Jornal Maio

A pátria nos contempla

A pátria não passa de uma entidade abstrata que, explorando os mais fundos sentimentos populares de ligação à terra, à pequena propriedade, à cultura, à tradição, ao modus vivendi, à própria história, obriga o povo trabalhador a servir, com dedicação e alegria, os interesse rapaces e desumanos da classe dirigente. Até à morte.

Mário Tomé

Mário Tomé

Capitão de Abril

Hoje, para abordar a guerra, que não passa de terrorismo, só pondo Orwell a ler Clauzewitz. Ou seja: a política é continuação da guerra por outros meios e 

guerra é paz, paz é guerra.

Guerra é terrorismo, é o que é!

O proletariado, o povo, os povos, nunca passaram de carne para canhão nas guerras imperialistas de todos os tempos

A Segunda Guerra Mundial foi a única em que proletariado se defendeu integrado num exército imperialista, porque contra o monstro nazifascista e, também, batendo-se heroicamente, autonomamente, nas resistências ao invasor. 

A URSS, primeiro e fundamental objetivo da guerra de Hitler, e referência absoluta para o proletariado naqueles anos de desastre e de ameaça à própria humanidade, foi, pelo seu sacrifício e pela sua resposta heroica ao invasor nazi, a grande vencedora da Segunda Guerra Mundial.

Nas guerras de libertação das colónias portuguesas, a que chamamos guerra colonial, o colonialismo e o fascismo foram derrotados sem apelo nem agravo. 

À luta dos movimentos de libertação juntou-se a ação dos capitães de Abril, conscientes da derrota iminente no terreno e do isolamento do regime junto ao povo, que se refletia no repúdio generalizado da guerra. 

No dia 25 de Abril as próprias Forças Armadas, ao serviço do colonialismo e do fascismo, a que chamavam defesa da pátria, foram derrotadas pelo Movimento dos Capitães. 

Portanto, a pátria portuguesa ficou em perigo exatamente no 25 de Abril e no PREC, quando um grande movimento popular, sustentado pela adesão dos soldados, questionou o que até então era inquestionável e até então os pilares da pátria: os pais fundadores, os reis do povo, os santos condestáveis, os heróis sem mácula, os tribunos impolutos, as instituições venerandas, a hierarquia militar. 

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Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.

A pátria não passa de uma entidade abstrata que, explorando os mais fundos sentimentos populares de ligação à terra, à pequena propriedade, à cultura, à tradição, ao modus vivendi, à própria história, obriga o povo trabalhador a servir, com dedicação e alegria, os interesse rapaces e desumanos da classe dirigente. Até à morte.

A classe dirigente todos a conhecemos. E quem não a conhecer que a compre, como diz o outro.

Eu faço já uma declaração de interesses: a minha pátria não é aquela que o Jorge de Sena, mestre do sarcasmo demolidor, quis beijar apaixonadamente na boca.

A minha pátria é a do José Fanha no seu poema “Eu sou português aqui”.

Hoje, a luta contra a guerra é a mesma que contra a guerra social; os campos em confronto são os mesmos, trabalhadores e imperialismo, mesmo que por interpostos governos.

Por isso, a necessidade de unificar as lutas contra a guerra, contra as alterações climáticas e contra os governos do capital e daí a necessidade de desmascarar a mitologia atrás da qual escondem o objetivo: aumentar a exploração e os negócios do armamento e das big techs.

Servem-nos em bandeja colorida: “A pátria obra de soldados”. Dulce et decorum est pro patria mori (Horácio) (É doce e honroso morrer pela pátria).

Pacheco Pereira, um dos nossos mais elaborados e firmes opositores do partido fascista, mas incapaz de se libertar da “memória das naus” e do “patriotismo” que nos levou ao desastre da Flandres e à guerra colonial, a servir o imperialismo na NATO e a “prolongar a guerra até à derrota da Rússia”, como proclamou António Costa, antecipando o kiss my ass de Trump, quer repor o serviço militar obrigatório (SMO), deitando às urtigas o que a vontade expressa democraticamente por todos os partidos, apertados pela juventude, decidiu nos idos de 2004: o fim do SMO.

Tudo porque, como na divertida comédia de Norman Jewison, em plena guerra fria, “Vêm Aí os Russos.”

 

Resumindo, há uma palavra de ordem a palpitar no peito dos mancebos: “Vai tu!”

 

Mas não só: há razões mais fundas: daquelas que levam às grandes tragédias e que nos assombram e que uniram, nos idos de Março de 2003, em apoio ao crime de guerra que foi a invasão do Iraque por George W. Bush, alguns dos nossos mais eminentes e preclaros intelectuais como Vasco Pulido Valente, José Manuel Fernandes, João Carlos Espada, o filósofo Fernando Gil, em redor do próprio Pacheco Pereira, em defesa da nossa civilização, pois que se tratava de um confronto de civilizações. 

Pacheco quer a juventude pronta para defender a pátria dele e a civilização de Trump e associados. Infelizmente, ele já não tem idade, confessou, para integrar a tropa bem alinhada, pala nos olhos, continência à devida distância. Mas os jovens, há que prepará-los.

E, não esquecer, sempre prontos: dulce et decorum est…

Resumindo, há uma palavra de ordem a palpitar no peito dos mancebos: “Vai tu!”

A pátria, como fetiche do poder, sustentada sobre mitos que até podem ajudar a sobreviver e a aceitar o mundo humano, uma espécie de ópio do povo, mas impedem a sua transformação e promovem a irracional sujeição. 

Os “nossos” aliados são os nossos inimigos, como não será difícil provar. Se não o sabemos, somos capazes de senti-lo. E o Orwell que não nos larga!

Contra os glutões, marchar, marchar!

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