João Mascarenhas,
Butterfly Chronicles
A ciência, a poesia e o futuro: o voo ambicioso de Butterfly Chronicles.
A editora Escorpião Azul acaba de lançar Butterfly Chronicles, a mais recente obra de João Mascarenhas, autor veterano e presença reconhecida da banda desenhada portuguesa. A obra, que nasceu como webcomic há mais de uma década, chega finalmente ao formato de álbum físico, agora com a história concluída — um desfecho aguardado pelos leitores que acompanharam o projeto desde os seus primeiros passos digitais.
A premissa que sustenta Butterfly Chronicles é de imediato intrigante: poderá a memória individual ser acedida através do ADN? A questão, simultaneamente científica e filosófica, serve de porta de entrada para uma narrativa que começa de forma contemplativa, quase meditativa, antes de mergulhar no ambiente dinâmico da Investigação em Bio-Robótica da Universidade de Kymera, em Tóquio. É ali que uma equipa de investigadores trabalha na leitura da chamada “memória da espécie”, procurando extrair dos genes de determinados animais informações para melhorar o desempenho de robôs desportivos no competitivo universo do Droidball, um desporto mecanizado longe de ser apenas “futebol com robôs”, que Mascarenhas explora de forma conceptual.
O enredo adensa-se quando a equipa descobre que este método permite ir mais longe: não só a memória genética coletiva, mas também a memória individual se revela acessível. O salto científico abre, então, caminho a questões éticas, psicológicas e sociais que conduzem a narrativa para territórios mais profundos: a privacidade biológica, a identidade e os limites da ciência são temas que ecoam ao longo do álbum e que têm eco no tempo presente em que vivemos quando a evolução tecnológica parece mais rápida do que nunca.
João Mascarenhas constrói aqui uma ficção científica que não se afasta do plausível; antes, apoia-se em bases reais da genética e da robótica para projetar um futuro que se apresenta credível e inquietante. Essa ponte entre rigor científico e imaginação, por vezes com contornos poéticos, torna Butterfly Chronicles num livro estimulante, daqueles que, uma vez abertos, custam a pousar.
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A amplitude temática impressiona: ciência, cultura japonesa, humor, crime organizado, música, reflexão ética. À primeira instância, poder-se-ia pensar que são temas a mais, mas Mascarenhas consegue entrelaçá-los com habilidade, garantindo que o enredo nunca se dispersa em excesso. É verdade que algumas personagens poderiam beneficiar de maior desenvolvimento, mas o equilíbrio entre entretenimento e profundidade mantém-se sólido.
Graficamente, Mascarenhas apresenta um traço preto e branco enriquecido com tramas densas, num estilo que bebe do mangá sem nunca perder identidade própria. Os grandes planos das personagens são particularmente eficazes, transmitindo subtileza emocional e profundidade psicológica. Nota-se, porém, alguma irregularidade entre páginas de grande impacto visual e outras onde a proporção ou a fluidez do desenho não atingem o mesmo nível de excelência.
No conjunto, Butterfly Chronicles afirma-se como uma das obras mais completas de João Mascarenhas desde O Menino Triste. Embora diferente em temática e estética, partilha com essa obra maior a sensibilidade rara e a capacidade de provocar reflexão profunda no leitor. É uma narrativa intelectualmente desafiadora, movida pela ciência, emoção e uma inesperada metáfora poética da borboleta, símbolo de identidade, mudança e fragilidade humana. Uma contribuição relevante para a banda desenhada portuguesa contemporânea, sobretudo na sua vertente de ficção científica especulativa.