Jornal Maio

Van: o militante, o amigo, o homem

No quadragésimo aniversário da morte do matemático e revolucionário Jean van Heijenoort, publicamos um artigo do historiador Pierre Broué em sua homenagem. 

Jean van Heijenoort (à direita), ao lado de Trotsky e Frida Kahlo.

Van morreu com três tiros na cabeça, disparados à queima-roupa na noite de 28 para 29 de Março de 1986. Aquele que, durante sete anos, de Prinkipo1 a Coyoacán2, fora o precioso colaborador de Leon Trotsky ficou a repousar não muito longe deste, no cemitério francês da Cidade do México.

Chamou-se, ao nascer, no dia 23 de Julho de 1912, em Creil, Jean van Heijenoort, filho de um trabalhador holandês emigrante, operário nas fábricas Fichet. Aos dois anos, na primeira semana da guerra, morreu-lhe o pai, de uma úlcera no estômago de que não se conseguiu estancar a hemorragia; os médicos tinham todos partido. A mãe e a avó arranjaram emprego como criadas, vivendo ele, com elas, nas casas burguesas que as tinham empregado. Já o caracterizava o vigor excepcional das suas aptidões intelectuais. Da guerra, mesmo do tempo em que apenas tinha dois ou três anos, conservou memórias de extraordinária precisão. Conheceu a pobreza, mas não a miséria, pois aquelas mulheres trabalhavam e viviam para ele e para a sua irmã, e não lhe faltou amor. Mas teve de aguentar o ódio boçal, o racismo. Nunca se esqueceu de ter sido agredido na escola, tratado de “boche3 de merda” por causa do nome “estrangeiro” e da aparência física – com o seu fácies de loiro de olhos azuis – e também porque Guilherme II, “le Kaiser”, como se dizia, se refugiara na Holanda em 1918.

Não obstante, a escola municipal abrir-lhe-ia as portas do saber. Classificado em primeiro lugar no concurso para “bolsas” do departamento, no final da escola primária, foi admitido como interno no colégio de Clermont d’Oise, onde foi aluno brilhante. Ainda muito jovem, soube fazer-se respeitar, mantendo à distância praxes e perseguidores. O aluno excelente era um rapaz que não vergava. A política entrou muito cedo na sua vida, porque ele assim o quis. Odiava a guerra, abominava os discursos nacionalistas e os sermões, amava a vida e aspirava à justiça e à liberdade, já. A sua experiência de criança do Norte criada durante a guerra, com os canhões como ruído de fundo, numa sociedade de classes que exibia todos os estigmas da injustiça, começou por atraí-lo para um comunismo “utópico e rousseauniano”; depois, para a leitura de L’Humanité com o grupo de estudantes do ensino secundário que tinha reunido com o seu amigo Jean Beaussier. A sua inteligência muito rapidamente fez dele um jovem comunista simpatizante das ideias de Trotsky, de quem ainda nada tinha lido, mas cujo alcance pressentia e que, fosse como fosse, se recusava a condenar sem ter lido.

Finalista brilhante do secundário, obteve a bolsa que lhe permitiu ingressar no curso de matemática avançada no Liceu Saint-Louis, em Paris, no início do ano lectivo de Outubro de 1930. Algumas semanas depois, aconteceu o que tinha de acontecer: conheceu um grupo de jovens militantes da Oposição de Esquerda, dirigidos por Yvan Craipeau. Tinham ido apupar uma peça anticomunista no teatro de Charles Dullin, que obrigaram a discutir com eles e que acabou por lhes dar razão. De passagem, ganharam Van. Era um militante magnífico. Sem abandonar a matemática, foi aperfeiçoando os conhecimentos de russo e participando em todas as iniciativas do pequeno e dinâmico grupo a que acabara de aderir. Foi, assim, com naturalidade que, no início do ano lectivo de 1932, Raymond Molinier4, que andava à procura de um secretário e guarda-costas para Trotsky, lhe propôs que partisse para Prinkipo. Van não hesitou um segundo: nem lhe passaria pela cabeça. Partiu, transportado pelo entusiasmo, para se pôr ao serviço directo do homem que admirava, cujos escritos, publicados em várias línguas, agora conhecia, o companheiro de Lenine, chefe do Exército Vermelho, depois animador da Oposição de Esquerda, o homem do destino da revolução mundial. O comboio que levava Van era o da história, cujas asas cavalgava já…

 

Os sete anos que passou ao lado de Leon Trotsky contou-os Van, com o recato que o caracterizava, em De Prinkipo a Coyoacán: sete anos ao lado de Trotsky.

