O que é a Central Solar Sophia?
Fábio Oliveira
Engenheiro eletrotécnico
A Central Solar fotovoltaica Sophia (500 MVA) é um projeto desenvolvido pela Lightsource BP, subsidiária da petrolífera BP e uma das maiores empresas de desenvolvimento de projetos solares do mundo. O projeto abrange uma área vedada de aproximadamente 1737 ha no total, distribuída pelos concelhos do Fundão, Penamacor e Idanha-a-Nova, com os elementos do projeto a ocupar cerca de 434 ha (com 390 ha ocupados por painéis fotovoltaicos). Encontra-se em consulta pública até 20/11/2025.
Trata-se de um megaprojeto solar como outros que têm sido noticiados, como o exemplo recente da Central Solar da Torre Bela, na herdade do mesmo nome (associado ao escândalo do extermínio dos animais selvagens numa montaria). O impacto destes megaprojetos é significativo pela alteração da envolvente, e não se podemos excluir que projetos semelhantes tenham impactos da mesma magnitude. Novamente, e a título de exemplo, não estará fora de questão um cenário deste tipo com a atribuição do ponto de ligação à rede da antiga central térmica do Pego à Endesa (224 MVA) após o leilão de 2021.
Olhando para o promotor do projeto, para o dono, trata-se de uma spinoff de energia renovável de uma petrolífera, com o objetivo de “descarbonizar” a atividade principal de extração e transformação de produtos petrolíferos através de mecanismos como os créditos de carbono e fazer o chamado greenwashing, lavar a imagem da empresa com uma demão verde, permitindo-lhe continuar com a sua atividade principal. Naturalmente que as centrais solares também são fontes de receita e permitem recuperar o investimento da empresa-mãe – esse é o objetivo declarado do negócio. A preocupação não é a transição energética, mas a continuação do seu negócio tradicional, o petróleo. Este modelo de negócios é amplamente aplicado pelas empresas do setor como a Total, a Repsol e, em menor escala, a Galp.
A energia solar fotovoltaica apresenta uma vantagem face às outras alternativas renováveis, que é a disponibilidade do recurso solar no território português, com bastantes horas de exposição, tornando este tipo de centrais mais apetecíveis para os promotores.
Promotores gigantes como a BP olham para a capacidade da rede de receber energia, publicada pela DGEG, e procuram desenvolver centrais que maximizem a energia que a rede pode receber, e consequentemente a energia que conseguem vender. Empresas desta dimensão podem dar-se ao luxo de construir megacentrais solares, conseguem melhores condições para o seu financiamento do que empresas menores e ainda aproveitam alguns efeitos de economia de escala, pela própria dimensão do projeto.
O racional é o estritamente económico: podendo construir uma megacentral, não vão apostar em pequenas e médias centrais distribuídas, centraliza-se a produção e centraliza-se o ganho, mas também se centralizam as consequências e os impactos nas populações locais e envolvente.
Estas centrais, mesmo com elevadas dimensões, não requerem um grande contingente de trabalhadores para manter. Nos próprios números do projeto identificam a necessidade de 1022 trabalhadores durante a fase de construção, entre altamente especializados e imigrantes precários; muito poucos serão originários da zona ou por lá ficarão no fim.
Ao fim dos três anos de construção, para os 25-30 anos de vida útil de uma central deste tipo, só estimam necessários 15 trabalhadores, um punhado.
A transição energética é urgente e requer um planeamento racional, técnico, o envolvimento dos trabalhadores e das comunidades deixadas à mercê do mercado e do racional puramente económico. É um desastre à espera de acontecer.