Faz-te à vida e não votes em Manuel João Vieira
Bernardo Maria Albuquerque Queirós da Fonseca
ilustração: Pedro Brito
Não venho apelar ao voto em Manuel João Vieira. Aliás, nem ele quer nem precisa que o faça. Nem eu o faria, nem devo votar nele, mas confesso que o meu voto anda tremido. Vieira quer ser eleito à terceira volta e há que respeitar a sua vontade. Já nos habituámos a ir várias vezes às urnas nos últimos tempos e mais um pulinho não nos fará grande diferença. Só fará bem ao nosso cardio. O que me interessa é discutir as razões do porquê de alguém votar (ou ponderar votar) em Manuel João Vieira e, com isso, a situação política, à esquerda, destas eleições.
Há quatro eleições presidenciais que Vieira se tenta candidatar ao Palácio de Belém. Nunca recolheu as mínimas 7500 assinaturas válidas para o fazer, mas desta vez, à quinta tentativa, conseguiu-as em poucos dias e entregou 12.500 no Tribunal Constitucional. Alguma coisa mudou, mas o quê? Não foi certamente o candidato.
Fala-se de estabilidade e de mais estabilidade, mas a vida de quem trabalha está tudo menos estável. A estabilidade de que nos falam é sinónimo de baixos salários, de precariedade, de serviços públicos em permanente degradação, em sangrar financeiramente numa simples ida ao supermercado, em horas e horas de transportes públicos apinhados. Vemos na televisão notícias sobre lucros milionários da banca e dos grandes grupos económicos sem que nada seja feito. Fala-se e fala-se de crescimento económico, mas sentir a sua promessa de redistribuição, isso está quieto. As notícias estão cada vez mais afastadas da realidade de quem trabalha. Vive-se uma verdadeira pandemia de saúde mental no país.
O isolamento e a desesperança aumentam. A empatia, a camaradagem e a solidariedade desvanecem-se. Os vínculos sociais esboroam-se. Sente-se que não há alternativa, que o nosso voto não conta. Ou melhor, conta sempre quando é para enfrentar o mal menor com o voto útil, instigando-nos o medo. Que nos prometem mundos e fundos com aquela respeitabilidade de senhor doutor, montam personagens mediáticas fofinhas, próximas do povo e tudo e mais alguma coisa para nos sacarem o voto. É nestas alturas que descobrimos que nem dançar sabem. Passa o dia das eleições, regressam os jogos parlamentares e palacianos de bastidores e nem ver as promessas cumpridas. Sentimos que a democracia se esvaziou. Não vale a pena votar ou, então, só para cumprir este dever, que somos bons cidadãos, vota-se em branco ou mesmo nulo. E siga em frente.
Estas eleições presidenciais estão a ser diferentes: o voto de protesto pode ser canalizado para Manuel João Vieira. Para isso contribuiu o rol de candidatos presidenciais mais fracos de sempre. Um é um militar bonapartista, outro é lobista com vergonha de que o saibam, um terceiro é um liberal que nos vai destruir a saúde pública e não teria objeções a votar em Ventura e um quarto é um pãozinho sem sal que não aquece nem arrefece que vai fazer política de direita em Belém. Os candidatos à esquerda, todos com intenções de voto mínimas, não cativam nem mobilizam. São os mesmos rostos de sempre e não suscitam esperança. Não puxam carroça. É o mesmo discurso de sempre: vazio, abstrato, por vezes moderado para parecer bem, que há que apanhar aquela franja do eleitorado. São simpáticos, mas não convencem. São campanhas de comunicação e marketing político. Mas não tinha de ser assim.
A candidatura de Vieira ridiculariza isto tudo e, acredito, toca no subconsciente emocional do eleitorado desapontado com a política e com os candidatos que se apresentaram. É um fenómeno próprio do contexto destas eleições. Também colhe votos de quem se sente desamparado à esquerda, frustrado e com raiva, numa de mandar tudo às urtigas, por a esquerda não ter estado à altura do que se exigia: uma candidatura popular, alargada, mobilizadora, que pusesse em causa o actual horizonte político, que mobilizasse e fomentasse um verdadeiro debate sobre o país e quem nele trabalha. Sobretudo uma que despertasse esperança.
A candidatura de Vieira ridiculariza ainda a suposta respeitabilidade dos políticos de sempre, as promessas nunca cumpridas, transforma o que pensávamos ser surreal (até acontecer) em ridículo. Faz-nos rir em tempos de tanta alienação, incerteza e medo. Obriga-nos a descodificar o significado das suas palavras e actos, a exercitar o pensamento. E a falar delas. Pelo meio, manda tudo às urtigas, e sabe bem ver alguém fazê-lo.
Fá-lo com sátira política, por vezes javarda e sem piada, mas toca em elementos fundamentais da vida dos portugueses: a falta de justiça, igualdade e fraternidade no país, o investimento na indústria da guerra, a promessa falhada de redistribuição da riqueza produzida, a pandemia de saúde mental. Transforma as propostas que os políticos de sempre nos apresentam como respeitáveis e racionais, mas que são um desastre para a vida de quem trabalha, no ridículo. A sua proposta de inclusão do direito à felicidade na Constituição é esse toque num país profundamente triste e desesperado: todos termos acesso a tudo para podermos ser felizes. E todos queremos ser felizes, seja isso o que for.