 

Os sete anos que passou ao lado de Leon Trotsky contou-os Van, com o recato que o caracterizava, em De Prinkipo a Coyoacán: sete anos ao lado de Trotsky. Que acrescentar ao seu próprio relato? Primeiro, a crise que o abalou com a cisão de La Commune: tal como os jovens militantes da sua geração, Van tinha sido atraído pela personalidade de Raymond Molinier, pela sua intrepidez, combatividade e dinamismo. A condenação de Molinier por Trotsky, o apelo a excluí-lo, surpreenderam-no: ao princípio, os argumentos do Velho não o convenceram. No entanto, ao fim de várias semanas de luta e debate, abandonou o grupo La Commune, um dos pilares do qual era a sua companheira, Gaby, e escreveu a Trotsky, reconhecendo que se tinha enganado. Podemos acreditar nele: convencera-se. Gravara no coração a fórmula “faz o que tens a fazer, aconteça o que acontecer!” Não obstante, o dilaceramento pessoal pesou muito, dele me falou muito e muitas vezes.

Acompanhou Trotsky na viagem e primeiros dias de estada na Noruega, em Junho de 1935, voltou lá na altura do processo de Moscovo, em Agosto de 1936, e das primeiras medidas repressivas do governo de Oslo. Foi nessa época que L’Humanité o tratou de agente fascista, criminoso, assassino, em artigos de que era ele, juntamente com Erwin Wolf, o alvo, os dois corajosos que tentavam quebrar o isolamento de Trotsky exigido por Moscovo. Falou-me das ameaças do órgão do PCF contra Wolf – efectivamente assassinado em Espanha, em 1937 –, mas só quando consultei L’Humanité descobri que as ameaças o visavam também a ele, o que não me dissera.

Durante o período em que Trotsky esteve em França, Van acompanhou-o em grande parte da sua errância entre Barbizon e Domène, nomeadamente em Lyon e Grenoble. E foi também ele o agente de ligação entre Paris e Domène e o seu tradutor cada vez mais solicitado: foi ele quem traduziu a série de artigos mais tarde publicados com o título Où va la France? Em 1936, foi também ele quem traduziu a obra de Leon Sedov5 Livre rouge sur le procès de Moscou. Animador, em 1935, do secretariado internacional da juventude, organizador, em 1936, da greve na France mutualiste, foi pai de “Jeannot”, nascido durante uma das suas estadas em Domène.

Logo que chegou ao México, em 1937, mergulhou no trabalho de arquivo necessário à defesa dos acusados nos processos de Moscovo e ao funcionamento do contra-inquérito da comissão Dewey6. Nos primeiros meses, ao lado de Jan Frankel, realizou um trabalho titânico com os documentos de Trotsky, que tinha feito o seu melhor para guardar e classificar durante os anos passados na Turquia e que conhecia melhor do que ninguém. Era preciso encontrar rapidamente este ou aquele documento indispensável, analisá-lo, reproduzi-lo, ou mesmo traduzi-lo, comentá-lo, transmiti-lo. Em grande parte, foi nos seus ombros que a defesa de Trotsky face à comissão Dewey materialmente assentou. Foi nesta batalha obscura que conquistou a estima de todos os intelectuais americanos ganhos para a defesa de Trotsky.

