Jornal Maio

“Dar o Couro”, teatro sobre a comédia e a tragédia do trabalho

Raquel Varela entrevista Patrício Nusshold, psicólogo, dramaturgo e ator de “Dar o Couro / D’arrache corps”, peça que vai estar em palco em Lisboa e Porto. Esta é a primeira peça de teatro em que o Maio se envolve em parceria, através de um sonho dos seus associados, a criação de uma Escola de Trabalho e Cultura para todos, a Escola Internacionalista José Fontana. 

Entrevista de Raquel Varela

“Dar o Couro”

Contratado para uma fábrica de salsichas, Pietr Mazowiecki insere-se 

no mundo saboroso e desencantado de uma fábrica em plena transição para ser adquirida pela multinacional Wanderwurst. Surge então uma alegoria do trabalho mordaz e excessiva, a história de trabalhadores que avançam sem saber se estão a empenhar-se de mais ou de menos no trabalho. Com momentos de humor e outros de sarcasmo, esta peça leva-nos ao mundo do trabalho contemporâneo. 

 

Raquel Varela: Esta peça é uma comédia negra sobre o trabalho, podemos descrevê-la assim? 

Patrício Nusshold: “D’arrache corps” é uma peça de teatro escrita com artistas de circo e um músico e cineasta que conta a história de Pietr, um homem um pouco perdido na vida que começa a trabalhar numa fábrica de salsichas. É uma das últimas fábricas que restam na sua cidade e acaba de ser comprada pelo grupo Wanderwurst. É verdade que a peça tem passagens cómicas e um tom um pouco macabro que permeia toda a obra. Mas às vezes duvidamos se se trata realmente de uma comédia. A nossa intenção original era rir do ridículo e do grave na evolução do mundo do trabalho contemporâneo. Com o tempo, penso que se trata de uma tragédia. Mas são possíveis leituras diferentes. Há muitas imagens ao longo da peça, quase como quadros, ou como imagens oníricas, e acho que isso abre múltiplas interpretações.

 

RV: Quando falas em trabalho no mundo contemporâneo, a que te referes?

PN: Vários fatores contribuíram para o aumento das doenças mentais relacionadas com o trabalho nas últimas décadas, e podemos identificá-los de uma forma ou de outra na obra. As chamadas novas organizações de trabalho desenvolvem métodos de gestão que colocam em competição aqueles que deveriam estar a cooperar. Trata-se de métodos que os gestores de empresas, hospitais ou fábricas de salsichas aprendem durante a sua formação universitária ou em escolas de negócios. Entre esses métodos, podemos identificar, por exemplo, as entrevistas individuais e quantitativas de avaliação de desempenho ou as tarefas de reporte. Esses métodos de gestão, somados à flexibilização das condições de contratação, contribuem para a aceleração acentuada do ritmo de trabalho. No final, o que acaba por acontecer é que a negação do trabalho real faz que a qualidade do que é produzido se degrade, o que faz sofrer particularmente aqueles que amam o seu trabalho e querem fazer as coisas bem. Quem tenta falar do trabalho real ou dos problemas ligados ao trabalho real é mal visto e muitas vezes encontra-se isolado. A psicodinâmica do trabalho, uma disciplina desenvolvida em França a partir dos trabalhos de Christophe Dejours, descreveu detalhadamente estas evoluções.

 

RV: Porque resolveste fazer psicologia e dramaturgia? 

