Jornal Maio

ilustração: Pedro Brito

Quem conheça um pouco da história da moderna política revolucionária não ignora a fratura entre a participação ou não na chamada “frente institucional”. Depois do sonho sufragista dos revolucionários ingleses de seiscentos, dir-nos-á o classicista italiano Luciano Canfora que, na sua leitura, a segunda parte do Manifesto Comunista, de fevereiro de 1848, era um programa de alianças visando as eleições um pouco por toda a Europa. A participação na “frente institucional” tornou-se, à medida que a democracia eleitoral se ia tornando tão inevitável quanto impreterivelmente controlável (Hobsbawm), um objeto de ainda mais acesa disputa ideológica por parte dos setores revolucionários ou que como tal se entendiam.

Entre nós, ao longo das décadas de contrarrevolução, os momentos eleitorais –concretamente presidenciais – assumiram um peso emblemático. Episódios como os de 1976, Eanes/Otelo; de 1980, Eanes/Soares Carneiro, ou de 1986, Soares/Freitas do Amaral foram vividos como fronteira e confronto entre “direita e esquerda” e, acima de tudo, simbolizaram a opção efetiva pela política do “mal menor”.

Um olhar sobre os Presidentes até hoje dir-nos-á como, em verdade, nenhum deles cumpriu o que jurou, “cumprir e fazer cumprir a Constituição”, que continua a ser, apesar de tudo, a mais evoluída e progressiva peça de todo o nosso ordenamento jurídico.

Porém, com Presidentes eleitos e, sobretudo, reeleitos, por percentagens por vezes ridículas de votantes no universo eleitoral, nunca o quadro político de degradação da democracia, mesmo que compreendida enquanto simulacro, que é o que temos, foi tão comprometedor quanto é hoje.

Nesse sentido, para quem herde a ideia de que a “frente institucional” não é negligenciável na política revolucionária, nas circunstâncias atuais e sem que a minha ideia pretenda conter qualquer laivo de arrogância, a opção à esquerda começa e acaba em António Filipe. 

Os trabalhadores

Ao trazer os trabalhadores para o centro do seu enunciado político, Filipe formula criticamente o que chama “o consenso neoliberal” de uma forma que abrange todo o respetivo espetro, incluído o candidato apoiado pelo PS. Com efeito, a candidatura de Seguro é o mais triste ‘ventre mole’ de algo que se reivindique “de esquerda” nesta terra em muitos anos. O seu apelo triste à “utilidade” do voto das esquerdas é talvez, no histórico da litania do “mal menor”, aquele que mais destoa no tempo e no modo. 

Mas nesse arco neoliberal Filipe ainda identifica os estilhaços respetivos, em candidaturas como a apoiada pelo Livre, dispensando-se explicações neste particular. Por outro lado, a dialética das “causas fraturantes”, grave equívoco trazido pelo Bloco à herança revolucionária da esquerda portuguesa desde os anos 1990, dificilmente poderia estar mais bem representado que por Catarina e o seu vaguíssimo discurso sobre “uma presidente” para “unir todos”, etc.

Mas existe mais uma razão de peso, e esta, a meu ver decisiva, para votar Filipe. O facto de ser o único candidato que, num tempo em que as questões internacionais se tornam esmagadoras, não tem manifestado tibiezas perante as máscaras do capital e do imperialismo. Não há concessões em relação à UE ou à Ucrânia, por exemplo, bem como acerca da necessidade de subtração da política do país ao servilismo “euro-satisfeito”. Não há, em suma, concessões, em nome de conceções abstratas de “democracia” e de “liberdade”, às formas que cada vez mais notoriamente menos têm a ver com a democracia e a liberdade que proclamam.

Nisto e não só, Filipe e o PCP, honra lhes seja feita, não têm cedido à violência crescente com que se procura condicionar e, em seguida, terraplanar qualquer posição vertical e séria no plano das questões internacionais, a troco de umas migalhas da ‘tolerante’ simpatia interna da direita político-mediática que tenta avassalar mesmo aqueles que combatendo-a cá dentro, a ela se juntam, porém, lá longe, onde, como diz o poema, o ar há de ser mais leve.