Jornal Maio

Caracas na encruzilhada

Um mês depois do sequestro do Presidente venezuelano Nicolás Maduro e da deputada e sua mulher, Cilia Flores, começam a poder discernir-se algumas coordenadas da nova situação no país e para além dele. 

Judicialmente, o que parece restar, em termos de qualquer acusação possível, é a cada vez mais segura ideia de que o único crime cometido nesta situação foi o rapto militar de um dignitário estrangeiro. A intervenção militar norte-americana infringe, como é óbvio, o direito internacional, mas, inclusivamente, não passou pelas tramitações e autorizações parlamentares que poderiam cobrir de alguma legalidade interna a agressão contra outro país. O disfarce da missão militar como uma “operação policial” é evidentemente desmentido por si mesmo, dados os meios utilizados e a sua própria tipologia.

Por seu lado, em tribunal, da acusação caiu toda a oratória em torno do narcotráfico, ao reconhecer-se que não existia qualquer cartel de los Soles, pelo que Nicolás Maduro não poderia pertencer, estar ao serviço, servir-se ou chefiar uma inexistência. Quem minimamente conheça a Venezuela sabia desde o primeiro momento que a conveniente “norieguização” do processo não tinha qualquer sustentação.

Horas depois da agressão, caía também o argumento da exportação, nem que à bomba, da “democracia”, com Trump a esclarecer que “vamos fazer imenso dinheiro com a Venezuela”. O descoroçoamento da internacional propagandística agravou-se ainda com a queda da tese da falsificação eleitoral, quando o próprio Trump afirmou que Corina Machado não dispunha de representatividade ou respeito no país.

A madrugada de 4 de Janeiro

Duas grandes linhas preencheram o desconsolado vazio argumentativo em que Trump deixou em cacos os legitimadores de turno. A primeira era a de um suposto “abandono” do governo de Caracas pela Rússia e pela China. A segunda respeitava a uma suposta “traição” de Maduro pelos seus mais próximos co-dirigentes.

Trata-se de discurso para mostrar à “claque” doméstica como o poder dos EUA era de tal ordem que nem russos nem chineses ousaram defender Maduro. A segunda linha destinava-se a disfarçar como Trump temera que uma invasão se tornasse numa internamente inaceitável ‘vietnamização’ do caso.

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É ainda difícil precisar o sucedido na madrugada de 4 de janeiro. Militarmente, a operação terá tido, segundo fontes militares venezuelanas, um carácter experimental. Novas ferramentas de guerra eletrónica terão sido usadas para empastelar o espetro radioelétrico e de comunicações analógicas e digitais das Forças Armadas Venezuelanas, nomeadamente dos dispositivos sino-russos de deteção por radar e de reação antiaérea. A confirmar-se, trata-se de um ponto adicional de interesse para a intervenção, a investigação bélica.

Exigência da libertação

Quanto à situação política local, emerge de um sem-número de fontes uma quantidade incontrolável de versões. Confirma-se uma recomposição discreta nos quadros dirigentes, tanto militares quanto civis, a que se soma uma política gradual de libertação de detidos por delitos de motivação política. Acresce uma nova legislação relativa à exploração petrolífera que, todavia, não corresponde à propaganda de Washington. A nova lei prevê, pelo contrário, uma partição 70-30 e não a existente 50-50 em favor do Estado venezuelano no investimento empresarial estrangeiro.

 

Por saber fica, por ora, para onde e até onde a actual reconfiguração do processo político venezuelano pode dirigir-se, nesta sua terceira fase, depois de Chávez e de Maduro.

 

O poder chavista lança, entretanto, à escala mundial uma campanha pela imediata libertação de Nicolás Maduro e Cília Flores, que reclamaram em tribunal a condição de “prisioneiros de guerra”. A esta reivindicação juntam-se China, Rússia, os governos latino-americanos não controlados por Washington e uma extensa corrente progressista por todo o planeta.

Por saber fica, por ora, para onde e até onde a actual reconfiguração do processo político venezuelano pode dirigir-se, nesta sua terceira fase, depois de Chávez e de Maduro. O que se sabe de ciência certa é que com ela se atualiza o título de uma velha obra dos anos 1970 intitulada A inquietante América Latina. Um problema, mais um, recolocado à frágil consciência do mundo.

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Rui Pereira

Rui Pereira

Professor universitário de jornalismo