Jornal Maio

Captura híbrida por IA

Quando a minha colonoscopia coincide com a endoscopia, antes que a anestesia me apague, eu me divirto fazendo o médico ruborizar: Então, doutor, hoje é dia de dupla penetração?

Hoje são muitas as discussões sobre o uso da inteligência artificial. A minha neta de cinco anos, com a mesma certeza que ela tem de que eu sei fazer quase tudo, também já indica o uso da IA para solucionar os problemas que eu não sou capaz. Assim, com intimidade, ela diz: “Se a vovó não faz, a IA faz.” Maravilha de mundo: o que não puder ser feito pela avó será feito pela IA. Eu não me atrevo a contestá-la. Confesso que ainda não sou capaz de fazer análises sobre esta senhora, porque para fazer perguntas sobre qualquer coisa precisamos conhecê-la minimamente. Ora, se eu não sou capaz de perguntar, como vou responder, fazer afirmações? Contudo, se me permitem, eu tenho pensado que a IA pode vir a ser aplicada num procedimento que é particular às mulheres.

Sem querer excluir os meus leitores masculinos – se é que os tenho –, devo avisar que vou tratar de um assunto feminino. Não inclui todas as mulheres, mas convém à parte não imediatamente interessada ficar de orelha em pé. 

A partir de uma certa idade, não sei precisar, até porque há controvérsias, a saúde da mulher requer uns determinados exames. Ah, lembrei que um deles também é imposto aos homens. Dessa imposição deve vir o enunciado “quem tem cu tem medo”. Refiro-me à colonoscopia. Quem já a fez sabe que não me refiro especificamente ao constrangimento da invasão do nosso corpo, porque na hora da realização do exame, o/a paciente – com muita paciência – já está anestesiado/a.

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Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.

O sofrimento verdadeiro acontece no dia anterior, por conta dos efeitos de uma dose cavalar de laxantes, que nos põe repetidas vezes no trono, em posição idêntica ao Pensador de Auguste Rodin. Se eu acreditasse em profecia, diria que o escultor francês ao criar O Pensador, parte da monumental obra As Portas do Inferno, já previa o inferno a que seríamos submetidos na colonoscopia. Que miserável associação!

Eu peço desculpas. As Portas do Inferno, iniciadas em 1880 e trabalhadas ao longo de quase 40 anos, são um conjunto de esculturas de bronze que reúnem mais de 180 figuras humanas e foram inspiradas no Inferno da Divina Comédia de Dante Alighieri. Nada a ver com a colonoscopia, que surgiu na segunda metade do século XX e que visa tão somente a completa limpeza do intestino, para que o médico consiga visualizar a mucosa do cólon e detetar lesões, pólipos ou cancro.

Voltemos à IA e à sugestão que eu gostaria de poder fazer ao sistema de saúde pública. Quem já fez uma captura híbrida para HPV ou outros exames que requerem a visualização de estruturas microscópicas do colo do útero vai considerar plausível a minha reivindicação. 

 

Nenhuma mulher, nem no seu momento mais íntimo, se expõe tanto quanto nestes exames médicos.

 

Nenhuma mulher, nem no seu momento mais íntimo, se expõe tanto quanto nestes exames médicos. A gente sente vergonha, constrangimento, mal-estar, às vezes, cansaço, quando a dobradiça que conecta o fémur, a tíbia e a patela já passaram do prazo de validade. Posso garantir, é o meu caso. Na minha última experiência, o médico tinha o mesmo nome de um famoso compositor e pianista alemão. Para quebrar a barreira inicial perguntei a razão do nome, se os pais ouviam música clássica, se, se e se. Ao meu lado, uma enfermeira silenciosa, numa atitude de quem sugeria confiança e tranquilidade. O médico, por sua vez, durante todo o procedimento, quando não me dava explicações, cantarolava. Parecia dizer “relaxe”, já estou careca – era mesmo careca – de ver essa coisa escancarada a olhar para mim. Não sabia ele que o meu problema não era ela estar a olhar para ele, ao contrário, era ele a olhar para ela e a folheá-la como se foram as páginas de um livro. Pior, parecia um daqueles livros que a gente insiste na leitura, na tentativa de salvar o autor. Olhava sem nenhuma emoção. Virava pra lá, virava pra cá, lia, relia, metia-lhe uns ferros, coletava, registrava e ainda descrevia aquela imagem rosada refletida no monitor que estava à minha frente. Cansada da posição, morta de vergonha, tudo que eu desejava era fechar as pernas, vestir a minha roupa, sair dali e nunca mais cruzar com aquele médico. Mas ainda tive que fazer o esforço de sorrir e agradecer. 

Pois bem, não seria justo que a IA atuasse nessa área? Como disse, eu quase nada sei sobre a tal IA. Alguém poderia me dizer se a dita cuja tem condições de livrar a nós mulheres desse constrangimento? Mas, antes, convém perguntar quem substituiria o médico. Seria um monte de ferro a mover ferramentas? Um sósia do Brad Pitt ou do Javier Bardem? Poderíamos escolher o fundo musical? Teríamos direito a expressar fantasias? Por favor, que a emenda não seja pior que o soneto. Na dúvida, enquanto não nos forem garantidas as condições que merecemos, é mais seguro continuar com o conhecido ser humano. Já sabemos das suas (in)capacidades.

Mas para não deixar de borla o meu constrangimento, ao menos de um médico eu me vingo. Quando a minha colonoscopia coincide com a endoscopia, antes que a anestesia me apague, eu me divirto fazendo o médico ruborizar: Então, doutor, hoje é dia de dupla penetração?

Maria Augusta Tavares​

Maria Augusta Tavares​

Investigadora do trabalho