Uma Igreja Católica de uns contra os outros
Uma comissão da Igreja Católica sobre a não abertura à ordenação de mulheres diaconisas suscitou irritação e desilusão entre muitos católicos e respetivas organizações, que não se reveem nas suas recomendações contrárias a uma maior igualdade entre homens e mulheres no seio da igreja.
Padre José Luís Rodrigues
Padre da Diocese do Funchal
As piedosas conclusões da segunda comissão presidida pelo arcebispo emérito de Áquila, cardeal Giuseppe Petrocchi, sobre a não abertura à ordenação de mulheres diaconisas, no mínimo, suscitam irritação e desilusão. Várias entidades mundiais já expressam tal estupefação. Por exemplo, os leigos do Caminho Sinodal Alemão, o movimento Nós Somos Igreja e o Comité Central dos Católicos Alemães (ZdK) pela voz da Irmã Stetter-Karp.
Esta nada inclusiva comissão foi formada a pedido do papa Francisco, com a incumbência de examinar a possibilidade de proceder à ordenação de mulheres diaconisas. Os seus trabalhos foram concluídos em fevereiro passado. O relatório de sete páginas que o cardeal enviou a Leão XIV em 18 de setembro último foi agora tornado público, a pedido do papa.
O relatório relembrou que há argumentos favoráveis à integração das mulheres no sacramento da Ordem, porque enfatiza a injustiça da exclusão da igualdade de género e porque deve ser assumido sem medo o acesso igualitário às funções institucionais.
No entanto, prevaleceram mais uma vez os argumentos contrários, que defendem que a masculinidade de Cristo e dos ordenados é parte essencial da identidade sacramental. Alterá-la “romperia o significado nupcial da salvação” (frase ininteligível, leva-me a considerar que faz parte do discurso redondo que volta e meia domina uma certa hierarquia da Igreja Católica, convencida de que diz muito para que ninguém perceba nada).
O patriarcalismo anacrónico (para não dizer misoginia obsessivamente doentia) de muitos que compõe a hierarquia da Igreja Católica de alto a baixo, não quer, repudia, vomita, esquece que a vontade de Deus e o vento que sopra os tempos irá varrer essa teimosia e limpar todas as tolices que inventam para justificar o injustificável.
Dizem, Jesus só escolheu homens para constituir o “seu grupo” de apóstolos. E, perversamente, selecionam a dedo, enfatizando as “desgraças” das igrejas protestantes que conferem o sacramento da Ordem a mulheres nos seus três graus: diaconado, presbiterado e episcopado.
Os argumentos contra valorizam o arcaico e menosprezam o Evangelho, a prática inclusiva de Jesus e diabolizam o pulsar dos tempos, como se isso não fizesse parte da ação contínua de Deus na história.
É inegável que os argumentos contra, sobrevalorizados por quem tem o dever de decidir, justificam apenas anacronismos, o contínuo desprezo pelas mulheres, as suas capacidades e a sua criatividade. Há uma certa hierarquia da Igreja Católica que prefere a desumanidade ao normal funcionamento humano que em todos os seus domínios deve incluir a igualdade entre mulheres e homens. Neste âmbito, a Igreja Católica teria um forte testemunho pedagógico a dar ao mundo que em alguns aspetos, nesta matéria da paridade, ainda não avançou quanto devia.
É mais uma vez lamentável que a Igreja Católica e a sua hierarquia recusem contribuir para reaver a sua credibilidade e bom nome face ao mundo, fortemente abalados por causa do rol tenebroso de abusos sexuais levados a cabo por membros do clero que vieram a lume nos últimos anos.
Não só estamos perante uma oportunidade perdida, mas também perante uma injustiça contra a dimensão feminina da humanidade.
Por isso, não só estamos perante uma oportunidade perdida, mas também perante uma injustiça contra a dimensão feminina da humanidade, o grupo maioritário de membros que compõem os fiéis da Igreja Católica. Não é a primeira vez que se mete os pés à parede contra este assunto.
O papa João Paulo II “encerrou” o assunto da ordenação das mulheres (cf. carta apostólica Ordinatio Sacerdotalis, de 22 de maio de 1994), pensou-se que ficaria arrumado definitivamente, mas não foi assim, e ainda bem.
O papa Francisco, essa lufada de ar fresco que sacudiu a naftalina dos corredores do Vaticano, foi diversas vezes confrontado com o assunto e disse o seguinte no voo de regresso da sua visita pastoral a Cuba e aos Estados Unidos em 2015: “Não é porque não tenham capacidade. Na Igreja, as mulheres são mais importantes do que os homens porque a Igreja é feminina; é ‘a Igreja’ não ‘o Igreja’”.
