Quando o país vai bem, e o povo, mal, The Economist condecora Portugal
Enquanto o país do trabalho entrava em greve geral, The Economist anunciava ter elegido a economia portuguesa a “melhor da OCDE”. Isto porque, em 2025, Portugal teria combinado um forte crescimento do PIB, inflação baixa e uma “bolsa esfuziante”.
Adriano Zilhão
Economista e Militante
Enquanto o país do trabalho entrava em greve geral ou, não podendo, aplaudia quem a fazia, o primeiro-ministro Montenegro e o seu inexpressivo ministro da propaganda Amaro encontraram um bom motivo para se ufanarem.
Entre o país parar e Montenegro e a sua ministra do Trabalho fugirem das câmaras como o diabo da cruz, saíra uma prenda inesperada na rifa do governo.
A revista The Economist anunciava a eleição da economia portuguesa como a “melhor da OCDE” em 2025.
The Economist é uma velha revista económica e política anglo-saxónica. Há mais de 150 anos que alimenta o diálogo interno das elites do capital financeiro mundial, longe das interferências do “grande público”. Não cultiva, do capitalismo, a propaganda vulgar das penas compradas, mas uma propaganda mais culta e refinada.
E ninguém parece ter ido ver as razões que exactamente fundamentaram a atribuição do galhardete, os critérios das “notas” de The Economist.
Ei-los aqui: “Em 2025 [Portugal] combinou um forte crescimento do PIB, inflação baixa e uma bolsa esfuziante.”
Crescimento do PIB: porque “o turismo esteve em grande, e grande número de estrangeiros ricos estão a instalar-se no país para aproveitar os impostos baixos”.
“Bolsa esfuziante”: porque lucros e dividendos subiram em flecha, não se conhece outra forma de a bolsa “esfuziar”.
“Inflação moderada” porque… The Economist tem o cuidado de retirar dos índices de inflação convencionais os preços dos produtos alimentares e dos combustíveis: são “voláteis” — pesarão, talvez, na bolsa de quem trabalha; mas, para milionários, são amendoins!
O turismo esteve em grande, e grande número de estrangeiros ricos estão a instalar-se no país para aproveitar os impostos baixos.
Tudo isto, no mesmo momento em que a classe trabalhadora da “melhor economia da OCDE” entrava, pela primeira vez em mais de uma década, em greve geral unida, exasperada pela degradação dos salários, dos horários e ritmos de trabalho, da habitação, do SNS e dos serviços públicos e levada ao rubro pelo projecto de devolver as relações de trabalho ao nível da Idade Média.
É impossível não recordar 2012 e a troika.
Era primeiro-ministro Passos Coelho, de triste memória; era chefe do grupo parlamentar do PSD um Luís Montenegro ainda não spinum-renascido. O ministro das Finanças de então, Vítor Gaspar, saiu-se com uma sentença involuntária e inesquecivelmente brilhante: “O país está melhor, mas as pessoas estão pior.”
Os méritos de Gaspar no engrandecimento do país pelo empobrecimento dos seus habitantes foram inegáveis — e de tal modo ofuscaram os píncaros da finança mundial, na “pessoa” do FMI, que este em breve lhe proporcionou um cargo de direcção na augusta instituição. O tirocínio ministerial concluíra-se, com efeito, pouco antes, tendo-se o dito ministro, segundo lenda talvez urbana, demitido depois de ser alvo dos escarros dos seus concidadãos num supermercado de Lisboa (não se sabendo se terá dito “chateia-me que me cuspam em cima”).
O certo, porém, é que o gaspariano lema fez carreira. Tornou-se política oficial de todos os governos que lhe sucederam: uns, de mais delicada geringonça, outros de mais bruta matraca — como o actual, chefiado pelo poldro do multimilionário Violas dos casinos.
Regressemos, pois, à distinção dada pela revista da alta finança. Atentando nos critérios em que ela se baseou, vê-se que Montenegro teve a merecida homenagem por tornar, de facto, o “país cada vez melhor”, pondo “as pessoas cada vez pior”.
Mas “pessoas” é nome algo genérico. Abram-se honrosíssimas excepções para os proprietários dos novíssimos Porsches, Ferraris e outras altas cilindradas que sulcam as auto-estradas da melhor economia da OCDE.
Tal é a comenda e a sina de Montenegro: sim, põe o povo cada vez pior; mas que grande vida dá aos “estrangeiros ricos” que vivem dos impostos dos portugueses e imigrantes pobres, e para os portugueses ricos que vivem de manter o sistema que esmifra estes e beneficia aqueles!
Para The Economist como para Montenegro, “país” são os portugueses ricos e os novos estrangeiros ricos.
Para mal deles, as “pessoas”, os trabalhadores, portugueses e imigrantes, que estão cada vez pior, não estão dispostos a aguentar muito mais.
*O autor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.