Após a partida de Frankel, no Verão de 1938, Van já não era apenas o faz-tudo, mas o homem de confiança, o único recurso, o Van-que-resolve-tudo, de quem André Breton deu uma descrição tão acertada quanto comovente no seu discurso de 11 de Novembro de 1938 (“Visita a Trotsky”, Cahiers Léon Trotsky, n.º 12, Dezembro de 1982). Ele, que, à chegada, não falava uma palavra de espanhol, conseguiu, em poucos meses, construir uma sólida rede de relações – sem a qual nada é possível no México – na imprensa e no aparelho do Estado, no mundo político e no universo cardenista7. Tal não o impediu de continuar a intervir como militante trotskista, de escrever artigos teóricos – assinados como Jean Rebel – na revista Clave, que Trotsky inspirou, com a cobertura dos seus amigos intelectuais mexicanos. Era, ao mesmo tempo, amigo de Breton e confidente de Frida Kahlo.

Gostaria, a propósito dos silêncios de Van, de evocar aqui uma anedota relacionada com o texto de Breton que acabei de mencionar e a homenagem que o poeta presta a Van, “revolucionário da cabeça aos pés”, a quem Breton chama “o homem tal como eu o entendo, o amigo em toda a acepção da palavra”. Num dia de Julho de 1982, encontrei em Harvard uma cópia do protesto por ele enviado a Breton, datado de 6 de Dezembro de 1938:

“P.S. – Recebi cartas de vários lados sobre um discurso seu em que se falava de mim. É muito chato.”

É o Van chapado, neste protesto. Com vontade de o picar, copiei a frase e levei-lha à casa onde ocupávamos quartos frente a frente. Ele ainda não tinha chegado; afixei-lhe a cópia à porta e, enquanto esperava por ele, fui trabalhando em casa. Ele veio ter comigo uma hora mais tarde, mas, desta feita, sem vontade nenhuma de sorrir, como eu esperava, mas verdadeira e profundamente aflito por descobrir a que ponto chegava a minha estupidez: como é que eu não tinha percebido como Breton tinha sido imprudente ao dizer que Van trabalhava pelo menos doze horas por dia, que não era pago, apenas alojado e alimentado e que estava longe de Gaby e de Jeannot? Não iria Trotsky pensar que Van se tinha queixado? Confesso que garanti a Van que compreendia perfeitamente e que tinha cometido, de facto, um erro estúpido ao achar piada ao protesto dele a Breton.

Trotsky tinha, de facto, sentimentos de culpa para com jovens como Van ou Jan Frankel, que lhe dedicavam anos de vida — não, evidentemente, por causa dos estudos que perdiam, embora isso também fosse importante aos seus olhos, nem por causa de uma “carreira”, mas simplesmente porque a situação deles ao seu lado, por muito enriquecedora que fosse em certos aspectos, os isolava da vida, do movimento real das massas, alimentando no seu pensamento uma certa abstracção, inevitável no contexto em que se estavam a formar, mas lamentável. Assim, apesar do desagrado por se separar pessoalmente de gente insubstituível – como eram Jan e Van –, ele ficou feliz quando os viu voar finalmente pelas suas próprias asas e viver a sua própria experiência política. A de Frankel terminou com a cisão de 1940. A de Van durou mais tempo; passou-se também nas fileiras do Socialist Workers Party – ele foi “Gerland” na discussão de 1939-1940 –, mas, em última análise, também não foi positiva. Chegou o momento, creio eu, para o historiador dizer serenamente, numa revista científica e sem polémica, o que Van não quis escrever, primeiro porque não o podia fazer sem paixão e, mais tarde, talvez por já não lhe parecer essencial. Falou-me do assunto muitas vezes e longamente, de preferência nos nossos passeios dominicais, mas também à noite, nas belas e frescas noites da Califórnia. Secretário da Internacional, responsável pelo S.I.8 em Nova Iorque a partir de 1940, Van considerava – e considerou até ao fim – que não lhe foram aí proporcionadas condições elementares para o funcionamento de um organismo internacional e que este foi deliberadamente sufocado e paralisado na sua acção, que ele julgava capital, pela má vontade e pela passividade da direcção do SWP. A sua voz – coisa rara – velava-se de indignação quando se referia ao “controlo burocrático” do membro americano do S.I., Bert Cochran (E. R. Frank, ver Cahiers Léon Trotsky, n.º 20), às sessões em que este último embirrava com vírgulas na correspondência, a atrasava sistematicamente, comprometendo-a por vezes, à sua oposição sistemática a qualquer proposta e iniciativa. Van – que era então Daniel Logan, Marc Loris, Ann Vincent – teve desentendimentos ainda mais graves. Ficava seriamente indignado ao falar das audiências que na altura lhe concedeu James P. Cannon, o dirigente do partido americano, o SWP, sobre os problemas teóricos e práticos da IV Internacional, sobre a questão nacional na Europa, o problema das palavras de ordem democráticas, a necessidade de ajuda aos militantes da Europa oprimida. Consciente da enorme responsabilidade que sobre si recaía desde a morte de Trotsky, Van pensava em regressar clandestinamente a França. Assegurou-me amiúde que todas as suas urgentes perguntas nunca tiveram outra resposta, ao fim de horas de apaixonada defesa da Internacional, senão uma série de grunhidos inarticulados e garantias de que “se ia ver”. Nesse período, Van trabalhava para viver e exerceu, de facto, todos os ofícios. Isso, como ele me disse, não impediu Cannon de o acusar de ter “exigências de pequeno-burguês” por causa das horas de reunião com os militantes profissionais do SWP, que não tinham as restrições horárias às quais ele estava sujeito. Sempre lhe ouvi manifestar, acerca desse período, amargura e, por vezes, um certo rancor.

