguesas de etnia cigana, constituem aquele “outro11” de que nos fala a teoria pós-colonial, que foi sempre instrumentalizado como bode expiatório.
Isto não significa, contrariamente ao que muitos dizem, que exista uma transferência maciça de votos diretos do PCP para o Chega, por exemplo. Isso é uma simplificação excessiva fruto de uma metodologia deficiente em que se fixa o espaço geográfico de referência – o Alentejo – e se fazem variar os resultados eleitorais, sem considerar as modificações na composição sociodemográfica do eleitorado que resultam da passagem do tempo. Para simplificar, aquilo que provavelmente sucede no Alentejo é a existência de uma modificação intergeracional do padrão de voto, isto é, avós e pais comunistas têm agora filhos e netos que votam Chega. Miguel Carvalho tem o cuidado de nunca cometer este erro de análise, tão comum no “comentariado” nacional, mencionando até um trabalho de investigação que demonstra que, sobretudo nas freguesias rurais do Sul, foi o PS a força política que transferiu mais eleitorado para o Chega12.
Por Dentro do Chega é, pois, uma obra fundamental para compreender a atualidade, perceber como aqui chegámos e começar a ganhar balanço para construir um futuro em que a verdade e a mentira não sejam sinónimos e em que possamos todos parar para pensar, sem sermos levados no fluxo torrencial de desinformação e pós-verdade com que somos diariamente inundados e que o Chega cavalga com mestria. A saturação permanente do espaço digital, o controlo da economia política da atenção, permite manipular as perceções, alimentar vieses cognitivos e, parafraseando Gilles Lipovetsky, criar uma espécie de Era do Vazio13, de que se alimenta o Chega.
Tratando-se de uma obra colossal, por vezes quase colapsa sob o peso imenso das fontes mobilizadas. Consegue aguentar-se porque a abordagem é ágil, simples e direta. São episódios, recortes, narrativas curtas, pequenos contos, que nos transportam para este mundo tão peculiar, sem exaltação de virtude, superioridade moral ou sobranceria. Ainda assim, a inclusão no livro de um esquema ou árvore de ligações articulando os vários protagonistas identificados, um guia visual para a navegação, teria sido vantajoso para o leitor interessado. Quanto mais não seja, para se perceber melhor o modo como o Chega não passa de uma grande família, onde o nepotismo e o tráfico de influências são tão ou mais comuns do que nos partidos que diaboliza.
Percebemos também que o Chega, partido neofascista ou pós-fascista, na terminologia de Enzo Traverso14, não concebe a incoerência programática ou a indefinição ideológica como problemas. Existe intencionalidade na ambiguidade estratégica adotada e no reconhecimento de que tudo deve estar subordinado a uma lógica de ação. Há 100 anos, o pensador marxista peruano José Carlos Mariátegui, num texto intitulado “Mussolini e o fascismo”, escreveu: “O programa do fascismo é confuso, contraditório, heterogéneo: contém conceitos liberais e conceitos sindicalistas. Melhor dito, Mussolini não deu ao fascismo um verdadeiro programa, deu-lhe um plano de ação15“.
O que este Por Dentro do Chega sugere é que Ventura lidera o plano de ação do fascismo para Portugal e o Chega é o seu instrumento. A resposta, afirma Miguel Carvalho, poderá passar por escutar e dialogar com a geografia eleitoral do Chega para a resgatar do extremismo, reconstruir o valor da palavra dada e da promessa cumprida, explorar as infinitas possibilidades do encontro com o “outro”, o estranho, o diferente. É preciso cultivar bondade, generosidade e empatia. Para começo de conversa, não está nada mal.
1 Letra do single “Danúbio” que integra o álbum “Um gelado antes do fim do mundo” (2025).
2 Engenheiro, professor de Matemática, fundador da Juventude Socialista em Seia, posteriormente militante do PSD, incendiário das redes sociais e agora deputado eleito na AR pelo Chega.
3 Ficamos a saber que O fim do Estado Novo e as origens do 25 de Abril (1995) é um dos livros de cabeceira de André Ventura.
4 Processo retratado em obras literárias como Regresso a Reims de Didier Eribon, Os Anos de Annie Ernaux ou Para Acabar de Vez com Eddy Bellegueule de Édouard Louis.
5 Trata-se de Patrícia Sousa Uva, “mandatária nacional da candidatura presidencial de Ventura quando se demitiu” (p. 400).
6 Ver, por exemplo, o dossiê “Outros nomes, histórias cruzadas: os nomes de pessoa em português”, publicado sob direção de João de Pina-Cabral, na revista Etnográfica, n.º 12(1), disponível em: https://journals.openedition.org/etnografica/1583 ou a obra seminal O que Falar Quer Dizer (Bourdieu, 1988).
7 Teoria da conspiração de extrema-direita, surgida em 2017, nos Estados Unidos, segundo a qual existiu uma cabala de esquerda, constituída por adoradores de Satanás, pedófilos e canibais, que dirigiu uma rede global de tráfico sexual de menores, e conspirou contra Donald Trump durante o seu primeiro mandato presidencial. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/QAnon.
8 Artigo publicado no Expresso e disponível em: https://expresso.pt/opiniao/2025-09-25-gabriel-mitha-ribeiro-professor-3b0a2488.
9 Ver Rodríguez-Pose, Terrero-Dávila e Lee (2023) Left-behind versus unequal places: interpersonal inequality, economic decline and the rise of populism in the USA and Europe. Journal of Economic Geography, 23, 951-977.
10 Ver Madeira, Silva e Malheiros (2021) A geografia da direita nacionalista em Portugal: contornos de um processo emergente. Cad. Metrop., São Paulo, 23(51), 469-498.
11 Conceito central para a reflexão pós-colonial, o “outro” é objeto de discussão aprofundada em obras Postcolonialism (Jazeel, 2019) ou Geographies of Postcolonialism: Spaces of Power and Representation (Sharp, 2009).
12 Ver Magalhães e Cancela (2025) Political neglect and support for the radical right: The case of rural Portugal. Political Geography, 116, 103224.
13 Em A Era do Vazio: Ensaios sobre o Individualismo Contemporâneo (2013), Gilles Lipovetsky aborda o processo de individualização das sociedades ocidentais contemporâneas, nas quais o narcisismo e formas quási-niilistas de hedonismo emergem como atributos definidores dos sujeitos.
14 Ver As Novas Faces do Fascismo: Populismo e a Extrema Direita (Traverso, 2024).
15 Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/mariategui/1925/mes/42.htm (acedido a 9 de novembro de 2025).
André Carmo
Geógrafo, professor universitário e sindicalista