PN: Sou psicólogo, professor e investigador em psicologia clínica e psicopatologia psicanalítica, além de dramaturgo. A minha especialidade é a psicodinâmica do trabalho, uma disciplina que se interessa pela relação entre trabalho, saúde e doença mental. A psicodinâmica do trabalho, inspirada na ergonomia, descreve a forma como os trabalhadores se empenham para colmatar a lacuna entre o trabalho prescrito e o trabalho real. Os ergonomistas demonstraram, desde os anos 80, que quando trabalhamos não respeitamos à risca os procedimentos. Ou seja, uma coisa é a tarefa e outra é a atividade. Se uma equipa de trabalho consegue produzir o que lhe é pedido, é porque se compromete a encontrar soluções permanentes para os obstáculos que surgem diariamente. Na psicodinâmica do trabalho, chamamos a esses obstáculos “o real”, e eles não podem ser previstos com antecedência. O que nos interessa é como os trabalhadores contornam esses obstáculos e quais são as consequências positivas e negativas para a sua saúde. Quando estava a fazer o meu doutoramento em co-orientação entre a Universidade de Buenos Aires e o Conservatório Nacional de Artes e Ofícios em França, tinha muita dificuldade em descrever com palavras o que ouvia e via no mundo do trabalho. Porque o compromisso subjetivo de quem trabalha é, acima de tudo, um compromisso corporal. Além disso, a maioria dos processos subjetivos não são visíveis e não são conscientes. Quando trabalhamos, não sabemos conscientemente tudo o que fazemos para realizar o que fazemos. Durante esses anos, eu morava em Buenos Aires, onde o teatro e a psicanálise são centrais na nossa identidade. Parecia-me evidente naquela época que uma peça de teatro era a melhor maneira de contar, ou melhor, de mostrar, de encenar, algo do que estava em jogo. Ao mudar-me para França, conheci Gabriel Agosti, Nico Froment, André Rosenfeld Sznelwar, todos artistas profissionais, sensíveis, brilhantes e interessados por este enigma do trabalho, e com eles lançámo-nos nesta aventura. Romain Delavoipière substituiu André no ano passado e deu o seu cunho fresco que renovou, de certa forma, “d’arrache corps”. A dimensão onírica, quase de pesadelo, da obra surgiu durante a criação. Talvez a influência psicanalítica passe por aí

Tradução de Octávio Lima

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Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.

Sonhar ou zelar? Essa é a questão

Os personagens desta história onírica vivem dentro de nós. São o que somos de melhor e pior, o que somos de mais nobre e covarde, o que sonhamos ser nas nossas horas de luz ou o que tememos ser nas nossas noites obscuras e sombrias, sob o risco de não mais nos reconhecermos.

O mundo do trabalho – e a história de “D’arrache corps” – pode ser pensado à luz do nosso foro íntimo ou dos nossos laços sociais através do trabalho. Os diferentes atores podem ser personagens de tensões dentro de uma fábrica de salsichas ou instâncias em perpétuo conflito sob a lupa das dinâmicas intrapsíquicas.

Se Sigmund Freud falava de trabalho, era sobretudo em referência a Traumdeutung, o trabalho dos sonhos. Aqui, é o sonho profissional de Pietr que está em questão. Um sonho de vida. Os atores encarnam os diferentes “eus” de um mesmo trabalhador dentro de seu aparelho psíquico, ou simples personagens de uma história banal, em primeiro grau, clichés do mundo contemporâneo.

Representações de “Dar o Couro”:

25 e 26 de fevereiro de 2026 às 18h30

Anfiteatro Universidade do Porto.R. Alfredo Allen, 4200-135 Porto

Reservas: https://forms.office.com/e/yLe2weYf2i

Apoios: Universidade de Porto e Revue Laboreal.

2 de março de 2026. 19h00. 

Recreios Desportivos da Trafaria – Casino.

Rua Guedes Coelho, 7 2825-854 Trafaria

Reservas: rdt.casino@gmail.com, +351 930 577 301

Apoios: Recreios Desportivos da Trafaria, jornal Maio, Observatório para as Condições de Vida e Trabalho.

5 de março de 2026. 21h00 
6 de março de 2026. 16h00 

Teatro Avenidas – Um teatro em cada bairro.

R. Alberto de Sousa 10A, 1600-201 Lisboa.

Reservas: umteatroemcadabairro.avenidas@cm-lisboa.pt, Tel: 218 172 400

Apoios: Câmara Municipal de Lisboa, Direção Municipal de Cultura; ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa.

Desconto para os associados do Maio na apresentação dos Recreios Desportivo da Trafaria, dia 2 de março. Os associados e apoiantes do Maio, para terem desconto, devem escrever para geral@jornalmaio.org.

Raquel Varela

Raquel Varela

Historiadora, professora
universitária

Patrício Nusshold

Patrício Nusshold

Psicólogo, dramaturgo e ator