Jornal Maio

Os tachistas oportunistas

1-Ricardo Reis, o trabalhador
mais expedito do Chega

Estou a retrabalhar toda a obra do Fernando Pessoa e a dar-lhe um cunho pessoal.

É um puto de vinte e tal anos, mas já sabe manejar o aparo. Mas foi com uma Bic sanguinolenta que ele ganhou galões. Fez primeiro um rascunho para ser mais feroz. Só depois passou a certidão de óbito para o seu poleiro digital. No ano passado, este imberbe de Setúbal, que nunca leu os sonetos eróticos do grande Bocage, veio para as redes sociais congratular-se pela morte de Odair Moniz e dizia ainda que era um preto a menos no Reino da Corrupção. Vejam lá! A sinceridade do niquinho! A sua gratidão para com a polícia, que assim se desfez de um elemento perigoso para a comunidade, foi infinita! Mas o finório tinha um objetivo e viu-se agora, pois hoje está sentado na Assembleia da República e engravatado. Mas voltemos atrás ao contentamento do chefe Ventura quando lhe falaram de um miúdo que corria mais depressa que as balas perdidas. Temos de arranjar um tacho a este aprendiz de feiticeiro, disse logo o Berrão. Telefonou-lhe. Passados cinco minutos, o puto, todo contente, foi logo direitinho à Avenida Luísa Todi comer um prato de choco frito. Já tinha tacho! Há tachistas que rastejam, este só puxou pelos galões da desumanidade. Um preto a menos, isso é irrelevante. Nessa noite dormiu ainda melhor.                                                                                                                                      

Ricardo Reis está hoje, pois, refastelado na Assembleia da República ao lado dos outros 59 deputados do partido Chega. Entrevistado para um canal de televisão no princípio da XVII legislatura, o benjamim de cabelo cortado e espetado, declarou ao jornalista a sua intenção: “Trabalho! Trabalho! Trabalho!” Era o programa do novo deputado daquele grupo político. Só que não havia nada a fazer. O Chefe Ventura acumulava tudo e até açambarcava o ar. Então resolveu em privado contribuir para a glória da pátria. Numa carta a um amigo que está quase a entrar no Chega (só lhe falta pagar-lhe um jantar em Tróia) confessou-lhe: “Então o que fiz para passar o tempo com coisas úteis? Dediquei-me à literatura. Estou a retrabalhar toda a obra do Fernando Pessoa e a dar-lhe um cunho pessoal. É um trabalho que me satisfaz muito e me dá muito prazer. O Álvaro de Campos já está todo com um cunho à Ricardo Reis. Foi o mais difícil. Ainda não toquei na ‘Mensagem’, nem nos ensaios e nem no Livro do Desassossego. Mas tenho tempo. Tenho quatro anos diante de mim. Trabalho! Trabalho! Trabalho! São os três pilares do sucesso. Deus queira que chegue ao fim desta minha dedicação parlamentar e só espero ser recompensado por estes meus esforços literários em nome do Chega e pela Pátria.”

Ricardo Reis quando se cruzou há dias nos corredores do Parlamento com os deputados socialistas, estes desviaram-se com deferência. Viram-lhe uma pasta volumosa na mão, óculos grossos e chapéu preto na cabeça e pensaram logo em alguém de conhecido. Ora esta!