Jornal Maio

Uma peça de teatro “escandalosa”

Wagner, a Arte da Fuga, de Ana Rocha, descreve as ideias musicais e políticas do jovem Wagner em 1849, aquando da sublevação da população de Dresden contra o rei da Saxónia, e o seu encontro com personagens como Bakunine e Marx.

Miguel Real

Miguel Real

Ensaísta

Ana Rocha acabou de publicar nova peça de teatro, Wagner A Arte da Fuga.

Em 2021, desenhara a vida de Antero de Quental numa outra peça, Antero Q., em que apontava ficcionalmente os três limites existenciais deste filósofo, visando um “Antero em carne e osso”: a doença enigmática que o atacara fortemente em 1874; a partida  para Paris para consultar o médico Charcot em 1877, a paixão pela Baronesa Nelly, que conhece na clínica hidroterápica de Bellevue, senhora igualmente paciente de Charcot, e finalmente o conhecimento fictício do revolucionário clandestino Blanqui, ou seja, os limites sexuais (a cena com Nelly), os limites mentais (a cena com Charcot, traumas da educação da infância por via da devoção religiosa da mãe de Antero) e os limites revolucionários (episódio com o radical Blanqui). A peça foi representada pelo Teatro da Garagem, encenada por Carlos J. Pessoa e foi objeto de uma apresentação na Suíça.

Wagner, a Arte da Fuga descreve as ideias musicais e políticas do jovem Wagner (35 anos) em 1849 aquando da sublevação de população de Dresden contra o rei da Saxónia. Para além de Wagner, são personagens Minna Planer, sua jovem mulher, os revolucionários Bakunine e Karl Marx, o advogado Heubner e o colecionador italiano de arte Poldi-Pezzoli. O ambiente é revolucionário, com barricadas da população contra o exército prussiano, que tinha invadido a Saxónia. Ao longo de todo o século XIX, a Prússia, com capital em Berlim, institui-se como a vanguarda da contrarrevolução na Europa. É o exército prussiano que esmaga a Comuna de Paris em 1870. 

No primeiro ato, Wagner discute com Minna. Esta protesta por o marido ter abandonado o cargo de Kappelmeister da corte da Saxónia, cargo bem remunerado, e agora só tem batata para servir às refeições, e já há população que come batata com besouros. Neste ato surge a figura exótica do papagaio, com o qual Wagner vai viajar. Simbolicamente, a união entre Wagner e o papagaio deve querer significar que o músico se sente no ambiente aristocrático da corte como o papagaio se deve sentir preso numa gaiola e no frio gelado da Saxónia. Mas em casa ou em viagem, o papagaio deve ser encarado como uma personagem, sobretudo na encenação. Wagner conta a sua esposa que os seus músicos trocaram os seus instrumentos musicais por fuzis e ele próprio conclama que a aristocracia e o rei “odeiam a democracia e o povo! Mas, finalmente, a aristocracia vai acabar! Nós, os plebeus, vamos destituir os nobres! Que não podem impor que nós voltemos a ser servos! Declaro a Saxónia livre!! (p. 12).

A mobiliação é geral e as duas fações são inconciliáveis. 

No II Ato, desenrola-se uma conversa entre Wagner e o revolucionário russo Bakunine, perseguido pelas polícias de toda a Europa. Aqui são feitas declarações “escandalosas” contra o casamento, tendo por base os livros de Schopenhauer. A revolução de Dresden atraiu Bakunine, que já tinha ouvido falar das reivindicações políticas de Wagner: “a abolição da aristocracia e a demolição da monarquia” (p. 20). Wagner explica a Bakunine os símbolos revolucionários que usa no Tannhaüser, bem como no Navio Fantasma: “A minha música revela estado de alma que nunca as palavras poderão traduzir” (p. 34). Wagner ataca a música de Rossini, de Meyerbeer e de Spontini “e toda essa tralha de música que eu considero ligeira (…) Em Paris toda aquela gente escreve óperas. Ora, eu não escrevo ópera. Escrevo dramas musicais” (p. 31). 