APOIA O MAIO!

Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.

Era, em contrapartida, mais discreto a respeito dos últimos anos da sua actividade militante na IV Internacional, prometendo-me apenas que “um dia” me falaria da sua participação na tendência Goldman-Morrow, uma promessa que não conseguiu cumprir. A partir de 1943, de facto, aliou-se a Felix Morrow e Albert Goldman e, juntos, eles opuseram-se a Cannon, em particular nas questões europeias. Era absurdo, aos seus olhos, imaginar, em 1943 que a revolução socialista iria ocorrer sem transição e vencer logo que o nazismo caísse; achar que, no momento em que o fascismo caía na Itália, era hora de guardar na prateleira das recordações as palavras de ordem democráticas; considerava um erro enorme, a roçar a renegação, ver no avanço do Exército Vermelho, por aplicação mecânica dos textos de Em Defesa do Marxismo, um passo em frente automático da revolução, erro ainda mais grave do que negar pura e simplesmente o papel contra-revolucionário do Kremlin à escala mundial. Não admira, portanto, que só tenha concordado uma única vez com Cannon, que foi quanto à dissolução do S.I. de Nova Iorque no final da guerra e à transferência dos seus poderes para o órgão constituído durante a guerra por Michel Pablo, o secretariado europeu. A questão era, de facto, garantir a independência do órgão supremo da IV Internacional em relação ao SWP, objectivo, aos seus olhos, prioritário. Mas Van não podia continuar a trabalhar com o S.I.: com o serviço militar suspenso, mobilizado de facto ao serviço de Trotsky e depois da Internacional, encontrava-se em situação irregular perante o Exército francês, e o caso, embora não tivesse gravidade, só pôde ser resolvido anos mais tarde.

Em 1948, após a exclusão dos seus camaradas de tendência do SWP, Van rompeu com a IV Internacional e com o marxismo. Nunca me quis falar dessa ruptura e nunca me disse mais do que o que escreveu nas suas memórias, na página 211, muito menos, pois, do que escrevera na Partisan Review de Março de 1948, com a assinatura de Jean Vannier, sobre o balanço do século decorrido desde a redacção do Manifesto do Partido Comunista.

