Portugal a três tempos:
a ideologia urbana e a resistência rural
Numa mentalidade nacional onde o ser rural ainda é pacóvio e o urbano é cosmopolita, veremos ainda o coletivo rural a levantar-se do chão, revoltando-se contra a opressão que o quer curvar?
Duarte Figueiredo
Mestrando em Economia Internacional
e Estudos Europeus pelo ISEG
Na banalidade do dia a dia somos algumas vezes confrontados com o discurso existencial da dualidade de realidades em Portugal, o mundo urbano e o mundo rural. Se de um lado é mera perceção politizada, para o outro é a realidade material do quotidiano e não é apenas atual, tem raízes históricas, criando moldes sobre como interpretamos as vivências diferenciadas entre a mente urbana e o coletivo rural moderno.
Se houve movimento cultural que dissecasse essa dualidade foi o neorrealismo português, nomeadamente, a sua expressão literária com autores de renome da intelectualidade popular portuguesa como o antropológico Alves Redol, o incisivo e crítico Saramago, o deambulante Fernando Namora ou o fugaz, mas eterno, Soeiro Pereira Gomes.
Numa leitura de Levantado do Chão, de Saramago, encontramos a narrativa romanesca dos tempos da opressão salazarista onde o rural é confrontado com a miséria da política urbana e centralista de um governo desfasado da realidade material dos trabalhadores rurais, muitos deles ambulantes da lavoura, malteses não por vocação, mas por sujeição à dureza da vida. O brilhantismo desta obra está no contar da história, esta de linguagem mundana, adequada aos tempos e à pessoa comum, que coletiviza o sofrimento diário de quem se castiga pela sobrevivência em contradição com as instâncias que criam este ambiente de aceitação e exploração, como a Igreja ou os agentes policiais ao serviço daqueles urbanos materialmente superiores, moralmente inferiores.
Este retrato duro, no seu sentido mais lato, é uma descrição fiel daquilo que foi, durante décadas, o Portugal a dois tempos. É daqui que partimos até à atualidade, uma vivência diferente, em virtude da passagem do tempo, mas herdeira da lógica antiga. O Portugal atual é um Portugal a três tempos, um confronto entre uma lembrança histórica e o progresso desalmado e frio.
O primeiro tempo é aquele centralismo focado no urbano, desprovido das certezas que o interior enfrenta. A sua análise governativa é feita em laboratório, calculam-se as variáveis, gerem-se as incertezas e planeia-se o lucro. É certo que é o motor do progresso, mas a questão que se coloca é: progresso para quem? Afinal, o progresso técnico, à luz da crítica gramsciana, serve realmente à população local? Ou é mera formatação urbana à realidade rural? Não será mera coincidência. Fabrica-se consentimento na ausência de força de contestação para se cimentar a hegemonia de que em Lisboa se cria o futuro, seja este para o coletivo nacional ou apenas para os sujeitos litorais.
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Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.
Mas se a desruralização é intencional, o progresso urbano é faseado e entra em embate com o sujeito que pretende, paradoxalmente, extirpar e explorar: o sujeito rural. Entra assim o paradigma que é o segundo tempo, um híbrido semiperiférico que existe numa dialética eterna. Isto é, numa contradição entre a pressão moderna de se urbanizar – em torno de um progresso técnico que é desvirtuado da necessidade local – e a resistência da etnografia rural que vive na simplicidade da sua realidade material.
É também síndrome do modelo de desenvolvimento urbano que expulsa para estas zonas semiperiféricas os trabalhadores citadinos que fogem à crescente pressão dos altos custos de vida, fruto da gentrificação importada. Reduz-se assim a expressão destas zonas como meros “dormitórios” dos grandes centros urbanos.
Mas a questão não é romantizar nem enaltecer uma vida frugal e arcaica num meio rural, elevando o espírito ao contacto natural, como diria Agostinho da Silva. A intenção é, sim, alertar que este encontro entre o planeamento central e o território é desfasado da realidade material e cultural do local, afinal, e questionando novamente, a quem serve afinal este modelo de progresso industrial?
Por fim, entra a tragédia do esquecimento, o território periférico, rústico por intenção e propositadamente silencioso. Entra, assim, o Portugal a terceiro tempo, uma periferia que outrora albergava uma riqueza de tradição humana que foi esvaziada com o trajeto do tempo, fosse pelo êxodo rural ou pela massiva emigração. E mantém-se neste estado situacional, onde o Governo central falha em ir ao encontro, mas onde o capital chega para a extração, seja pela monocultura que esgota os solos e água, seja pelo eucaliptal intensivo que nos recorda anualmente que ali existe população que sofre as amarguras dos efeitos de um território desprovido de governação ajustada à vontade local.
Em terra de poucos ou nenhuns, a exploração é santa, o lucro é sigiloso e a demografia é silenciosa.
O seu estatuto de resistente rural não é por conservadorismo cultural, mas por negligência estatal, ao deixar no abandono vasto território desprovidos de meios materiais para um progresso significativo e natural ao território. Esta vontade é reduzida e já pouca contestação consegue fazer, pois em terra de poucos ou nenhuns, a exploração é santa, o lucro é sigiloso e a demografia é silenciosa, sendo subvertida à lógica central de quem vê Portugal através de números e ouve o povo apenas em tempos eleitorais.
No entanto, seria ingenuidade achar que não existe também uma elite que, por vassalagem à tecnocracia cosmopolita ou por genuína vontade capital, beneficia deste silêncio populacional. Onde o poder político nacional se retira, alia-se o poder político local com o importado capital, impondo a sua presença – em nome do desenvolvimento, dizem eles. Mas geram-se frutos que o trabalhador local vê passar, mas não prova.
Da crítica não se pretende destratar o progresso, mas sim refletir em que moldes esta aventura política de vários governos proporcionou um desenvolvimento claro e equitativo para a realidade material. Afinal, a linha do tempo demonstra que o nível de desenvolvimento se dilui à medida que se vai perdendo Lisboa de vista.
Revela-se então uma hegemonia urbana que se espalha por um território nacional desigual, tanto na sua demografia como na sua etnografia, uma demonstração de que a questão geográfica é, na sua essência, uma questão de classes. Não serve para opor o trabalhador rural ao trabalhador urbano, mas sim para denunciar a contínua mentalidade cosmopolita que despreza o ser rural, no sentido existencial de ser, mas que o explora ao sabor do lucro e à distância de um clique.
Numa mentalidade nacional onde o ser rural ainda é pacóvio e o urbano é cosmopolita, será isto um sintoma da sociedade? Ou será a herança bastarda do Estado Novo que, intencional ou não, foi perpetuada pelo poder político? Ainda se alimenta as elites lisboetas com a exploração da precariedade do trabalhador ribatejano?
No final de Levantado do Chão, vemos o coletivo a levantar-se do chão, revoltando-se contra a opressão que os quer curvar. A questão que coloco é: ainda temos alguém disposto a levantar-se do chão? Ou iremos continuar vergados à apatia da governação?