Jornal Maio

Sector automóvel: a batalha da Alemanha

Publicamos neste número do Maio uma resolução recentemente adoptada pelos delegados sindicais da fábrica-mãe da Mercedes-Benz em Estugarda na Alemanha. O seu título “Já basta! Protestar, resistir, greve! Os patrões querem luta de classes? Muito bem, vão tê-la!” não é o tom habitual que se espera na Alemanha da “co-gestão” e do “pacto social”.

O que se passa?

A revista alemã de negócios Manager Magazin revelou há dias planos que circulam na administração do grupo Volkswagen. Em causa: duplicar de 50 para 100 mil a redução de efectivos já antes anunciada até 2030. Um em cada seis empregados à escala mundial. 

A página em linha Börse Online informou depois da confirmação dos planos por um porta-voz do grupo: “O grupo, incluindo as suas marcas e empresas, vai ter de passar por uma transformação profunda.” Em Julho, o Conselho Fiscal deliberará definitivamente. Não se conhecem pormenores exactos, mas pelo menos quatro fábricas alemãs do grupo estarão ameaçadas de encerramento. 

Nos últimos seis meses, a cotação da acção da VW perdera quase metade do valor. Claramente, os “mercados” exigiam medidas. Às medidas anunciadas reagiram “positivamente”.

O Governo alemão, uma coligação entre a CDU democrata-cristã e o SPD social-democrata, anunciou, também há poucos dias, um compromisso entre os dois partidos em matéria de “reforma“ do sistema de pensões. O compromisso introduzirá no sistema público distributivo, pela primeira vez, um “pilar obrigatório” de capitalização, nisso seguindo os planos em desenvolvimento sob a batuta da comissária Maria Luís Albuquerque para toda a UE. O Governo português prepara-se também, daí a reacção de Montenegro à conversa de Ventura sobre a idade das pensões.

No passado mês de Fevereiro, expúnhamos aqui no Maio os planos em desenvolvimento na Alemanha (e na Europa em geral) para desmantelar um a um os pilares do chamado “Estado social”, ou seja, as conquistas conseguidas pelos trabalhadores — e engolidas pelos governos capitalistas para evitar “males piores” — durante um século de greves, revoluções e lutas. 

Estes pilares são, sobretudo, os sistemas de segurança social, incluindo a saúde pública e o sistema de pensões distributivo baseado no salário diferido, mas também o ensino público e universal baseado no saber, para formar cidadãos. 

A crise do capitalismo mundial, aprofundando-se sem cessar, decreta: tudo isso é muito caro, corte-se!

Mas os planos incluem, também, o desmantelamento da “velha” base industrial “obsoleta”, de que a Alemanha é o mais proeminente representante na Europa. O novo rumo é: a todo o vapor para a “IA” e a economia de guerra.

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Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.

O desenvolvimento rápido da indústria chinesa, bem como os planos de guerra — para já aduaneira e comercial — do imperialismo americano contra a China precipitaram os acontecimentos. O grande capital industrial alemão está numa situação sem saída. Os novos entraves ao comércio livre à escala mundial rasteiraram a economia alemã, que assentava na exportação de bens e maquinaria industrial para todo o mundo a partir da energia barata fornecida pela Rússia e à sombra do guarda-chuva militar do Pentágono. A economia alemã estagna há quase dez anos. 

No entanto, o dilema das cúpulas bancárias e industriais e, agora, políticas, da Alemanha e da Europa é muito difícil. É preciso reduzir drasticamente os “custos”, disso não restam dúvidas; para isso, é preciso reduzir os salários, tanto os salários directamente pagos aos trabalhadores, como o salário indirecto advindo da saúde e do ensino públicos, o salário diferido que são as pensões… Mas como fazê-lo, quando a classe operária alemã é a mais forte e organizada da Europa? Quando o partido que tradicionalmente a representa (o SPD) faz parte do governo? Não serão os previsíveis “conflitos sociais” daí resultantes e mesmo a presumível auto-imolação da social-democracia, a administradora ideal da “paz social”, um risco e um preço demasiado altos a pagar?

Quando o grupo VW fez o seu primeiro anúncio de reduções drásticas de salários e de despedimentos, no Outono de 2024, a resposta dos operários foi imediata e em massa. Assustada, a administração fez um acordo com os representantes dos trabalhadores, estendendo até 2030 a proibição de despedir em troca de uma certa “moderação” nos aumentos salariais. 

A trégua mal durou um ano. 

Mas não é só a VW. A Alemanha sangra actualmente postos de trabalho industriais ao ritmo de 16 mil por mês. O gigante siderúrgico ThyssenKrupp fecha fábricas de antiquíssima tradição e despede com abandono. Grandes fornecedores do sector automóvel, nomes como Schaeffler, ZF, Bosch, etc., anunciam e executam encerramentos de locais de produção. Sucedem-se as falências no Mittelstand (a média indústria alemã especializada, designadamente, no fabrico e exportação de maquinaria especial sofisticada).

 

A Alemanha sangra actualmente postos de trabalho industriais ao ritmo de 16 mil por mês.

 

Ninguém está a salvo. Ao fim de mais de um ano de “impasse”, em que o chanceler Merz era atacado de todos os lados pela sua incapacidade de “reformar”, o anunciado compromisso entre os partidos do governo em matéria de contra-reforma das aposentações, baseado na capitulação da social-democracia, representa um toque das trombetas para o grande assalto à classe trabalhadora alemã. 

Depois do plano Draghi de 2023, a burocracia de Bruxelas trabalha a todo o vapor no desenho de planos de desmontagem, desmantelamento e destruição de tudo o que, na sequência da II Guerra Mundial, permitiu que sectores significativos das classes trabalhadoras dos países mais desenvolvidos da Europa pudessem ter uma vida relativamente tolerável.

A resolução dos delegados sindicais de uma das fábricas em que nasceu a indústria automóvel é um sinal de que a classe operária alemã e europeia não conta render-se sem dar batalha.