Foram fazendo conversa depois do filme. Nos olhos dela já não havia desejo, mas ele continuava a olhá-la procurando qualquer coisa que se opusesse à impressão que tinha, e de cada vez que a olhava acumulava mais desilusão. Na sala de cinema notara qualquer coisa na silhueta dela, mal iluminada de lado pelo ecrã, que lhe indicara um à-vontade para lá da segurança, um desejo, um aborrecimento e uma vontade de experimentar. Deixou-se enredar de olhos abertos nos dois ecrãs, naquele escuro íntimo. E o riso dela, livre, despretensioso, ainda por cima numa cena erótica, convencera-o por fim. Já não somos estranhos. Pensou várias vezes em tocar-lhe, em quebrar a barreira, mas pareceu-lhe muito adolescente. Não queria que ela o pensasse. Mas agora caminhavam quase calados, embora conversassem muito porque o silêncio ganhara um peso perturbador. Os candeeiros pareciam estar a mais. As luzes chocavam no passeio liso, sobrepunham-se e enjoavam-no. Ele sabia que não a devia ter levado a ver o filme, embora não o sentisse ainda como sentiria depois contando aos amigos como fora. Tinha sido sempre o prémio de consolação, o jantar fora caro e a noite longa e demasiado real. Queria impressioná-la, só por isso escolhera Pasolini, queria testá-la, conhecê-la. Não pensou muito nisso, pelo menos não deixou pousar as palavras na mente, mas a desconfiança acumulada foi ganhando um furor de certeza. Já não havia desejo nos olhos dela, desconfiou. Caminhavam os dois sem se olharem, ou tomando precauções, envernizando os olhos antes, mas foram-se os dois cansando da farsa e voltaram a dirigir-se um ao outro com a mesma franqueza que tinham já inaugurado. Sem admiração. Só que estes murmúrios de alma, quando ainda não se conhece a pessoa, adormecem. O ritmo dos saltos dela a bater no empedrado embalavam-no como um chuveiro. A certa altura disse qualquer coisa, já não sabia o que foi, que lhe deu a entender que não o queria e que queria que ele o soubesse quanto antes e a deixasse sossegada. A rua estava deserta, longa, clara e inacessível de tão aberta, havia ainda um barulho distante de obras – metal.
Começou a sair também da sala de cinema, não bruscamente, mas avançando com passos firmes e de olhos fixos na porta ao longe. Percebeu-lhe a intenção e aceitou-a intimamente, mas não lhe perdoou a desconsideração.
Mencionou de soslaio que em breve partia, de Erasmus, e fez ainda menção de o convidar a partilhar da sua pretensa felicidade aventureira. Não fazia tenção de lhe esconder nada. Tanto tempo. “Olha, acho que vou passar ali em casa de um amigo, dizer olá. Queres que te deixe no metro?” “Não, não me importo nada.”
Percebeu tudo. Falava novamente muito. Falava como quem, quando escreve mensagens, acrescenta vogais ao acento tónico das palavras, como se assim lhes desse sabor. Era irritante, mas também reconfortante aquele quase medo que ela agora emanava, aquele precisar dele. Já não ouvia os passos dela, sentia-se importante, imprescindível. O ritmo agora era o da noite. Apesar de tudo. Chegaram ao Campo Grande e já estavam mais que fartos um do outro – eram inimigos. Ele quis respirar um bocado, ela tinha pressa. O mesmo comboio. Ah sim? Nenhum se lembrou de esconder a indiferença, estavam na mesma página.
David Varela do Paço
Estudante (Línguas, Literaturas
e Culturas, UNL)