Jornal Maio

É frequentemente dito que o silêncio é a ausência de som, uma tela em branco.
Mas ver o silêncio como ausência é não entender a sua força. Porque o silêncio também é barulho, também ele ocupa espaço. O silêncio nunca foi e nunca será neutralidade.

Há silêncios que pesam, que consolidam o poder. Silêncios que sustentam a violência.
Nem todos os silêncios são inocentes. Alguns são estratégicos. Outros, cúmplices.
Silêncios convenientes, úteis apenas a quem nunca teve de escolher entre calar-se ou sobreviver.

Audre Lorde disse: “O silêncio não nos protegerá.” Quantos líderes do mundo se escondem, cobardemente, atrás de um silêncio mascarado de neutralidade? O silêncio torna-se então uma arma sempre que há uma injustiça a decorrer diante dos olhos e se escolhe não a nomear. O silêncio legitima, aprova por omissão, dá espaço à continuidade do que fere. Silêncio cobarde torna-se violência, torna-se agressão. Um líder que se esconde perante um genocídio, perante machismo, perante racismo, perante homofobia é indigno do cargo que ocupa, uma figura esvaziada de coragem e de consciência. 

O silêncio europeu tornou-se um dos pilares do massacre da Palestina. E que não se confunda o silêncio institucional das universidades, das fundações, e dos governos por hesitação. É uma decisão política. 

É um silêncio ruidoso aquele que observa a morte de mais de 60 mil pessoas nos últimos nove meses, meio milhão em fome catastrófica, e uma população inteira a viver sob cerco. É um silêncio ruidoso aquele que covardemente se esconde num fato de privilégio e imperialismo. É um mito achar que a sociedade europeia é civilizada quando mete as mãos aos bolsos face a um dos maiores massacres a que já assistimos. Depois de décadas a erguer memoriais e a jurar “nunca mais”, seria de esperar que o horror do genocídio evocasse empatia, não indiferença. Porém a empatia de muitos políticos europeus (e não políticos também) escolhe cor da pele, escolhe religião. O mesmo se aplica a indivíduos que escolhem a “imparcialidade” – o seu silêncio, a sua ignorância são um espelho do seu privilégio. Quem pode escolher não se posicionar é quem não está a ser bombardeado, quem não tem família a morrer de fome, quem não tem a sua casa reduzida a escombros. Onde está a nossa humanidade? 

O silêncio é uma arma. Mata e desumaniza, perpetua uma sociedade patriarcal. São os amigos que “não querem meter-se”, os vizinhos que fingem não ouvir, os sistemas judiciais que relativizam. Será coerente um homem heterossexual escolher manter-se “imparcial” em situações de agressão física, sexual ou emocional contra mulheres? Será coerente um homem dito heterossexual não ser feminista? Nasceu de uma mulher, é casado com uma mulher, pai de filhas, mas acha que o feminismo não é a luta dele. Pelo menos uma em cada três mulheres já foi vítima de violência física ou sexual (e 99% dos perpetradores são homens). Ser mulher é dar por garantido que isto pode acontecer. Um homem que se mantém em silêncio não pode dizer que ama realmente as mulheres à sua volta – não é coerente. O seu silêncio é uma arma que fere as mulheres que o rodeiam, e a todas as outras. Os agressores não são só os que disparam a arma, mas também aqueles que testemunham a agressão e que nada fazem. 

O mesmo se aplica ao silêncio cúmplice de pessoas brancas que se digam não racistas perante desigualdades, humilhações, comentários, racismo disfarçado de humor. “Não é a minha luta.” Onde está a tua humanidade, se só te pronuncias quando algo te beneficia a ti diretamente? O que é que isso diz sobre os aspetos mais centrais do teu carácter? 

A imparcialidade em situações de injustiça, de opressão ou de agressão não existe. O desejo de imparcialidade é já por si uma posição clara de desinteresse e de indiferença. 

O silêncio é uma arma, que mata, sustenta, oprime. O silêncio é uma arma.

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