Van só regressou à Europa em 1957, a pedido da Universidade de Harvard, em busca dos documentos dos arquivos Sedov, vendidos, mas não entregues, por Trotsky a Harvard, e que Natalia9 se tinha comprometido a recuperar. Conheci-o pela primeira vez no final dos anos 60 no Select Hôtel, na Place de la Sorbonne, num quarto onde mal cabiam duas pessoas sentadas, que era o seu pouso durante as suas breves estadas da época. Voltámos a ver-nos várias vezes depois disso, em Cambridge (Ma), onde ele me guiou, inicialmente para a “parte aberta”, mas também em Domène, em Paris, em Follonica, no México e, finalmente, em Stanford – para terminar em Grenoble, no passado dia 26 de Fevereiro, por ocasião da defesa da tese de Olivia Gall, onde, apesar do cansaço extremo, soube cativar com o seu charme uma centena de pessoas, jovens e velhos.

Quando eu não o estava a interrogar como a testemunha-actor de que precisava, ele soltava-se por vezes, evocava os terríveis anos 30, o dever sagrado de escrever uma história dos bolcheviques-leninistas russos, a tendência política mais perspicaz e heróica da história, a necessidade de fazer compreender às gerações mais jovens o pesadelo desses anos de 1936 a 1940, dos combatentes encurralados entre os assassinos de Estaline e os de Hitler, o desespero, o medo dos homens perseguidos, os assassinatos que se sucediam e os assassinos à espreita na sombra ante uma opinião pública indiferente. Bastava uma breve informação, um elemento político, por ténue que fosse, para reactivar nas engrenagens múltiplas do seu cérebro a máquina da política e ouvi-lo manifestar uma paixão que estava apenas enterrada: a Polónia foi uma dessas ocasiões, a partir da greve de Gdansk. Devorou, explicou, interrogou, acabando por perguntar em voz alta a si mesmo se, contrariamente a tudo o que tristemente pensara há tantos anos, este movimento operário ressurgente na Polónia não seria a andorinha que anunciava a Primavera, a morte do estalinismo sob os golpes dos trabalhadores.

No entanto, já não queria “falar de política”. Razões de simples moralidade o levaram, dizia, a aceitar testemunhar no processo instaurado por causa das odiosas calúnias a Joseph Hansen, assim contribuindo para a condenação dos caluniadores pelo tribunal de Los Angeles.

Do mesmo modo, interviera, nas décadas anteriores, nos Estados Unidos, após a prisão como agentes da GPU dos irmãos Sobolevicius – Roman Weil e Adolf Senine, no movimento – e de Mark Zborowski, o famoso “Étienne”, infiltrado pelos serviços de Estaline junto de Sedov, esforçando-se por conseguir que fossem interrogados sobre a preparação do assassinato de Trotsky e a execução dos de Reiss10 e Sedov. Os seus esforços neste ponto não foram coroados de êxito, o que o afligia. O mais importante contributo que, como não militante, deu para a história do movimento que ajudara a construir foi o enorme trabalho que consagrou, durante anos, às dezenas de milhares de documentos desses “Trotsky Papers”, os arquivos de Trotsky depositados em Harvard, que identificou um a um com o meticuloso cuidado de arquivista que já mostrava na altura em que, em Prinkipo e Coyoacán, assegurara a sua conservação e datação. Sem ele, sem esse trabalho imenso, parte significativa dos documentos hoje identificados, classificados, muitos deles traduzidos, publicados e comentados, não passaria de um amontoado de papéis velhos e incompreensíveis. A sua tarefa nesse sentido foi felizmente mais fácil em Stanford, nos arquivos da Hoover e nos papéis de Sedov. Nunca esquecerei a emoção, a alegria, que fazia a sua voz cantar, quando me anunciou ao telefone que tinha acabado de rever as famosas cartas do Velho a Liova11, com os seus longos P.S. manuscritos nos originais dactilografados, que ele dera por perdidos para sempre, mas ressurgiam no fundo Nikolaievsky.

