Jornal Maio

Trump vê Leão XIV como um aiatola

Na sua verborreia de ameaças, Trump atacou o Vaticano e o Papa, porque Leão XIV “não está a fazer um bom trabalho. Acho que ele gosta de criminalidade”. Daí que deva ser necessário libertar o Vaticano deste “aiatola” do estreito da Basílica de São Pedro para deixar passar os petroleiros da instrumentalização da fé.

Padre José Luís Rodrigues

Padre José Luís Rodrigues

Padre da Diocese do Funchal

As loucuras de Donald Trump começam a complicar-se para ele e, por arrasto, para os Estados Unidos da América (EUA). 

Os narcisistas são assim mesmo, querem tudo à sua vontade, e quando tal não acontece disparam ameaças estapafúrdias sobre tudo o que não esteja à medida das suas obsessões.

O Papa, personalidade universal e serviço mundial, não pode submeter o discurso à mera vontade de uma tendência, uma doutrina ou ideologia política e muito menos pode acertar o passo às manias de um governante, ainda mais se nos parece revelar sinais demenciais e, quiçá, rasgos de ensandecimento.

É verdade que o mundo corre riscos sérios de reacendimento da criminalidade, terrorismo e insegurança. Mas tais males não se combatem com métodos belicistas tão ao gosto dos terroristas e dos criminosos. Esta capa tem servido a Trump e aos seus aliados, principalmente Israel, para levar a cabo verdadeiros genocídios que vemos em direto na comunicação social. 

A destruição de Gaza e do Líbano, onde são feitos bombardeamentos diários, fazem paisagem de destruição de infraestruturas, sofrimento e morte de inocentes. Nada pode justificar a loucura e estupidez da guerra.

O presidente dos EUA desta vez foi longe de mais. Tem revelado intranquilidade face à resistência do Irão e deve estar perante um beco sem saída. 

Não governa, desgoverna a América e desconcerta o mundo inteiro com ameaças a tudo o que não corresponda às suas mediocridades infantis. Na sua verborreia de ameaças atacou o Vaticano e o Papa, porque Leão XIV “não está a fazer um bom trabalho. Acho que ele gosta de criminalidade”. Daí que deva ser necessário libertar o Vaticano deste “aiatola” do estreito da Basílica de São Pedro para deixar passar os petroleiros da instrumentalização da fé, que Trump e os seus discípulos consideram transportar para dentro e para fora do Vaticano como se fossem negócios de petróleo.

Donald Trump caiu num ridículo penoso e mostrou como anda perdido da cabeça. A figura do Papa não deixou de ser uma força moral mundial, mesmo que acuse um passado negro de misérias, mas pelo que temos assistido nas últimas décadas, os papas não se desviaram do centro da sua razão de ser, têm feito valer o exemplo da figura de Jesus Cristo e os seus ensinamentos contidos nos Evangelhos.

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Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.

A resposta do Papa Leão XIV às investidas de Trump é bem contundente: “Não sou político, falo do Evangelho”, acrescentando que não pretende alimentar polémicas nem responder diretamente ao presidente norte-americano. E sublinhou: “Não acho que a mensagem do Evangelho deva ser deturpada da maneira como algumas pessoas estão a fazer”.

Disse claramente que Trump deve colocar-se no seu lugar, a sua posição e serviço tem mais projeção moral que o governante dos Estados Unidos da América, mesmo sendo um desmedido egocentrista.

Esta polémica entre o Papa e o governo de Donald Trump revela a fragilidade do governante da América, mas pode marcar uma viragem no pontificado deste papa. 

Até ao momento temos visto como tem sido ténue a presença do Papa nos meios de comunicação social e como a sua mensagem tem estado bastante apagada do mundo mediático. Pode ser que a firmeza de Leão XIV comece a impor o seu estilo e sobressaia a sua marca como paladino da paz e fraternidade mundial.

Neste âmbito da polémica gostaria que não se estivesse a discutir assuntos de cariz estritamente religiosos, mas que os líderes mundiais, particularmente os europeus, estivessem a fazer frente a Donald Trump e a mostrar que o seu desrespeito pelas normas internacionais, pelos direitos humanos e pela soberania dos povos não tem cabimento no multilateralismo e no direito internacional.

 

A mensagem cristã central, como fez questão de reiterar o Papa, permanece a mesma: a paz.

 

Porque outros não falam, com medo ou por interesses mundanos, o Papa falou e vincou cabalmente qual é a sua missão e qual o mote que o guia: “Continuo a falar com força contra a guerra, buscando promover a paz, incentivando o diálogo e o multilateralismo entre os Estados para encontrar soluções para os problemas.” E acrescentou um alerta: “Muita gente está a sofrer hoje, muitos inocentes foram mortos e acredito que alguém precisa de levantar-se e dizer que existe um caminho melhor.”

A mensagem cristã central, como fez questão de reiterar o Papa, permanece a mesma: “A paz. Digo isso a todos os líderes do mundo, não apenas a ele: vamos acabar com as guerras e promover a paz e a reconciliação. Chega de idolatria do ego e do dinheiro! Chega de demonstrações de poder! Chega de guerra!”

Muitos ao lado de Trump combatem este alinhamento cristão com designações reveladoras de um analfabetismo confrangedor: “posições esquerdistas”, “demasiado liberalismo” e, no caso do Papa Leão XIV, para Trump, “é fraco”, “contra o combate ao crime” e “demasiado liberal”.

Nada disto basta para travar o que importa para não sair do centro, que terá de ser sempre a simplicidade e o amor, contra o barulho da divisão do ódio que muitos neste mundo entendem ser o único caminho para vencer.