Jornal Maio

Das razões da aceitação do convite de Catarina Martins

António Pinho Vargas

ilustração: Pedro Brito

Vivemos um período em que a esquerda em geral está a ser alvo de um conjunto de ataques, de críticas e uma espécie de bullying mediático inaceitável. 

Assistimos a uma progressiva inclinação para a direita sob a orientação do jornal Observador, da pressão do Chega e das suas agendas que arrastam todo o espetro político nessa direção. Isso verificou-se, com estrondo, por exemplo, nas cerimónias do 25 de Novembro, na legislação cada vez mais determinada pela agenda extremista radical do Chega, na lei da nacionalidade e no pacote laboral que conduziu a uma greve geral mobilizadora. 

Neste contexto a esquerda estava a ficar quase submersa no seu receio de ser acusada de radicalismo — o que acaba por acontecer de qualquer modo — e de ter de se apresentar sempre sob o manto da moderação que a ameaça descaracterizar e falsificar. Trata-se de uma reação momentânea perante o “fantasma” de Pedro Nuno Santos e dos seus erros eventuais. Demitiu-se, mas a sua sombra paira por cima e não me lembro de outra fase na qual tantos cronistas ou comentadores de direita se tivessem multiplicado tanto em conselhos ao PS e depois em apelos ao voto em A. J. Seguro. Defendem tudo, aconselham tudo, menos “radicalismo”. 

Catarina Martins geriu a apresentação da sua candidatura com bastante tempo, esperou que aparecesse uma candidatura capaz de agregar um leque de apoios mais amplo (por exemplo, Sampaio da Nóvoa) e só depois avançou com a sua, ao contrário de outras que se apressaram a ocupar um lugar muito cedo.

Com a sua experiência política tem a grande vantagem de não ter receio de defender posições de esquerda, ao mesmo tempo que mantém uma lucidez cosmopolita face a sectarismos passados: perfila-se no combate às desigualdades crescentes em todo o mundo, no combate ao enriquecimento dos hiper-ricos nunca visto desde a “belle époque” (cf. Thomas Piketty); assume a necessidade de maior contribuição fiscal deste sector privilegiado, da banca e dos seus lucros excessivos, para equilibrar as finanças dos Estados; defende a segurança social e as pensões; defende o papel da arte na vida dos países, proveniente das várias identidades culturais que os definem como plurais; propõe a luta pela valorização da arte e dos artistas como forma de enriquecer a qualidade de vida dos cidadãos, oferecendo a cultura em toda a sua magnífica diversidade.

A extrema-direita deve ser combatida com firmeza e convicção, sem medos nem tibiezas. Catarina Martins debateu e denunciou as suas demagogias, as suas falsificações históricas; propõe-se criar zonas de reflexão autocrítica para evitar as armadilhas da retórica enganadora, coisa em que nem sempre estivemos de acordo. 

Julgo que esta espécie de vergonha de assumir posições de esquerda, que persegue qualquer proposta, por moderada que seja, imediatamente qualificada de radical, como se viu na candidatura de Carlos Moedas, seguindo as opiniões cínicas de cronistas ou comentadores das direitas, não conseguirá atrair os agora dissidentes ou os desencantados com os momentos em que as esquerdas falharam aos seus seguidores históricos. A longa história do século passado está recheada de episódios desse tipo.  A esquerda pode ser plural e diversa desde que seja capaz de se aliar nos momentos cruciais de conjunturas desfavoráveis, na minha opinião. Já o fez algumas vezes em Portugal nas disputas eleitorais onde tal se mostrou necessário.
A tarefa presente é imensa. Mas Catarina Martins revela coragem, segurança e determinação. Demonstrou enorme inteligência e capacidade de combate face à violência verbal e ao ataque pessoal do candidato da extrema-direita e contra os rolos compressores que capturaram e dominam os media: “a máquina que faz ganhar as direitas”, segundo o sociólogo Yves Citton. Nos seus contactos de rua escolhe aqueles que mais precisam de ouvir as suas opiniões. Merece o nosso apoio porque traz para o debate eleitoral temáticas que sem ela não estariam presentes.  Finalmente merece o meu apoio porque nos últimos anos tanto falamos de música como falamos de política o que, em última análise, vai dar ao mesmo.