A princípio reservado, sempre cauteloso, Van depositou confiança em mim, creio, quando leu o meu primeiro livro. A minha existência e a minha capacidade de trabalho davam-lhe o ensejo de pousar um fardo que começava a ficar pesado. Embora se tivesse sempre recusado a que o seu nome aparecesse, era ele, como eu lhe dizia em tom de brincadeira, “a eminência parda” ou “a alma danada” do Instituto Leon Trotsky, o inspirador exigente e, em simultâneo, conselheiro insubstituível das Œuvres e dos Cahiers Léon Trotsky. O trabalho do Instituto, os meus trabalhos pessoais, têm uma enorme dívida para com ele, que ele, infelizmente, já não nos pode impedir de assinalar. Gostaria, neste aspecto, de trazer à colação um facto curioso. Ano após ano, creio ter notado que ele já não se lembrava de episódios importantes que me tinha contado pessoalmente. Cedo me tive de render à evidência e, apesar do espanto inicial, admitir que ele se esquecia precisamente do que me tinha contado. Depois de ver e rever, disse-lho com cautela. Surpreendeu-me pela sua sorridente auto-satisfação: disse ser uma máquina muito bem afinada, que, ao envelhecer, resolvia assim o problema da sua sobrecarga, só se desfazendo daquilo que tinha a certeza de saber preservado. O mais surpreendente é que era verdade. Van era uma das mais belas máquinas intelectuais que me coube conhecer e admirar.

O Van que conheci já não era o Van que os polícias de uma pequena cidade do Midwest tinham detido por alguns dias porque a sua aparência de estrangeiro lhes parecera suspeita. Já não era o homem que tinha vivido de mil e um ofícios, do ensino de francês na Berlitz ao fabrico de prateleiras para arrumar os livros dos camaradas e a reparações de canalizações. Já não era o homem que construía ele próprio a sua cabana de férias e conhecia cem maneiras de preparar uma lagosta que não fora paga. Era o pai de Laure, filha da sua companheira norte-americana, Bunny, que conhecera em Coyoacán. Era um professor universitário de nomeada. Na década de 1950, ingressara no Departamento de Matemática da Universidade de Columbia, em Nova Iorque e, de 1965 a 1979, fora professor de Filosofia e História da Lógica na Universidade de Brandeis, em Waltham (Massachusetts). Em 1967, publicara uma obra de lógica matemática (From Frege to Gödel. A Sourcebook in Mathematical Logic) que lhe valeu uma real notoriedade entre os especialistas. Houve outros que, aliás, disseram quem foi Van, o matemático, e, sobretudo, Van, o lógico – talvez um dia seja possível reunir as homenagens num testemunho comum de homenagem à inteligência em todas as suas formas. Foi ele um dos especialistas que empreenderam a publicação póstuma dos artigos do grande lógico Gödel e, no ano passado, ele integrou a equipa do CNRS que retomou o seu projecto de publicação integral dos trabalhos do matemático francês Herbrand, falecido acidentalmente muito jovem. Não creio que exista congresso mundial de especialidade científica alguma em que Van não se sentisse no seu lugar e à vontade. Desconhecido do grande público, mesmo no México, onde viveu durante anos e onde a imprensa falou da morte de um “rico (!) homem de negócios de origem holandesa”, Van era apreciado em todo o mundo por muita gente competente e por amigos certos. Não havia cidade importante nem continente onde ele não pudesse ter pouso ou convite.

 

Toda a fortuna deste homem estava na sua cabeça e nas suas mãos, com as quais fazia, aliás, exactamente o que quisesse: o sábio que teria sido artesão ou artista da especialidade que quisesse

 

