Jornal Maio

A janela da minha cozinha dá para um recôndito corredor de estrada alcatroada, nem muito largo, nem estreito, que se prolonga por uns 40 metros ao longo da fachada do meu prédio e do prédio contíguo. O que sobressai ao contemplá-lo da minha janela não é a fachada do meu prédio nem a do vizinho do lado, mas uma parede uniforme e plana, rugosa e cravejada de sombras a todas as horas do dia, de um tom vermelho seco, que se ergue como um muro e culmina numa grade verde-escura que protege, a exagerada altitude, um jardim inexpugnável e, talvez apenas por isso, muito bonito. Não há mais nada na casa digno do meu cigarro. É quadrada e plana: muros altos, portas fechadas e sem graça, um pequeno candeeiro acinzentado. O jardim consiste numa extensão de relva aparada (sempre a contragosto) com duas laranjeiras e três vasos deitados donde brotam flores bonitas que não reconheço. O sol incide longas horas sobre a relva sem nunca a crestar. O jardim é tristemente negligenciado pelos donos que nunca (nunca mesmo) lá põem os pés. Quando, muito esporadicamente, identifico um qualquer vulto no jardim, a visão é sempre a de uma figura requebrada, o movimento de uma pressa sem entusiasmo que lembra um trabalhador a fechar o turno. Mesmo quando visitado, o jardim não perde nunca aquela aura paradoxal de oásis e deserto que os meus olhos lhe atribuem. 

Frequentemente pouso-me a esta janela a fumar e é com embaraço e estupefação que admito que só duas ou três vezes lá vi alguém com pinta de dono de alguma coisa. É atendido pela criada que dorme no quarto em frente ao meu, cujos estores estão corroídos e estragados desde que me lembro. Nunca estão levantados mais que um palmo e, quando o estão, sempre assentes num improviso com um pedaço do que parece ser um caco de vaso ou de um qualquer plástico incomum posto na base da janela para a impedir de trancar-se. Os verdadeiros habitantes deste jardim são as laranjas (que ninguém come) e os pássaros e os gatos da vizinhança, desconfiados e prazenteiros, que estão sempre lá ou nos antigos fornos da cal, aqui perto. O muro terá três ou quatro metros e a grade acrescenta-lhe mais metro e meio de proteção – uma verdadeira fortaleza. Por isso ninguém sabe, a menos que seja dotado de um nariz muito arguto, que ao passar por aquele lúgubre corredor – em que há sempre molas de roupa no chão, plástico pintado e calcário desgrenhado – que a poucos metros se ergue um singelo paraíso esquecido que seria a fina-flor das posses de qualquer amante de churrascos e o tesouro de qualquer um que, como eu, goste de dormir a sesta ou de ler ouvindo os pássaros, banhando-se em solarenga melancolia. Neste dia estava a recompor-me com um cigarro (são muito úteis, os cigarros) de um documentário sobre a vida nas Hurdes espanholas no início do século XX. O documentário era muito bom, por sinal, do Luís Buñuel, e eu imaginava-me já esticado na espreguiçadeira inexistente do jardim quando fui atingido de soslaio, meio entorpecido pelo fumo e pelas minhas cogitações, pela sombra ameaçadora, muito aumentada pelo sol, do que concluí imediata e instintivamente ser uma voraz ave de rapina – exímia caçadora de homens. Pisquei os olhos três vezes em sobressalto e, depois, abri-os muito quando me apercebi de que o meu rapace só poderia ser uma gaivota. Com os pés agora assentes um palmo e meio atrás, endireitei o olhar para os céus ainda a tempo de contemplar a aparição elevar-se e escapar-se aos meus sentidos, largando ostensiva e quase majestaticamente um projétil que, antes de acometer desrespeitosamente o alcatrão, se dividiu em três, resultando num sonoro pa-ta-plof. 

Ocorreu-me então, retendo a imagem da calma complacência com que se afastara, que a ave havia completado na perfeição o motivo da sua visita. 

A luz incidia indiscreta sobre o dejeto que refulgia à margem da sombra e se destacava neste panorama de molas e outros objetos ali abandonados, pela sua liquidez. Pensei que me saberia bem um leite de coco e ri-me comigo mesmo com os pombos que arrulhavam por mim. O que não é verdade. Agora pensava nos donos do jardim e em como gostaria de os encontrar uma vez e satisfazer a minha curiosidade com perguntas impacientes e demasiado diretas, como estas: Quem são? Que fizeram com a vida para acabar com este pedaço de verde? Desde que se reformaram, o que vos tira da cama? E mais importante: como se chama a vossa criada? E nunca mais ter de cruzar-me com eles (o que, já me ocorreu, talvez bastasse para que me legassem o jardim). 

Estas gaivotas, creio, são quase sempre gente muito prosaica e vaga. Incomoda-me sobretudo como pousam nos pontões, de pés assentes na firme convicção de que as suas impurezas são tão menos nocivas para a pele e para os pulmões que podem ser trilhadas e aspiradas sem sapatos calçados, em dias sem vento. O cigarro esmoreceu na ponta dos meus dedos e devolvi o meu pensamento a coisas que ao leitor (felizmente) desinteressam. Cheirando a brisa do mar, retomei o prazer de contemplar o voo das aves marinhas que passavam. Já não me pareciam tirânicas. Focava-me na larga envergadura das asas, e sorri silenciosamente. 

Ocorreu-me que tudo isto não passava de parvoíces de uma mente desgovernada. Para contrariar o instinto, ordenei-me solenemente o silêncio: dei aí o dia por terminado. Concordámos todos. Encostei-me à parede da cama, no meu nadir espiritual, com o sol ainda mal passado do zénite, e continuei a perder tempo sonhando com glórias e conquistas pessoais. Chegado aqui adormeci, saboreando em sonhos uma sopa da pedra bem feita (mais uma das minhas conquistas), e sei que as minhas papilas gustativas trabalhavam estupidamente ensopando a almofada, ao passo que os meus lábios afastados abrasavam e secavam enquanto dormia. Lá fora crocitava-se de vez em quando. 

David Varela do Paço

David Varela do Paço

Estudante (Línguas, Literaturas
e Culturas, UNL)