Passaram esta semana cinquenta anos do golpe de 25 de Novembro de 1975, marco importante na história da revolução e da contra-revolução em Portugal.
O governo e a assembleia de maioria de direita e neofascista decidiu marcar o evento com uma parada militar e uma cerimónia na Assembleia da República “idêntica” à do 25 de Abril (mas com rosas brancas em vez de cravos vermelhos).
O deputado do PS Marcos Perestrello declarou do púlpito que, em 25 de Novembro de 1975, “os mencheviques venceram os bolcheviques”.
Evocava Perestrello um certo diálogo entre Mário Soares e o todo-poderoso ministro americano Kissinger no verão de 1975. Nesse diálogo, Kissinger “acusou” Soares de ser o Kerensky português, isto é, o homem (aliás não menchevique, mas do partido dos “socialistas revolucionários”), que chefiou o governo provisório russo que a revolução dos operários, camponeses e soldados, encabeçada pelos bolcheviques, derrubou em Outubro de 1917. Soares respondeu a Kissinger que não fazia tenções de ser o Kerensky português. E Kissinger respondeu a Soares que também Kerensky não fazia tenções de ser o Kerensky russo.
Nem Perestrello saberá como a sua escolha não foi casual. Ele comparou uma grande revolução operária e socialista com outra grande revolução operária e socialista. Uma vitoriosa, pelo menos inicialmente; a outra, derrotada, pelo menos para já.
Quem os “mencheviques” venceram foram, de facto, os soldados e marinheiros que se vinham organizando em comissões e assembleias e, com os trabalhadores e moradores e as suas comissões, iam tomando os destinos do país nas próprias mãos. Enquanto o grande capital fugia para a Madrid de Franco e a Copacabana da ditadura militar.
“Para já” é a parte importante.
A frase de Perestrello tem uma parte de verdade; tem, também, uma boa parte de mentira.
Ganharam os mencheviques em 1975? Ganharam — mas os mencheviques nunca “ganham” realmente; quando vencem, apenas abrem caminho aos Montenegros e aos Venturas.
Porém, os mencheviques não venceram os bolcheviques. Poucos bolcheviques havia; quando muito, em algumas organizações revolucionárias, que não ganharam a maioria no movimento operário.
A verdade é outra. Os “mencheviques de direita” de Mário Soares, coligados com a chefia do que restava do “exército do czar” (o Grupo dos Nove e a grande maioria da hierarquia militar) e com os embaixadores das grandes potências, sobretudo EUA e Alemanha (com os golpistas de “Kornilov” na sombra), venceram — porque tinham do seu lado os “mencheviques de esquerda”, chefiados por Álvaro Cunhal.
A direcção do PCP nunca fez tenções de pôr em causa a ordem do pós-guerra, a divisão de “esferas de influência” feita em Ialta e Potsdam entre Stalin e os potentados capitalistas vencedores da IIª Guerra — e reiterada em Helsínquia — que punha Portugal firmemente na esfera da NATO. Boa parte da base do PCP (e, de resto, do PS) tinha outras ideias.
Quem os “mencheviques” venceram foram, de facto, os soldados e marinheiros que se vinham organizando em comissões e assembleias e, com os trabalhadores e moradores e as suas comissões, iam tomando os destinos do país nas próprias mãos. Enquanto o grande capital fugia para a Madrid de Franco e a Copacabana da ditadura militar.
Os actores principais ainda vivos do golpe de Novembro, Eanes e Vasco Lourenço, repetem à saciedade: o golpe só visava repor a ordem nas forças armadas. Esta “ordem” estava em grave risco ante a auto-organização dos soldados, que convergia com a organização dos trabalhadores nas fábricas e nos bancos, nos campos do Alentejo e do Ribatejo, dos estudantes e professores nas escolas, dos enfermeiros, médicos e outro pessoal nos hospitais, dos moradores nos bairros. Formava-se o embrião de um novo poder.
Esmagado o Estado fascista de Salazar e Caetano pelo movimento popular e operário nas semanas que se seguiram ao 25 de Abril de 1974, o golpe de Novembro visou, assim, salvar o novo Estado do capital, que se reerguia a muito custo.
Tudo convergia num ponto: a hierarquia militar tinha de recuperar poder pleno sobre as armas. Sem isso, a salvação do capital ficava, literalmente, sem armas.
Se hoje as comemorações do 25 de Novembro se vêem exaltadas, não é pelo que se passou há cinquenta anos. É porque a burguesia portuguesa ainda crê precisar do seu general Kornilov e até, por Ventura, do seu Hitler, para esmagar as massas trabalhadoras. Aí está o pacote laboral, para começar.
Tal foi o 25 de Novembro de 1975, pouco importando a polémica sobre a “saída dos páras” e o alegado “golpe de esquerda”. Como declarou em notável entrevista à TSF, em 2024, o falecido Carlos Matos Gomes, militar de Abril e homem arguto e bem informado, essa é “a chamada justificação para os pobres de espírito e crentes”.
Se hoje as comemorações do 25 de Novembro se vêem exaltadas, não é pelo que se passou há cinquenta anos. É porque a burguesia portuguesa ainda crê precisar do seu general Kornilov e até, por Ventura, do seu Hitler, para esmagar as massas trabalhadoras.
Aí está o pacote laboral, para começar.