Aconteceu-me fazer piadas com o Van por ele transportar de um continente para o outro malas enormes e pesadas. Mas ninguém sabe que este homem, que ia, assim, de um dos seus filhos para o outro, de uma das suas pesquisas, de um dos seus escritórios para o outro, carregava nos braços metade dos seus bens. Durante os anos que antecederam e se seguiram ao seu 70.º aniversário, viveu em dois quartos de estudante, em Cambridge e depois em Menlo Park, com uma mesinha, duas cadeiras, um despertador, um rádio, o computador que ele próprio – sua última paixão – tinha montado, a sua velha máquina convertida em “impressora” e o seu caderno de endereços – um Gotha da inteligência – com o dossiê “especial”. O seu luxo – de que não pouco se orgulhava – era ter dois gabinetes em duas universidades diferentes, um em Pusey, em Harvard, e outro no Departamento de Matemática de Stanford, com algumas dezenas de livros, pastas, a sua correspondência e uma cama de campanha para a sesta. Toda a fortuna deste homem estava na sua cabeça e nas suas mãos, com as quais fazia, aliás, exactamente o que quisesse: o sábio que teria sido artesão ou artista da especialidade que quisesse.

Que o leitor me perdoe por apenas indirectamente ter tratado do “amigo”: mas como outra coisa seria possível, quando escrevo estas linhas poucos dias depois de tomar conhecimento desta perda irreparável e quando ela é Van? O “belo sorriso claro” de que falava André Breton em 1938 foi apagado para sempre. Subsistirá apenas, por mais alguns anos, na memória de quem o amou. Van gostava de dizer que, entre as centenas de milhões que somos, as diferenças individuais não passam de gradações infinitesimais. Incontestavelmente, tinha razão. Rendamo-nos, porém, a esta evidência: ele é insubstituível. 

Em nome da equipa do Instituto Leon Trotsky, da qual sou aqui o porta-voz, em nome de todos aqueles que não conheço, mas que, tenho a certeza, me dão procuração para o fazer, saúdo-te, meu amigo Van, e agradeço-te pelo que foste e pelo que continuarás a ser para nós, quando a insuportável dor se tiver atenuado: como Breton sabia, foste o homem que nos consolou de tantos outros.

Tradução e notas de Adriano Zilhão. O artigo de Pierre Broué é de 14 de Maio de 1986.

1“Ilha do Príncipe”. no mar de Marmara, perto de Istambul, primeiro local de exílio de Trotsky depois da sua expulsão da URSS em 1929.

2 Bairro na Cidade do México onde Trotsky viveu o seu último exílio, antes de ser assassinado por um agente da GPU de Estaline.

3 Boche: designação depreciativa dos Alemães em França.

4 Raymond Molinier, militante comunista francês, um dos fundadores da Oposição de Esquerda em França.

5 Leon Sedov: filho de Leon Trotsky e de Natalia Sedova, membro da Oposição de Esquerda, tornou-se, com o exílio do pai, no seu mais estreito colaborador. Morreu em 1938 em Paris, na sequência de uma operação à apendicite, envenenado pela polícia secreta de Estaline, a GPU (mais tarde o KGB).

6 A Comissão Dewey, presidida pelo filósofo norte-americano John Dewey, foi uma comissão de inquérito independente às acusações feitas a Leon Trotsky nos processos de Moscovo, formada em 1937. As suas conclusões foram publicadas num livro com o título Not Guilty!

7 Lázaro Cárdenas foi presidente do México de 1934 a 1940 e grande impulsionador da reforma agrária no país. Foi durante a sua presidência que Leon Trotsky encontrou no México o seu último refúgio, depois de expulso de vários países europeus, nomeadamente por pressões do Kremlin.

8 SI: O Secretariado Internacional da IV Internacional.

9 Natalia Sedova, militante bolchevique russa, mulher de Trotsky, mãe de Leon Sedov.

10 Ignace Reiss, militante comunista polaco-ucraniano, tornou-se membro dos serviços de informação da União Soviética. Em 1937, face à liquidação geral do partido bolchevique pela clique estalinista, Reiss, então em Paris, enviou uma carta a Estaline e ao CC do PCUS em que, devolvendo as suas condecorações, denunciava as purgas e declarava juntar-se a Trotsky e à IV Internacional. Foi assassinado por agentes da GPU na Suíça, onde se escondera, poucos meses depois.

11 Liova é o diminutivo russo de Lev’ (“Leão”), nome de Trotsky e do filho, Sedov.