Na altura colocou em sentido os mais acérrimos defensores da não ordenação das mulheres. Foi um sinal, embora ainda ténue, e vieram outros momentos onde prevaleceu sempre uma nebulosa de equívocos e ambiguidades inconsequentes. Mesmo que se tenha notado uma clara opção para dar cargos de relevância nos organismos do Vaticano às mulheres. O papa Francisco iniciou um caminho que desta feita parece sofrer um revés.
Francisco entendia que as grandes transformações e revoluções na Igreja Católica fazem-se com pequenos passos, mas determinados. Lamenta-se, que aqueles que diziam seguir-lhe os passos estejam neste momento a tentar tapar os raios do sol e a parar a brisa transformadora do Espírito da História.
Apesar de tudo, importa relevar mais uma vez que hoje não se consegue encerrar debates. O que pareceu ter sido encerrado com a posição do papa João Paulo II, na prática, nunca esteve encerrado e voltará sempre seguramente, porque está colado ao tempo e ao modo do devir histórico.
Os argumentos para excluir as mulheres do sacramento da Ordem não são teológicos, mas assentam na interpretação de que Jesus Cristo e a tradição escolheram apenas homens para fundar e governar as igrejas. Este critério é falacioso e injusto. Não é correto conotar Jesus com esta argumentação, dado que Ele se revelou uma pessoa despida de preconceitos culturais e religiosos. O choque afrontoso de Jesus contra as entidades preconceituosas e fixadas em costumes desumanos são claras nos Evangelhos.
A recusa de que as mulheres tenham um papel mais interventivo na condução (exercício dos vários poderes) da Igreja Católica é profundamente arcaica, não assume a igualdade de género e viola a prática universal dos direitos humanos.
Apesar do contexto histórico que se vivia na altura de Jesus, onde a sociedade era densamente patriarcal, a história da Bíblia, a evolução da hermenêutica dos textos bíblicos, as investigações históricas estão a considerar que Jesus tinha mulheres no grupo dos apóstolos e os textos apócrifos revelam como Maria Madalena tinha um papel proeminente junto de Jesus e que provavelmente a primeira pessoa a ver Jesus ressuscitado tenha sido esta mulher, por isso, é considerada a apóstola dos apóstolos.
Os Evangelhos contradizem a ideia de que com Jesus só estavam homens, e apenas doze. Ao doze é preciso não descurar a ideia simbólica que se reveste da totalidade que ele representa. Junto com estes doze existia um grupo grande de discípulas, mulheres que seguiam Jesus (Lucas 8, 1-3).
Estas mulheres ousaram assumir o seguimento de Jesus num ambiente particularmente difícil para elas. A significativa representação feminina junto da cruz é reveladora da sua fidelidade e dedicação a Jesus e à sua missão. São elas as primeiras testemunhas da ressurreição e é a elas que fica destinada ab initio a missão de comunicar o sucedido aos apóstolos. São Paulo, nas suas cartas, refere que são várias as mulheres que são líderes das comunidades por ele fundadas.
Este debate sobre o papel da mulher na Igreja não termina, é impossível que não reincida a todo o momento; os ventos do tempo e do modo não são contrários à sua acutilância e impõem a urgente reposição da verdade dos valores humanos na Igreja Católica para ambos os géneros.
É reconhecível a delicadeza do tema, mas nada pode travar a reflexão. Se noutros tempos as comunidades cristãs pareciam não estar disponíveis para acolher mulheres na condução dos seus diversos serviços, hoje já nos vai parecendo que as comunidades estão disponíveis para acolher as mulheres nos diversos serviços religiosos.
Dado que estamos ainda nestes avanços e recuos, esperemos que o génio feminino no âmbito religioso nunca se apague e contribua para a mudança ou revolução de que precisamos para a reposição da justiça quanto à prática da igualdade dos sacramentos.
Não basta reconhecer que as mulheres são peritas no amor e no serviço, sendo depois remetidas ao silêncio, ao asseio e à colocação de flores nos altares das igrejas. É preciso não ter medo da mudança. Ver e escutar o que faria e diria Jesus às mulheres se tudo começasse nos tempos em que nós vivemos, onde a mulher ganhou emancipação e é chamada a participar em pé de igualdade com os homens na construção da família e na organização da sociedade.
A prevalência do arcaico sobre o evangélico tem de ter fim de uma vez por todas. Porque é triste ainda prevalecer a imagem de uma hierarquia da Igreja Católica misógina, a caminho do abismo da irrelevância.