À procura de mim
Não sei se é possível, nem sei se quero catalogar em ordem alfabética e dispor em gavetas coisas como abandono, amantes, amigos, amor, casamento, divórcio, filhos, marido, pai, mãe, paixão, saudade, sexo, vida, morte.
Era um longo e estreito corredor, com pé-direito elevado, aparentemente fechado por todos os lados. Lugares fechados me causam medo. Nas viagens de avião, só uso o banheiro quando a necessidade se torna insuportável. Mesmo sabendo que é provável haver alguém à porta, temo ficar trancada e esquecida. Por isso, antes de começar a tarefa que eu me propusera fazer naquele lugar, eu precisava localizar uma saída. Não encontrei uma porta, uma janela, um fundo falso. Sabia que esse limite ia interferir na minha busca, me deixar mais tensa, mas eu tinha pressa, acharia a saída depois.
Nas paredes, centenas de gavetas enfileiradas, por todos os lados. Em ordem, aparentemente. Estou à procura de um objeto, que eu não conheço suficientemente para dizer com exatidão o que estou a buscar. Parece paradoxal, mas para fazer perguntas sobre alguma coisa é preciso conhecê-la. A minha proximidade com o objeto ainda é escassa para indicar seguramente o que estou a procurar. Só sei que naquelas gavetas está o que desejo achar, mas eu só vou descobrir o que é quando encontrar. Quem já perdeu alguma coisa dentro de casa, e durante a procura esqueceu o que estava a buscar, percebe o significado da situação. Por um momento, a pessoa só sabe que perdeu algo e que está a procurar uma coisa perdida, mas não sabe mais o que é. Saberá quando a achar.
Ocorre que as gavetas onde posso encontrar o que estou procurando são acionadas pela minha mente, e como não sei exatamente o que quero, ponho diferentes gavetas em ação ao mesmo tempo. Na pressa, não consigo controlar a mente, por conseguinte, também não tenho domínio sobre as gavetas. Se fossem abertas uma a uma, mesmo que eu levasse muito tempo para encontrar o objeto procurado, meu propósito talvez resultasse. Mas a ansiedade me atrapalha.
Eu amo a vida e só morrerei por falta de opção.
Gavetas e mais gavetas estão a se abrir em todas as direções. Se eu me abaixo, na tentativa de me esquivar das que estão a abrir na altura do meu estômago, sou atingida pelas que também se abrem no rés do chão. Pulo dali, para não ter os pés presos. As gavetas de baixo são as mais pesadas, preciso estar atenta a esse detalhe. De repente, algumas se enfileiram, como se fossem degraus, subo-os e transponho a barreira que se formou à minha frente, mas outra atinge-me as costas e, acima, uma machuca-me a cabeça. Corro o risco de ser esmagada.
Os espaços livres são cada vez mais exíguos, tendem a desaparecer completamente. A essa altura, mesmo que eu desista da busca, não sei por onde escapar. Apesar da angústia, não pretendo desistir. A minha agitação, no entanto, aciona toda a engrenagem, e de uma só vez todas as gavetas estão a se chocar umas contra as outras. Só me resta uma saída: nem todas as gavetas estão cheias, posso encolher-me dentro de uma onde caiba, antes que seja espremida como uma fruta madura.
Embora já se tenha dito que eu fui criada como Deus criou batata, não sou tão simples. Talvez uma espécie menos cultivada. A referência, que tenciona indicar uma cultura fácil, não se aplica a mim. Eu não estaria naquela situação, se criasse raízes e folhas à sua semelhança. Dentro daquela caixa salvadora, começo a me perguntar, de fato, o que estou a procurar. Não há dúvida, estou presa, mas presa dentro de mim mesma. Se eu não encontrar a saída, posso morrer dentro daquela gaveta e serei responsabilizada pela minha própria morte. Mas eu não tenho tendências suicidas. Ao contrário, eu amo a vida e só morrerei por falta de opção.
Naquela caixa, em posição de feto, eu penso na vida, nas minhas deambulações por diferentes sítios, nas relações interrompidas e, sobretudo, nas profundas diferenças entre os meus mundos material e espiritual. Dito de outro modo, eu me pergunto sobre a razão e a emoção. Sob qualquer designação, embora indissociáveis, parece-me que estou a tratar de duas pessoas. De fora, avalio as duas. Uma é metódica, organizada, disciplinada, cumpridora de prazos, horários e responsabilidades. Tirana consigo mesma. De tão rigorosa, inviabiliza relacionamentos, o que a faz sofrer. Mas quando indagada sobre esses comportamentos, de pronto responde: “Não é sacrifício, é uma escolha. Facilita-me a vida.” Essa ordem impressa sobre as coisas, diz ela, lhe dá mais liberdade para se ocupar com o que considera essencial: supostamente, refere-se à outra. Mas entre intenção e gesto vê-se uma grande distância. Nas coisas ditas essenciais estariam, sem dúvida, os sentimentos, os desejos, os projetos, os sonhos, todos jogados de modo aleatório dentro daquelas gavetas sobre as quais ela demonstra não ter controle.
Ah, se, subjetivamente, eu fosse tão organizada como sou no âmbito da vida material, aquelas gavetas que, vistas de fora pareciam arrumadas, não seriam acionadas de modo tão confuso. Não sei se dava para cuidar delas do mesmo modo como eu preservo cópias de títulos esgotados, guardados em caixas-arquivo numeradas, com relação autor/título e lista correspondente no computador. Não sei se é possível, nem sei se quero catalogar em ordem alfabética e dispor em gavetas coisas como abandono, amantes, amigos, amor, casamento, divórcio, filhos, marido, pai, mãe, paixão, saudade, sexo, vida, morte. Só sei que não quero ser aniquilada pelas minhas próprias memórias.
Maria Augusta Tavares
Investigadora do trabalho