O povo veio às ruas. Crianças, mais velhos, nativos e estrangeiros. Como quando Jesus chegou ao templo e virou as mesas dos que aí faziam negócio com o sagrado, também o povo está indignado. “Basta! Esta é a casa dos nossos antepassados! E será a casa dos nossos filhos!” “A terra é sagrada, não é para fazer negócio ou ser explorada!” “Por que raio temos de ser nós os sacrificados na Europa?”, diz o povo, e com razão. É a voz da sabedoria que grita do alto destas serras.
A terra foi feita para ter micro-organismos vitais, plantas de variedades imensas, árvores apropriadas a cada região, animais com várias funções, humanos que cuidam e respeitam e que nela trabalham para o alimento de todos. A terra, a água, o sol e o ar é que nos sustentam em qualquer lugar, para quê inventar?
Querem a “Sophia”, mas a verdadeira sabedoria está no respeitar e cuidar da terra. Em não a destruir, explorar, aprisionar e violar. Como podem chamar sabedoria (sofia) à produção de energia “verde” que destrói ecossistemas e causa danos sociais irreparáveis?
Aqui seria um desastre ecológico e a destruição de uma comunidade que tem potencial, mas não será com painéis solares ou outras monoculturas.
A sabedoria deste povo está no relacionamento que ainda têm com a terra que sempre os sustentou. Nunca vi um pedinte ou sem-abrigo nestas terras. A terra é abundante, acolhedora e generosa, assim como o são as gentes que nela habitam. Este povo tem não só sabedoria, mas resiliência, resistência e fé. Estas terras não estão desertas, muito menos abandonadas. Muitos se têm mudado para aqui, inspirados nestas gentes e neste modo de viver e de ser. Os educados aprendem com os iletrados. Isto é sabedoria!
É verdade que muitos emigraram, mas para poderem investir nas próprias terras, nas próprias aldeias, e muitos voltaram. Em agosto é uma alegria quando as famílias se juntam, há festas todos os fins-de-semana, levantam fundos para ajudar a população ou até para construir os lares quando a Igreja e os municípios não se mexem.
Ainda há muitas famílias que se sustentam com as suas hortas onde têm um pouco de tudo, e o trabalho agrícola ainda sustém e cria empregos nesta região. A cortiça, o vinho, o azeite, a lã, a fruta, as castanhas e avelãs, os queijos e os enchidos, as imensas variedades de cogumelos das florestas autóctones, a carne e a rica gastronomia. As florestas que precisam de manutenção, a madeira para construção e alguma indústria e comércio que fazem desta região um exemplo e potencial de autonomia rural. E querem acabar com isto?
Posso falar também dos recursos naturais, como as belas serras da Estrela, da Gardunha e da Malcata, de onde podemos ver os imensos campos agrícolas, os soutos e carvalhais e a extensão do montado com sobreiros, azinheiras e os rebanhos de cabras e ovelhas que se perdem de vista até aos montes da Idanha e Monsanto. Os rios que aqui nascem, as nascentes que dão de beber água rica e medicinal num estender de mão para encher o garrafão.
Tudo isto e muito mais podia continuar a descrever. Tudo isto querem trocar por corredores sem fim de painéis solares para o lucro de quem nunca aqui pôs os pés. Dizem que é para produzir energia mais sustentável, e é parte da verdade, mas nestas terras e da forma que querem fazer é que não.
Aqui seria um desastre ecológico e a destruição de uma comunidade que já é resiliente e tem potencial para mais sustentabilidade, mas não será com painéis solares ou outras monoculturas.
Há novas gentes que se têm juntado atraídas por este modo de viver e inspirados pelos que já cá estavam. Largaram tudo para aqui se enraizarem e acrescentarem à riqueza que aqui já havia. Criaram-se laços, aumentaram-se famílias, escolas reabriram e mais bebés estão a nascer, novos empreendedores locais criam empregos e não faltam oportunidades para mais.
E querem que troquemos tudo isto porquê? É que nem emprego vão gerar, não para os locais. A agricultura, o turismo rural, histórico e do ambiente, o comércio local e acima de tudo a resiliência de uma comunidade multicultural, tudo isto acabaria.
Por isso, e por todos os conhecidos impactos ambientais e sociais dizemos: Não à “Sophia”!