Depois da tempestade
vem o quê?
Depois do “comboio de tempestades” que espalhou destruição no país há uma imensa tarefa de reconstrução pela frente. Porém, houve e há outras questões com efeitos devastadores que têm de ser enfrentadas e resolvidas: anos de privatizações, com grandes empresas privatizadas, como a EDP, comunicações e transportes, a subcontratarem a manutenção das redes a pequenas empresas, ficando com cada vez menos trabalhadores qualificados. Com as barragens a serem geridas por privados, focados na obtenção de lucro, que acontecerá na bacia do Mondego, por exemplo?
Depois do “comboio de tempestades” que espalhou destruição no país há uma imensa tarefa de reconstrução pela frente. Porém, houve e há outras questões com efeitos devastadores que têm de ser enfrentadas e resolvidas: anos de privatizações, com grandes empresas privatizadas, como a EDP, comunicações e transportes, a subcontratarem a manutenção das redes a pequenas empresas, ficando com cada vez menos trabalhadores qualificados. Com as barragens a serem geridas por privados, focados na obtenção de lucro, que acontecerá na bacia do Mondego, por exemplo?
As cheias do Mondego são agora utilizadas para voltar com o projeto da barragem de Girabolhos como solução, mas o problema não é a falta de barragens, mas sim as opções da sua gestão privada, onde a proprietária está interessada em manter o máximo de água possível (para poder produzir energia cara mais tarde quando o preço aumentar) em vez de manter o nível suficientemente baixo para ter volume de encaixe suficiente para responder às cheias.
Houve e há também a evidência de que a Nova Gestão Pública, com o seu SIADAP e os seus tiranetes nas chefias, corroeu o entusiasmo e capacidade de decisão dos trabalhadores sobre decisões como informação e prevenção sobre eventos extremos, ordenamento do território, infraestruturas, fiscalização de construções, emergência e apoio às populações.
Houve e há a dívida pública que remunera a ociosidade dos banqueiros que vivem do juro e é paga com cada vez piores salários na função pública e a pobreza dos trabalhadores e do país.
Houve e regressa o regime de “lay-off simplificado” inventado durante a crise do Covid para “manter os empregos”, que pôs os fundos da segurança social, portanto os nossos salários indiretos, a pagar os salários dos trabalhadores afetados, salvando os patrões, mas nem sequer impedindo o desemprego, com milhares de trabalhadores despedidos depois de as empresas receberem apoios.
Houve e há tudo isto e muito mais. E agora Montenegro parece que tem um plano: expropriar com indemnização a fixar depois, abater árvores sem parecer de especialistas – um tal “PTRR”, que ainda mal se conhece, mas que, tal como o PRR em vigor, implica mais aumento da dívida, pública e privada.
O que não entra no plano é o que era obviamente necessário.
Fora das opções do Governo ficou a requisição imediata das grandes empresas de construção civil — que a troika ajudou com o confisco de salários em 2011 e andam agora muito ocupadas a construir imóveis de luxo para a especulação. Ficou de fora a evidente necessidade de ter as comunicações, energia e transportes públicos sob administração pública e controlo das contas em acesso aberto ao público.
Uma coisa é certa: até mudarmos de rumo económico e voltarmos a ter serviços públicos robustos, ao serviço do bem comum e com trabalhadores bem pagos, cada catástrofe natural deixará o país “abandonado”, como em Pedrógão, no Elevador da Glória, na Kristin.