Jornal Maio

Hoje entro às 7h, amanhã às 21h: como o trabalho por turnos destrói a nossa saúde

O trabalho por turnos causa disrupção do ciclo circadiano, com alterações metabólicas e hormonais, que têm vindo a ser associadas a um aumento do risco de várias doenças.

O trabalho por turnos tem aumentado em todo o mundo nos últimos anos. O recurso a esta forma de organização do trabalho é consequência do aumento da concorrência intensificada pela globalização. O trabalho por turnos tem efeitos negativos sobre a saúde dos trabalhadores, aumentando o seu risco de doença. 

O trabalho por turnos causa disrupção do ciclo circadiano, com alterações metabólicas e hormonais, que têm vindo a ser associadas a um aumento do risco de várias doenças. Por outro lado, o trabalho por turnos favorece estilos de vida pouco saudáveis e afecta de sobremaneira os relacionamentos sociais e familiares. Os turnos têm um forte impacto em todos os aspetos da vida dos trabalhadores, incluindo alterações nos hábitos alimentares, nas actividades físicas, nos tempos de descanso e de recreio e noutros tipos de comportamentos. 

O corpo humano está preparado para a luz diurna e a escuridão nocturna. Contrariar a biologia tem sempre um preço, que neste caso se paga em doença. Aqueles que trabalham por turnos não trabalham nem dormem de acordo com o seu ritmo circadiano endógeno, acabando os seus tempos biológicos e sociais por ficar desalinhados, com efeitos sobre a sua saúde e bem-estar. A ruptura dos ritmos circadianos internos, regulados por estímulos ambientais como são o ciclo dia-noite, associados com a exposição nocturna à luz, implicada na diminuição da secreção de melatonina, parecem ser os mecanismos chave das alterações biológicas.

 

Para além dos efeitos negativos no bem-estar e na saúde dos trabalhadores, há ainda redução da produtividade e eficiência, aumento das taxas de absentismo, e maior probabilidade de se cometerem erros e de ocorrerem acidentes

 

As estatísticas recentes indicam que uma grande parte da população activa tem hoje horários de trabalho irregulares, que incluem o trabalho nocturno e por turnos. Para além dos efeitos negativos no bem-estar e na saúde dos trabalhadores, há ainda uma redução da produtividade e eficiência, um aumento das taxas de absentismo, assim como maior probabilidade de se cometerem erros e de ocorrerem acidentes (o risco de erros, acidentes e lesões aumenta nos turnos nocturnos), especialmente quando a duração dos turnos é superior a oito horas, quando existem turnos sucessivos, sobretudo se estes forem nocturnos e não existirem pausas suficientes.

O sono é um comportamento humano fundamental, desempenhando um papel vital na manutenção do equilíbrio corporal e na promoção da saúde física e mental. As perturbações do sono estão associadas a problemas de saúde e têm impactos sociais negativos. As modificações dos padrões de sono, como acontece nos trabalhadores por turnos, mesmo que por períodos curtos, têm efeitos adversos na saúde nomeadamente nas doenças cardiovasculares e podem mesmo aumentar a mortalidade. 

A má qualidade do sono é um preditor de riscos para a saúde, sendo que a redução do descanso nocturno por períodos prolongados, com a consequente alteração dos ritmos circadianos, altera o funcionamento metabólico para o qual também concorre o stress psicossocial associado aos turnos. Uma maior tendência para ocorrerem alterações neuropsicológicas como perturbações do humor e de ansiedade e influências negativas na capacidade de condução rodoviária tem sido documentada em numerosas investigações.

Os turnos obrigam os trabalhadores a mudarem com frequência os seus horários de sono, o que favorece não só o aparecimento de problemas do sono e da má qualidade do mesmo, como provoca uma inevitável perturbação da sua cronobiologia. O efeito adverso da interrupção repetida do ritmo circadiano, devido aos turnos de trabalho, poderá influenciar a secreção hormonal dos principais eixos hormonais do organismo e da melatonina fundamental na regulação do sono.

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Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.

Além disto a duração do período de sono é sempre um pouco mais curta nos trabalhadores por turnos do que nos trabalhadores diurnos e a adaptação cronobiológica do ciclo sono-vigília é geralmente inadequada. Experimentalmente verificou-se que a restrição do sono tem impacto no funcionamento hormonal. Mesmo após uma exposição prolongada ao trabalho noturno, apenas uma minoria dos trabalhadores (menos de 3%) mostram uma adaptação completa do seu padrão circadiano ao trabalho noturno.

Relativamente às mulheres trabalhadoras, alguns autores colocaram a hipótese de a desregulação dos ritmos circadianos pela exposição noturna à luz poder influenciar a ovulação e implantação do ovo na parede uterina, tal como foi verificado em modelos animais, podendo assim afectar a fertilidade e mesmo a gravidez desde fases muito precoces. Outros autores sugeriram que alguns horários de trabalho, incluindo o trabalho por turnos e o trabalho nocturno, podem apresentar riscos para as mulheres grávidas. Estudos observacionais encontraram um risco acrescido de complicações na gravidez, de parto pré-termo ou de baixo peso ao nascer nos filhos de mulheres expostas ao trabalho por turnos.

Não deixam lugar a dúvidas os muitos estudos epidemiológicos realizados nos últimos anos, que destacam que estilos de vida desalinhados com os ritmos naturais envolvem um risco acrescido de efeitos indesejáveis na saúde e um aumento da incidência de várias doenças. Em comparação com indivíduos que trabalham num horário típico de oito horas, aqueles que trabalham por turnos apresentam maior risco de desenvolver doenças como diabetes mellitus de tipo 2, doenças cardiovasculares, problemas digestivos, distúrbios do sono, depressão, deficiência de vitamina D (devido à redução da exposição à luz solar) e obesidade. Também os seus estilos de vida parecem ser menos saudáveis incluindo uma maior frequência de hábitos sedentários, hábitos tabágicos e consumo de substâncias calmantes, hipnóticas e psicostimulantes como a cafeína. O trabalho por turnos, incluindo o trabalho noturno, tem sido apontado como factor de risco de muitas doenças crónicas, incluindo o cancro.

O trabalho por turnos foi identificado como um importante factor de risco ocupacional devendo os trabalhadores serem alertados para manifestações precoces de doenças. A modificação e racionalização dos horários dos turnos pode ajudar na minimização dos riscos. Horários longos e com tempos mais curtos entre os turnos estão associados a um pior alinhamento circadiano e a um sono mais curto. Maximizar a proporção do tempo de descanso, cumprindo estritamente o horário do início e do fim do turno, garantindo que as equipas começam e terminam no mesmo horário a cada 24 horas, melhoram o sono e a performance. As rotações lentas dos turnos minimizam os problemas do sono.

A Saúde Ocupacional das empresas deverá fazer a avaliação do risco e acompanhar os trabalhadores de uma forma individualizada e apertada de natureza iminentemente preventiva. Uma vez que muitos dos efeitos nefastos do trabalho por turnos na saúde são do tipo dose-resposta, ou seja, maior efeito quanto maior é o tempo de exposição, a melhor forma de os prevenir será reservar este tipo de trabalho apenas para actividades onde ele é imprescindível, mas, mesmo nestes casos, deverá reduzir-se o tempo de exposição dos trabalhadores a este tipo de horários.

 O autor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.

José António Antunes

Médico especialista de Saúde Pública.