O curto período em que fui pastor de ovelhas coincidiu com a queda da bolota. O início deste fenómeno (muito aguardado, por sinal) pode ser um pesadelo para os pastores, sobretudo para quem, como me aconteceu, tem a seus cuidados um rebanho composto por uns 200 animais de variada proveniência e recém agregado, trabalhando num terreno acidentado, coberto de mato e (ainda) livre de cercas. As ovelhas ficam alucinadas e difíceis de apascentar como se fossem um ror de gatos largados pelos montes!
Assim que, ao raiar do dia, abrimos o redil, as ovelhas saíram à disparada, todas correndo em direções opostas! E passaram o dia inteiro nisto: a cada árvore (azinheira ou sobreiro) alcançada, com a sofreguidão da cobiça (chegando a atropelar as próprias crias ainda pequenas, aparentemente sem se importarem), procuram por bolotas, ingerindo pouquíssimas das que encontram esparsas, pois guia-as a fé de que sob a próxima árvore é que estará depositado o sonhado tesouro. A cena repete-se vezes sem conta até ao ocaso.
Na hora dos exasperados arrebanhadores as trazerem de volta para o aprisco, estão exaustas, tendo consumido mais energia no afã de perseguir a sorte grande das bolotas, do que as que comeram, deixando a maioria intocada no chão.
Não sei quanto a vocês, mas isto parece-me uma boa metáfora para a nossa sociedade capitalista. A grande diferença é que não demora a cair uma tal abundância de bolotas que todas as ovelhas ficam satisfeitas, restaurando-se a paz pastoril. Ainda assim, é mais fácil encontrarmos pastores estelionatários nas igrejas, do que pastores filósofos nos campos.
Paulo Barreiros
Naturalista e fotógrafo