Jornal Maio

Ei-los que partem / Novos e velhos / Buscar a sorte / Noutras paragens/ Noutras aragens / Entre outros povos / Ei-los que partem / Velhos e novos.

Estas palavras de Manuel Freire, que falam do destino de tantos portugueses nas décadas e 1960 e 1970 (e de agora), bem podem aplicar-se aos naturais do Bangladesh, da Índia, de Timor, do Nepal que ora labutam nos campos do Alentejo e um pouco por todo o país. 


O que continua por saber-se é quem são os donos dessas herdades e por que é que ainda não foram responsabilizados criminalmente.

 

País que soube na última semana de novembro que uma rede integrando dez militares da GNR e um PSP controlava cerca de 500 imigrantes, na maioria sul-asiáticos, que trabalham em explorações agrícolas do Alentejo. Esses militares ganhavam 400 euros ao fim-de-semana e 200 euros à semana “para agredir e ameaçar imigrantes” (Público, 26 de novembro). O que continua por saber-se é quem são os donos dessas herdades e por que é que ainda não foram responsabilizados criminalmente pelo tráfico de seres humanos e pelos maus-tratos infligidos àqueles que para eles trabalham. Substitua-se “canavial” (de cana-de-açúcar) por olival ou estufas e estas palavras do Padre António Vieira assentam-lhes que nem uma luva:

“[…] É possível que por acrescentar mais uma braça de terra ao canavial, e meia tarefa a mais ao engenho em cada semana haveis de vender a vossa alma ao diabo? Mas a vossa, já que o é, vendei-lha embora. Porém, as dos vossos escravos, por que lhas haveis de vender também, anteposto a sua salvação aos ídolos de ouro, que são os vossos malditos e sempre malogrados interesses?” Padre António Vieira, sermão XXVII, c.03.

PS: E o Padre António Vieira não era “marxista”, nem “marxista-leninista”, senhor almirante, senhores do Chega, da AD e da IL. Nasceu dois séculos ou mais antes deles.