 


Através das minhas óperas farei compreender aos homens da revolução qual o sentido dela.

 

Bakunine defende que o amor e o casamento são incompatíveis. Wagner concorda, o coito com a sua mulher Minna perdeu o encanto: “A verdadeira mulher ama incondicionalmente, como as personagens nas minhas quatro óperas Tristão e Isolda ou O Amor Proibido, Rienzi, Tannhaüser e O Holandês Voador ou O Navio Fantasma. Ambos estão de acordo com Schopenhauer: “O casamento é um pesadelo” (p. 35).

Wagner, porém, acredita em mulheres-anjo, “figuras femininas inocentes e infantis como a minha Senta n’ O Holandês Voador e também a minha Elsa no Lohengrin, a mulher do cisne prateado” (p. 30), que surge desenhada na capa do livro. Bakunine comenta: “O senhor fala-me de música e eu falo-lhe de revolução, que, para mim, é o Absoluto”. Wagner responde: “Para mim, o Absoluto é a minha música” (p. 39). 

No III Ato junta-se a ambos o advogado Heubner, outro dos cabecilhas dos revolucionários de Dresden. Estão numa paragem da diligência que lhes permitirá a “fuga”. Wagner faz-se acompanhar do papagaio, os restantes passageiros protestam, mas Wagner não parte sem o seu papagaio. Este assobia a música de Beethoven, o final da quinta sinfonia e grita: “Mau Richard, Richard, Richard!” Segue também um colecionador de arte italiano, Poldi-Pezzoli, que se encontra em Dresden para comprar a Madonna de Rafael, personagem que representa o colecionismo italiano de arte, que é privado, e que é capaz de tudo para possuir o objeto de arte que ambiciona. É melhor não entrar na diligência, “Somos vistos, diz Bakunine, como republicanos, jacobinos, anticlericais, socialistas e anarquistas, e sei lá mais o quê.”  Heubner confirma: “E como ateus, perigosos ateus (…) Queremos abolir a monarquia e acabar com os privilégios da aristocracia.” Wagner acrescenta: “e vamos com um perigoso anarquista russo que quer destruir tudo”. Bakunine comenta: “Eu quero destruir tudo. A única coisa que profetizo é que haverá um incêndio mundial e que nada será conservado” (p. 42).

No último ato, sai da diligência a personagem italiana e entra Marx, que conflitua com Bakunine. Marx diz que “É agora ou nunca. A escravatura ou a liberdade. Sem capitulação.” Marx tinha estado numa barricada “e agora, tal como os senhores, estou em fuga. Arrisquei a vida, mas senti bem acesa a revolução de Dresden” (p. 56). Bakunine continua a embirrar com o papagaio e ameaça de um dia ainda comer língua frita de papagaio. 

Marx reconhece Wagner e louva-o pelas posições políticas que assume. Wagner justifica-as (talvez a frase mais importante da peça): “Só depois de uma profunda transformação social e política na Saxónia poderei pensar nos artistas e preparar o público para compreender a minha revolução musical. Através das minhas óperas farei compreender aos homens da revolução qual o sentido dela. O público atual não consegue compreender a minha música do futuro, os meus dramas musicais” (p. 58).
De repente, o cocheiro para – vê-se ao longe uma barricada prussiana.
Wagner pega na gaiola do papagaio e sai, com os restantes três revolucionários.

Já com três peças no ativo (a primeira, que não conhecemos, intitula-se A Origem do Mundo, quadro de Courbet, tão provocadora quanto esta), com o jovem Wagner, auxiliado por Bakunine e por Marx a querer destruir a aristocracia e a monarquia, as duas elites políticas e económicas mundiais e a contestar o casamento burguês, esta peça a ser representada só não é escandalosa porque no nosso tempo já não nos escandalizamos com nada. 

Parabéns, Ana!

1 Cf. Ana Rocha, Antero Q., Porto, Adab / Ed. Húmus, 2021, p. 123.

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